Numa entrevista realizada há quatro anos, Johnny Cash falava sem rodeios do passado conturbado, dos amores, dos ódios, da família e de muitos anos a guiar-se por um caminho cheio de curvas e contracurvas.
“Não passaram dois meses desde esse dia em que eu não tivesse sonhado com ele. Ele tentou ajudar-me a regressar à estrada da vida”, confidenciaria a meio da conversa, emocionado. ‘Ele’ era Jack, o irmão falecido em 1943, quando o cantor tinha apenas 11 anos e crescia livre e descomprometido no meio das plantações de algodão da rural Kingsland, cidadezinha perdida nas entranhas da América, em pleno estado do Arkansas.
A ferida de tão grande perda jamais cicatrizou. É com ela que começa ‘Walk the Line’, filme de James Mangold que aborda a trajectória sofrida dos ‘verdes anos’ de Johnny Cash, da ida para a guerra à atracção pelo abismo da toxicodependência e, finalmente, ao reencontro com o amor, personificado na figura da também cantora June Carter, magistalmente interpretada pela jovem Reese Witherspoon. A actriz mostrou-se tão convincente no papel que está entre as cinco candidatas ao Óscar, não sendo descabido imaginá-la a caminhar triunfante pela passadeira do Kodak Theatre.
Joaquin Phoenix também poderá sentir o sabor da vitória na noite de 5 de Março e erguer o mais desejado galardão de Hollywood, em especial porque na nova representação chegou ao limite de cantar os temas de Johnny Cash, curiosamente com bons resultados. O seu desempenho na pele do ‘Homem de Negro’ tem, aliás, deixado marcas junto do público e da crítica, um feito notável para um actor de 31 anos que até há bem pouco tempo era visto por alguns cépticos como mais um canastrão de cara laroca.
EM ENTREVISTA RECENTE à revista de cinema ‘Premiere’, Joaquin Phoenix revela o seu contentamento por ter encarnado um indivíduo que chegou a conhecer e aprendeu a admirar: “Quando comecei a pesquisar percebi que o John teve uma vida excepcionalmente rica. Sempre que virava uma página do livro ‘Cash: The Autobiography’, ou do ‘Man in Black: His Own Story in His Own Words’, dizia: não acredito que ele fez isto, temos de pôr isto no filme. Mesmo os registos autobiográficos têm tantas histórias extraordinárias, que deve ter sido muito difícil condensar a vida dele em duas horas.” Para tal, James Mangold centrou a acção na longa e tumultuosa história de amor entre o cantor country e June Carter, que com ele partilhou canções, um filho e muitas aventuras pelas longas estradas norte-americanas.
Fora do enredo de ‘Walk the Line’ ficou uma catadupa de episódios rocambolescos na intensa passagem de Johnny Cash pela Terra, entre os quais ter ateado fogo a metade de um parque florestal de dimensões gigantescas. Quando presente ao juiz por causa de tão hediondo crime, o músico não teve pejo em explicar: “Não fui eu que fiz isso. Foi o meu camião, e ele está morto.”
Apesar de vários actos de rebeldia, o músico maldito, contemporâneo de Elvis Presley, Jerry Lee Lewis e Roy Orbison, aparece no grande ecrã como uma fera contida, algo que o realizador planeou com antecedência: “Acima de tudo, o aliciante foi a oportunidade de fazer um filme sobre uma das grandes histórias de amor. Há algo de mágico na ideia de que, por uma década, o único lugar onde John e June conseguiam estar juntos era em cima de um palco em frente de 10 mil pessoas.”
VAI GOSTAR SE... sente atracção por histórias de amor conturbadas, conhece a música de Johnny Cash e costuma ver filmes sobre lendas da música, como aconteceu recentemente em ‘Ray’.
- Género: Drama/Romance.
- Realização: James Mangold.
- Actores: Joaquin Phoenix, Reese Witherspoon e Ginnifer Goodwin.
- Classificação: 4/5.
FILMES COM MÚSICA DENTRO
‘AMADEUS’ - 1984
Milos Forman adaptou de forma livre a vida e obra de Wolfgang Amadeus Mozart, num filme que a par com ‘Quem é Aquela Rapariga?’ e ‘Desesperadamente Procurando Susana’ marcou a década de 80. Com estilo muito pop.
‘THE DOORS' - 1991
Oliver Stone foi às memórias da adolescência ressuscitar Jim Morrison e os Doors, numa viagem sem pudor ao mundo do ‘sexo, drogas e rock’n’roll’ dos anos 60. Val Kilmer tem uma soberba interpretação na pele do ‘Rei lagarto’.
‘24 HOUR PARTY PEOPLE’ - 2002
Mais do que o retrato de um grupo ou de um músico, ‘24 Hour Party People’ é o retrato de uma geração que trouxe nova força às canções, ao buscar no punk influências para a pop que reinou em Manchester na década de 80.
‘RAY’ - 2004
Biografia emocional da vida e obra de Ray Charles, um dos maiores músicos norte-americanos do século XX, monstro sagrado da soul. O filme foi tão aplaudido que Jamie Foxx arrebatou o Óscar para Melhor Actor Principal.
HISTÓRIA DE UM AMOR ETERNO
O romance entre Johnny Cash e June Carter foi tudo menos pacífico. Primeiro porque nasceu ‘on the road’ numa altura em que ambos tinham outros relacionamentos, chocando a América conservadora; depois porque o cantor viveu durante um longo período envolto na dependência de drogas, situação que transformou a relação num barril de pólvora. Aliás, June acabou por ser peça fundamental para que ele largasse a toxicodependência. Casaram no final da década de 60, tiveram um filho e cantaram em dueto alguns dos temas mais escutados nas rádios norte-americanas. Cash morreu em Setembro de 2003, quatro meses após o desaparecimento da sua eterna amada.
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