page view

"Ia morrendo a manusear uma granada"

“Como furriel, fiz parte da companhia ‘Os Bruxos’. Em Caniaculo vivi dois meses terríveis, arrepiantes, que estão sempre na minha memória”.

26 de outubro de 2008 às 00:00

A 19 de Julho de 1972 cheguei a Moçambique com cem camaradas para formar a Companhia de Comandos 2040 – ‘Os Bruxos’. A primeira intervenção deu-se em Estima, próximo de Cabora Bassa, e não começou bem. A 15 de Outubro houve as primeiras baixas: morreram os soldados Sousa e Estrela e ficaram gravemente feridos o furriel Espadinha, do meu grupo, e o alferes Menino. A missão terminou em Novembro e falhei a segunda por estar de férias na Metrópole.

Em Maio de 1973, a minha companhia foi chamada de urgência a Mueda, porque Cabo Delgado acabava de ser bombardeada com ‘foguetes’ de calibre 122 mm. Na perseguição ao inimigo, o comando Pacheco pisou uma mina e ficou gravemente ferido. Depois, fomos deslocados para Nangololo, um tremendo ‘buraco’, onde ia morrendo a 26 de Maio ao manusear uma mina anti-pessoal. Tinha o detonador deteriorado e incendiou-se como uma bicha de Carnaval. Se tivesse explodido eu era mais uma vítima de guerra. Esta mina fazia parte do lote de 36 que o inimigo colocou numa pista de aviação com o intuito de explodir o avião que levava combustível para outra companhia ali estacionada.

Foi a partir de Nangololo que participei numa gigantesca operação helitransportada, que envolveu as companhias de Comandos 2040 e a 32.ª, bem como uma dezena de helicópteros. Fomos largados na zona da Base Gungunhana e atacados pela artilharia inimiga, entretanto neutralizada pelas bombas lançadas dos aviões Fiat da Força Aérea. Foram momentos de horror, com medo de que alguma nos atingisse. A operação deveria durar dois, três dias, mas acabámos por só ser recolhidos ao 10.º dia. Ficou ferido com gravidade o soldado Maneta, atingido com um tiro num joelho e já falecido.

Outra das intervenções, também trágica, aconteceu em Caniaculo – Mungári. Duas equipas sofreram uma emboscada quando iam buscar água para o acampamento que montávamos, durante a qual morreu o soldado Jairoce, natural de Moçambique, e ficaram gravemente feridos o 1.º cabo Mecânico Leite e o soldado Silva. Passados alguns dias, fomos atacados às 02h00 com armas pesadas e ficou ferido com gravidade o 1.º cabo Marino do 1.º grupo de combate. Foi também em Caniaculo que perdemos o camarada Alfinete, de Moçambique, e o soldado Moreira sofreu a amputação de uma perna em resultado de ferimentos numa emboscada. A missão de dois meses em Caniaculo está sempre na minha memória: foi terrível, arrepiante, passei fome, sede. Comi mais de 70 refeições de arroz com atum.

Numa coluna que integrei, entre Nura e Mecumbura, a viatura em que seguia sofreu uma emboscada, registando-se um ferido grave, um homem que não pertencia à minha companhia, e, em Fevereiro de 1974, perdemos o nosso alferes Nabais, natural de Meimoa, Penamacor, que estava adido à 5.ª Companhia de Comandos de Moçambique.

Hoje, ainda recordo com muita tristeza os dias em que estive em Mueda e as dificuldades que iam aparecendo à medida que a comissão chegava ao fim. Foi ao 25.º mês de comissão – já depois do 25 de Abril de 1974 –, a 28 de Maio, que fomos alvo da mais violenta emboscada. Aconteceu na zona de Inhamitanga, Gorongosa, e perdemos três camaradas: o furriel Carvalhido e os soldados Frias e Marques. Como fiquei muito traumatizado com estas mortes, recusei-me ‘diplomaticamente’ a ir para o mato a partir daquela data. Fui a uma consulta a Inhaminga e consegui outra no Hospital da Cidade da Beira, argumentando que ‘me doíam os dentes’. Durante 15 dias, foram umas maravilhosas férias e não consegui tempo para conhecer o dentista. Regressei novamente à companhia e a Inhamitanga, para embarcar com destino a Lourenço Marques, pois era preciso pôr ordem na cidade. Estávamos em Agosto de 1974 e os ânimos iam-se inflamando e causando distúrbios. Foi um mês maravilhoso, tudo decorreu pelo melhor. Regressámos a Montepuez para fazer o espólio e voltar à Metrópole. E depois rumámos à Cidade da Beira para em Setembro seguinte embarcarmos de avião para Lisboa.

PROCURA UM 'TENENTE-CORONEL' QUE FOI SEU 'FILHO ADOPTIVO'

João Maria Barquinha, casado, tem um filho, de 32 anos, uma filha, de 28, e um neto, de três. Regressou a 7 de Setembro de 1974, tendo trabalhado na construção civil até Julho de 1979. Voltou à vida militar, no Regimento de Comandos, como 2.º sargento miliciano,e passou à disponibilidade a 19 de Julho de 1982. Agora trabalha novamente na construção civil. Começou a sua carreira militar na Escola Prática de Cavalaria de Santarém e ofereceu--se para frequentar o 24.º Curso de Comandos no CiC em Luanda. Embarcou a 14 de Abril de 1972 e recebeu o crachá de Comando a 8 de Agosto, depois de completar o curso com 16,06 valores. Hoje, entre agradecimentos às pessoas com quem se correspondeu e ao Movimento Nacional Feminino, pede a quem souber do ‘tenente-coronel Américo’ (um menino poupado num ataque a uma base inimiga e de quem foi ‘pai adoptivo’) que o contacte.

Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?

Envie para geral@cmjornal.pt

o que achou desta notícia?

concordam consigo

Logo CM

Newsletter - Exclusivos

As suas notícias acompanhadas ao detalhe.

Mais Lidas

Ouça a Correio da Manhã Rádio nas frequências - Lisboa 90.4 // Porto 94.8