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“Já se destrói com laser células doentes”

A nanotecnologia vai estar presente em todos os campos da nossa vida, da medicina à electrónica. Uma revolução em ponto (muito) pequeno.

02 de agosto de 2009 às 00:00

Começa-se a ouvir falar muito em nanotecnologia. Mas, afinal, o que é isto?

A nanotecnologia é uma tecnologia que envolve um conjunto muito variado de técnicas das mais diversas áreas, como a Electrónica, Informática, Química, Física ou Biologia. Visa estudar tudo o que se passa à nanoescala, ou seja, à escala do nanómetro, entre um nanómetro e 500 nanómetros para ser mais preciso.

Mas, e de forma a que consigamos entender, um nanómetro corresponde a quê?

Um nanómetro é um milhão de vezes inferior ao milímetro, mil milhões de vezes abaixo do metro.

Quem foram os pioneiros desta  tecnologia?

Os pioneiros da tecnologia em si são vários, não podemos falar só de um. Houve uma série de grupos de investigação em ciência que contribuiu para isto, sobretudo a partir do último quartel do século XX, quando se deu o boom das tecnologias nesta área. Lembro-me do célebre discurso de Richard Feynman, na década de 50, em que ele disse que um dia será possível colocar todas as bibliotecas do Mundo na cabeça de um alfinete. E já não estamos muito longe disso, pelo menos a Biblioteca Britânica [uma das maiores do Mundo] já se consegue pôr na cabeça de um alfinete. Portanto, prevê-se que no futuro a miniaturização ainda será maior e vai atingir o nanomundo, porque estas coisas dos USB ainda não é nanotecnologia. Tudo isso é microtecnologia.

Portanto, fala de uma escala ainda maior do que a nano, apesar de uma pen drive, por exemplo, já ser muito pequena.

É mil vezes superior. Da micro para a nano temos sensivelmente o factor mil.

Mas a nanotecnologia é já uma certeza?

Como viu ali naquele laboratório...

E é seguro afirmar que no futuro vai estar presente em todos os aspectos da nossa vida?

Isso é seguro, vai estar presente. Pelo menos em qualquer indústria de base tecnológica de futuro, seja ela química, de materiais... Em tudo isso temos a possibilidade de ter a nanotecnologia presente.

Mas que aplicações tem e em que campos?

Imensas. Por exemplo, no campo dos lubrificantes, melhora as capacidades de lubrificação de peças cada vez mais pequenas. O que não é fácil porque como a escala é muito pequena a lubrificação também muda. Por exemplo, à nanoescala o óleo deixa de ser lubrificante. Estou particularmente interessado nestes pós porque são porosos e assim sendo têm a capacidade de se poderem tornar esponjas de certas moléculas. Tal como nós usamos a esponja para absorver água podemos utilizar estes materiais para absorver determinados tipos de gases, como o hidrogénio. Se conseguirmos isso, temos um dos grandes problemas da energia limpa resolvidos. O hidrogénio não é poluente, mas tem problemas: é explosivo. Se tivermos uma esponja de hidrogénio este problema é resolvido. E mais, uma esponja de hidrogénio com cerca de 10 cm acumula tanta energia como uma botija de gás enorme. Futuramente poderemos inserir no telemóvel uma botija de hidrogénio em vez das baterias.

Portanto, estes materiais podem ser aplicados em todas as áreas.

Há materiais destes que podem ser incorporados, por exemplo, em próteses que evitam infecções. E já que estamos no campo da medicina, as sondas, que já são coisas pequeninas, ainda têm dificuldade em penetrar em alguns sítios do corpo, como o cérebro. Aqui, a esperança é usar sondas que consigam ir ao cérebro, inclusivamente fazer cirurgia em determinadas zonas hoje inacessíveis. Do ponto de vista da terapêutica, temos também já a possibilidade de fazer tratamentos de certos tipos de cancro, nomeadamente superficiais, em que já é possível destruir através de lasers células doentes que foram acopladas a nanopartículas injectadas no sangue.

E a construção de robôs minúsculos que actuem dentro do nosso corpo?

Ainda estamos um bocado longe disso. Já existem microrrobôs mas não nanorrobôs.

Isso é apenas do domínio da ficção científica, ainda?

Sim. Quem está mais avançado são os japoneses. Na área da microtecnologia já há, no campo da Medicina, inúmeras aplicações. Para já, nanorrobôs é impossível mas não é um passo a descartar.

Portanto, tudo isto vai revolucionar a nossa vida?

Tudo, completamente. Da Informática à Medicina. Como se vê, a tendência é tudo para o mais pequeno. Qualquer dia temos os computadores integrados na nossa pele.

Quais são os produtos mais promissores a ser testados neste momento?

