Tsipras e Kammenos são diferentes em tudo. Menos na vontade de acabar com a tragédia grega.
Água e vinho. Azeite e vinagre. Açúcar e sal. Alexis Tsipras e Panos Kammenos. Os líderes do governo que tomou posse na Grécia na segunda-feira passada – como resultado de uma coligação improvável entre o partido de esquerda radical Syriza e o partido conservador e nacionalista Gregos Independentes – parecem diferentes em tudo exceto na decisão de renegociarem a dívida grega (de 300 mil milhões de euros) e de afastarem a austeridade.
Com um número de deputados díspar – o Syriza obteve 149 lugares no parlamento enquanto o ANEL (abreviatura do partido que Kammenos fundou em 2012) apenas 13 –, os dois homens têm nove anos e muitos quilos de diferença. Aos 40, Tsipras é o mais jovem primeiro-ministro da Grécia contemporânea e é, indiscutivelmente, carismático e telegénico.
O seu ar dinâmico convenceu os gregos a confiarem-lhe o voto apesar do tom radical do partido que dirige, uma coligação de esquerda que chegou a integrar o partido comunista grego e que se designa de Syriza desde 2004. Cultiva o ar descontraído, odeia gravatas (já disse que nem como primeiro-ministro o apanharão com tal acessório) e vive maritalmente com a mulher que conheceu na adolescência, Peristera Batziaka, de quem tem dois filhos. O mais novo chama-se Ernesto, por homenagem a ao guerrilheiro marxista argentino Che Guevara. Descreve-se como ateu e defende os direitos dos homossexuais e o casamento gay.
Aos 49 anos, Panos Kammenos
tem poucos atrativos físicos quando comparado com o parceiro de coligação. Cristão (é membro da Igreja Ortodoxa Grega), defende que a Igreja deve ter voz ativa no Estado e quer ver a taxa de imigração limitada (e reduzida a níveis "económica esocialmente sustentáveis", embora não explique o que entende por isso ou como tenciona alcançá-lo). Casado com Eleni Tzouli, tem cinco filhos e é assumidamente contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
No entanto, contra as expectativas, são estes homens que em menos de uma hora chegaram a acordo para governar o país.
FAMÍLIA E EDUCAÇÃO
Como a maioria dos políticos gregos, nem Alexis Tsipras nem Panos Kammenos têm origens humildes. O primeiro nasceu no seio de uma família da classe média-alta, filho de um engenheiro civil que geria o seu próprio negócio de construção. Alexis chegou a trabalhar na área, mas por pouco tempo.
Como o pai, licenciou-se em Engenharia Civil – em 2000, na Universidade
Técnica de Atenas – e fez uma pós-graduação em planeamento urbanístico, mas desde a adolescência que se interessava cada vez mais por política. No final da década de 80 juntou-se à Sociedade de Jovens Comunistas e aos 17 anos fez a primeira ‘ação revolucionária’: organizou a ocupação do liceu onde estudava para reclamar contra a reforma do sistema educativo. Entre outras reivindicações, reclamava o direito dos alunos de faltarem às aulas.
Quando, em 2004, se formou o Syriza – aliança de forças de esquerda – Tsipras era líder do Synaspismos, o maior grupo dentro da coligação (tinha conseguido a proeza aos 33 anos).
A partir daí, a história escreve-se muito depressa: em 2012 a aliança tornou-se partido e alcançou 16% dos votos nas eleições de maio e quase 27% nas de junho. No ano passado, Tsipras foi candidato à presidência da Comissão Europeia (pelo Partido da Esquerda Europeia) e passou por Portugal para participar, com Mário Soares, numa conferência sobre os 40 anos do 25 de Abril. Em tudo isto, a sua popularidade não parou de aumentar, para o que muito contribuiu o facto de ter começado nos últimos tempos a suavizar o discurso e a procurar manter uma postura menos radical.
Curiosamente, também a popularidade de Kammenos tem-se mantido firme junto dos gregos, embora os analistas não consigam interpretar o fenómeno, dada a sua imagem de amigo do disparate. Adepto das teorias da conspiração, conhecido pelas declarações bombásticas e nem sempre refletidas que já lhe valeram processos judiciais, num dos seus momentos mais criativos atirou para o ar que os judeus pagam menos impostos do que os cristãos ortodoxos na Grécia (acusação sem qualquer fundamento).
Em 2013 foi obrigado a pagar uma indemnização de 30 mil euros ao irmão do ex- primeiro-ministro Georgios Papandreou, por difamação (acusou-o indevidamente de desvio de fundos). Mas o eleitorado vê nele um patriota e valoriza a forma enérgica como luta, contra tudo e todos, pelos interesses do país.
O TERCEIRO MAIS RICO
Com ligações a um dos mais lucrativos negócios de produtos lácteos (a Fage S.A, que movimenta mais de 500 milhões de euros por ano), o líder do ANEL estudou Economia e Psicologia na Universidade de Lyon, Suíça, e chegou ao parlamento aos 28 anos, como deputado eleito pela Nova Democracia. Em 2011, quando o hemiciclo revelou as declarações fiscais dos políticos com assento parlamentar, descobriu-se que era o terceiro mais rico, atrás de Samaras (Nova Democracia) e de Venizelos (PASOK). Em 2010 teria auferido juntamente com a mulher 161 405 euros (dos quais cerca de 30 mil de honorários como advogado).
Com mais 55 mil euros em ações, Kammenos declarou ainda propriedades em Antas e Samos, três carros e um barco. Isto no mesmo ano em que Tsipras declarou um rendimento de 60 561 euros (o seu salário como deputado), uma propriedade em Ática e uma motorizada BMW (que entretanto trocou por um carro para transportar os filhos).
Em 2012, expulso da Nova Democracia
por ter votado contra as medidas de austeridade exigidas pela troika, Panos Kammenos fundou o partido dos Gregos Independentes, que obteve 10,6% dos votos nas eleições de maio e 7,5% nas de junho. Nas últimas eleições conseguiu apenas 4,68% dos votos, o suficiente para que Tsipras o tenha desafiado a formar governo e, assim, diluir o vermelho do Syriza com o toque branco e azul do ANEL.
Ambos têm detratores: se uns temem a incontinência verbal de Kammenos ou que volte a contratar amigos para cargos políticos (foi atacado por ter recrutado o primo como colaborador); outros acusam Tsipras de ser narcisista e temem pela condução da política externa, já que, por não ser casado, dificilmente será bem recebido nos países mais conservadores. O seu encontro com o papa Francisco, em setembro, não teve outro objetivo que o de melhorar-lhe a imagem internacional. Mas defeitos e qualidades à parte, os dois homens prometem unir esforços para reduzir o desemprego (de 26%) e travar a onda de suicídios que, em números não oficiais, já soma seis mil mortos desde 2009.
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