“Como furriel, fiz parte da companhia ‘Os Bruxos’. Em Caniaculo vivi dois meses terríveis, arrepiantes, que estão sempre na minha memória”.
A 19 de Julho de 1972 cheguei a Moçambique com cem camaradas para formar a Companhia de Comandos 2040 – ‘Os Bruxos’. A primeira intervenção deu-se em Estima, próximo de Cabora Bassa, e não começou bem. A 15 de Outubro houve as primeiras baixas: morreram os soldados Sousa e Estrela e ficaram gravemente feridos o furriel Espadinha, do meu grupo, e o alferes Menino. A missão terminou em Novembro e falhei a segunda por estar de férias na Metrópole.
Em Maio de 1973, a minha companhia foi chamada de urgência a Mueda, porque Cabo Delgado acabava de ser bombardeada com ‘foguetes’ de calibre 122 mm. Na perseguição ao inimigo, o comando Pacheco pisou uma mina e ficou gravemente ferido. Depois, fomos deslocados para Nangololo, um tremendo ‘buraco’, onde ia morrendo a 26 de Maio ao manusear uma mina anti-pessoal. Tinha o detonador deteriorado e incendiou-se como uma bicha de Carnaval. Se tivesse explodido eu era mais uma vítima de guerra. Esta mina fazia parte do lote de 36 que o inimigo colocou numa pista de aviação com o intuito de explodir o avião que levava combustível para outra companhia ali estacionada.
Foi a partir de Nangololo que participei numa gigantesca operação helitransportada, que envolveu as companhias de Comandos 2040 e a 32.ª, bem como uma dezena de helicópteros. Fomos largados na zona da Base Gungunhana e atacados pela artilharia inimiga, entretanto neutralizada pelas bombas lançadas dos aviões Fiat da Força Aérea. Foram momentos de horror, com medo de que alguma nos atingisse. A operação deveria durar dois, três dias, mas acabámos por só ser recolhidos ao 10.º dia. Ficou ferido com gravidade o soldado Maneta, atingido com um tiro num joelho e já falecido.
Outra das intervenções, também trágica, aconteceu em Caniaculo – Mungári. Duas equipas sofreram uma emboscada quando iam buscar água para o acampamento que montávamos, durante a qual morreu o soldado Jairoce, natural de Moçambique, e ficaram gravemente feridos o 1.º cabo Mecânico Leite e o soldado Silva. Passados alguns dias, fomos atacados às 02h00 com armas pesadas e ficou ferido com gravidade o 1.º cabo Marino do 1.º grupo de combate. Foi também em Caniaculo que perdemos o camarada Alfinete, de Moçambique, e o soldado Moreira sofreu a amputação de uma perna em resultado de ferimentos numa emboscada. A missão de dois meses em Caniaculo está sempre na minha memória: foi terrível, arrepiante, passei fome, sede. Comi mais de 70 refeições de arroz com atum.
Numa coluna que integrei, entre Nura e Mecumbura, a viatura em que seguia sofreu uma emboscada, registando-se um ferido grave, um homem que não pertencia à minha companhia, e, em Fevereiro de 1974, perdemos o nosso alferes Nabais, natural de Meimoa, Penamacor, que estava adido à 5.ª Companhia de Comandos de Moçambique.
Hoje, ainda recordo com muita tristeza os dias em que estive em Mueda e as dificuldades que iam aparecendo à medida que a comissão chegava ao fim. Foi ao 25.º mês de comissão – já depois do 25 de Abril de 1974 –, a 28 de Maio, que fomos alvo da mais violenta emboscada. Aconteceu na zona de Inhamitanga, Gorongosa, e perdemos três camaradas: o furriel Carvalhido e os soldados Frias e Marques. Como fiquei muito traumatizado com estas mortes, recusei-me ‘diplomaticamente’ a ir para o mato a partir daquela data. Fui a uma consulta a Inhaminga e consegui outra no Hospital da Cidade da Beira, argumentando que ‘me doíam os dentes’. Durante 15 dias, foram umas maravilhosas férias e não consegui tempo para conhecer o dentista. Regressei novamente à companhia e a Inhamitanga, para embarcar com destino a Lourenço Marques, pois era preciso pôr ordem na cidade. Estávamos em Agosto de 1974 e os ânimos iam-se inflamando e causando distúrbios. Foi um mês maravilhoso, tudo decorreu pelo melhor. Regressámos a Montepuez para fazer o espólio e voltar à Metrópole. E depois rumámos à Cidade da Beira para em Setembro seguinte embarcarmos de avião para Lisboa.
PROCURA UM 'TENENTE-CORONEL' QUE FOI SEU 'FILHO ADOPTIVO'
João Maria Barquinha, casado, tem um filho, de 32 anos, uma filha, de 28, e um neto, de três. Regressou a 7 de Setembro de 1974, tendo trabalhado na construção civil até Julho de 1979. Voltou à vida militar, no Regimento de Comandos, como 2.º sargento miliciano,e passou à disponibilidade a 19 de Julho de 1982. Agora trabalha novamente na construção civil. Começou a sua carreira militar na Escola Prática de Cavalaria de Santarém e ofereceu--se para frequentar o 24.º Curso de Comandos no CiC em Luanda. Embarcou a 14 de Abril de 1972 e recebeu o crachá de Comando a 8 de Agosto, depois de completar o curso com 16,06 valores. Hoje, entre agradecimentos às pessoas com quem se correspondeu e ao Movimento Nacional Feminino, pede a quem souber do ‘tenente-coronel Américo’ (um menino poupado num ataque a uma base inimiga e de quem foi ‘pai adoptivo’) que o contacte.
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