Há imensa coisa. Desde protectores solares, passando pela limpeza de cozinhas, superfícies não aderentes, tecidos que não ganham nódoas e que podem vir a incorporar material electrónico, até materiais mais resistentes na indústria aeronáutica e automóvel.

E quando é que poderemos ver esta tecnologia a funcionar em pleno?

Penso que nos próximos dez anos muita coisa vai acontecer, nas mais diversas áreas, desde a Energia, Electrónica e Medicina.

Como viu o surgimento do novo Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia (INL), em Braga?

Penso que é importante. E, tanto quanto sei, está muito vocacionado para a Medicina, que é uma área muito importante e com grande impacto social. Só espero que com o laboratório se criem condições para desenvolver a investigação ao nível nacional, com as diversas universidades.

O ministro da Ciência, Mariano Gago, disse que o objectivo é o INL entrar no clube restrito de cinco a dez laboratórios de referência a nível mundial dentro de cinco a dez anos. É possível?

Ao nível global de investigação, isso é um disparate. Ao nível de nanotecnologia, é possível entrar nos cinco laboratórios de referência mas terá de ser com uma pedalada muito grande. Se ele conseguir os 200 investigadores que quer e com um currículo muito bom eu penso que sim. O contrário não.

Em Portugal, quais são os sectores que podem tirar mais vantagens desta tecnologia?

A Electrónica, o sector Automóvel e a Medicina são sectores que podem ter uma vantagem primordial.

Quantos cientistas há a trabalhar nesta área?

Em Portugal, muito poucos. Em nanotecnologia pura talvez uma dezena. Mas depois há muitos a trabalhar em aplicações, passando para as centenas.

E são os suficientes?

Não, ainda somos poucos.

Com que objectivo é que partiu para a investigação deste universo?

Há duas coisas que me atraem: o infinitamente pequeno e o infinitamente grande. São áreas que se ligam através da Física. O meu interesse é o estudo da natureza e a sua aplicação a coisas concretas e úteis para a sociedade. E a nanotecnologia tem esta vertente.

E o que mais o fascina neste mundo tão pequeno que nem se vê?

Do ponto de vista da aplicação, o que me move são as energias limpas. Não podemos atrasar mais o processo, temos de avançar. O Planeta pode desaparecer. Não podemos evitar que um meteorito colida com a terra acabando com a vida. Não está nas nossas mãos. Mas está nas nossas mãos toda a tecnologia para evitar que a espécie humana se destrua.

"OS INVESTIMENTOS SÃO ELEVADOS"

Esta tecnologia necessita de muito investimento?

Sim. Os investimentos são normalmente elevados. Por exemplo, indústrias que fabricam nanotubos fazem grandes investimentos para produzir pequenas quantidades por dia.

Onde se vão buscar os materiais para fabricar isso?

Para um nanotubo apenas é preciso grafite. Depois é preciso equipamentos caros como lasers. Os problemas do custo final destes produtos são dois: o equipamento e a purificação. E aqui há processos químicos que também são caros.

Estes produtos têm muita procura?

Sim, e neste momento há mesmo mais procura do que oferta.

Os alunos interessam-se por estas matérias?

A minha experiência é esplêndida. Eles interessam-se por estas temáticas, o problema é que a quantidade de alunos ainda não é a desejável. Penso que isso se prende sobretudo com o facilitismo que existe no sistema de ensino.

PERFIL

Rui Lobo, de 51 anos, é professor e investigador na Universidade Nova de Lisboa, onde, há 14 anos, criou a primeira cadeira de Nanotecnologia no País. É também investigador convidado da Universidade americana de Rice, no estado do Texas.

HIDROGÉNIO COMO FONTE PRINCIPAL DE ENERGIA

É a pequena botija em cima que alimenta este pequeno carro de brincar. Cheia de fulerenos, um material fruto da nanotecnologia capaz de absorver gases; aquele pequeno objecto consegue 'armazenar tanto  hidrogénio como uma botija de gás das grandes'. E é mesmo de hidrogénio, o elemento mais abundante do universo e não poluente, que alimenta o carro de brincar. Rui Lobo busca uma solução eficaz para o armazenamento deste gás, de modo que possa ser utilizado tanto nos nossos automóveis como nos nossos telemóveis.

NANOTUBO DE CARBONO VALE MAIS DO QUE O OURO

Rui Lobo segura um frasco com milhares de nanotubos de carbono, constituídos por minúsculas partículas todas um milhão de vezes mais pequenas do que o milímetro. Apesar de feitos a partir de grafite 'é um material que vale mais do que o ouro'. Os nanotubos estão 'a ser utilizados em materiais resistentes e na fabricação de nanochips, por exemplo'. Outro produto da nanotecnologia são os fulerenos (de aparência em tudo igual ao frasco que aparece na imagem), que estão a ser 'muito utilizados, por exemplo na Medicina e em lubrificantes'.

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