Há sete anos, a musa de Fátima Lopes trocou de vez o nevoeiro britânico pelo Sol nacional. Dona de um português modelo, Fiona, campeã de taekwondo, trocou o impensável rótulo de patinho feio e o curso de Medicina por um ditado: “em Roma, sê romana”. Vai à Luz torcer pelo Benfica. Rendeu-se à cataplana. À baba de camelo. E às canções de José Cid
Apetece dizer que a Fiona fala melhor português que muitos portugueses.
Com orgulho! Há portugueses que me mandam mensagens que não se percebe nada.
Foi fácil aprender?
Consegui falar com a ajuda de muita gente. Também por curiosidade minha. Sempre tive jeito para línguas na escola e gosto de aprender. Acho muito mal uma pessoa mudar-se para um país e não conseguir comunicar com as pessoas que vivem cá. O português não é das línguas mais fáceis do Mundo, sobretudo o sotaque. Demorou muito tempo até conseguir dizer ‘rrrato’. As pessoas riam-se muito no início.
Aconteceram-lhe muitas situações engraçadas?
Sim. Eu queria comprar pilhas e como não sabia dizer o ‘lhe’ pedi pilas... (risos). Não foi muito bem recebido. Depois passei a pedir baterias. Também fui a uma padaria para comprar um queque, mas pedi uma queca! Acho que foi dos piores.
Para além da língua, o que foi mais complicado nos primeiros tempos cá?
A comida. As pessoas podem olhar para mim e achar que sou anoréctica, mas dá-me muito prazer comer. A comida portuguesa é muito boa, mas aqueles pratos típicos. O cozido, a orelha do porco, as moelas...
E pratos preferidos?
Adoro a cataplana de marisco, um bom peixinho. Isto também me fez confusão. O peixe cá vem com cabeça e rabo e tudo! Não estava habituada. Temos que tirar tudo. Também não dispenso uma boa picanha, e a sangria, que cá é do melhor. E bolos! Adoro baba de camelo, mousse de chocolate.
E tudo sem engordar?
Sim. Tive uma fase entre os 16/18 anos em que deixei de fazer desporto, porque era jogadora de basquetebol e campeã nacional de taekwondo. Demorou um bocadinho a estabilizar o peso. Mas nunca fiz dietas radicais. Poucas vezes vou ao ginásio. Comecei a treinar mas mais para controlar o stress.
Na escola era o patinho feio?
Sim, mesmo para inglesa sou alta. Nunca usava saia nem saltos altos e de repente apareço um dia na escola de saltos, de saia. Todos começaram a olhar.
Já era manequim?
Não, a minha mãe inscreveu-me num curso e queria que eu fosse mais menina. Eu era só calças e ténis e tops de treino. Chamavam-me pernas de espaguete. Gozavam com tudo. Agora sou eu que gozo com eles. 'Vocês sabem onde é que estas pernas já andaram?!'
Distante da imagem actual.
O meu cabelo estava comprido, sempre apanhado. Era louro-escuro/castanho. Não tem nada a ver com a pessoa que sou hoje. Esta já é a minha imagem de marca. Eu era maria-rapaz. Tinha poucas amigas, mas muitos amigos. Ainda hoje me dou mais com rapazes. Não sei porquê. Sou demasiado sincera e frontal. Prefiro dizer 'deixa-me em paz' do que falar nas costas. Não é fácil. Às vezes digo coisas que não são para ser levadas a mal mas depois levam e eu sinto-me mal. É um grande filme.
De quem herdou o seu metro e oitenta?
A minha mãe tem metro e meio e o meu pai é pouco mais baixo que eu. Mas a minha bisavó tinha 1,80. Tenho um irmão mais novo, com 23 anos. Mede 1,96 m E é jogador de basquetebol. Vê-me como uma boneca, porque ele é tão grande!
Os pais aceitaram bem a saída precoce de casa?
Sou uma menina do campo, de Barnard Castle, a uma hora de Newscatle. E os meus pais são muito certinhos. O meu pai trabalha em fábricas, na parte da gerência, também é bombeiro voluntário. A minha mãe é da contabilidade, e dispara às vezes: 'Ai, uma é manequim, outro joga basquetebol, nenhum deles tem um trabalho como deve ser!' Sempre fizeram questão que eu acabasse os estudos. Cheguei a estar dois meses na universidade, mas não aguentava trabalhar e viajar.
Estava inscrita em que curso?
Estava a estudar para ser médica legista! O mais longe disto. Era medicina, com física, química, biologia e essas coisas todas. Foi um interesse que tinha, também era uma paixão da minha mãe. Ainda hoje em dia gosto. Não pensem que sou loura burra! Isto é pintado. Gosto de estudar, de usar a cabeça. Tenho pena de ter deixado.
Pensa retomar?
Houve uma altura em que pensei que a moda era só um brincadeira de dois anos. Tenho pena de não ter conseguido as duas coisas, mas via um mundo tão grande lá fora. Queria conhecê-lo. Dizia à minha mãe que era a educação da vida. Agora já aceita bem. Já estiveram em desfiles. Vieram cá, vão a Paris, Milão. Viajam à minha conta!
E quando anunciou que ficava cá de vez?
Foi um castigo! A minha mãe passou--se. Tinha 18 anos, 15 quando ela me inscreveu. Não estava muito empolgada no início, mas quando vi que tinha jeito, apostei. Fiquei agenciada e fui logo para Milão. Conheci uns manequins portugueses que trouxeram fotos minhas. A Fátima [Lopes] estava a abrir a sua agência e de entre muitos cartões e compósitos que tinha em cima da mesa escolheu-me a mim. Convidou-me. Estive na primeira festa da agência quando abriu, há dez anos.
Recorda algum trabalho em especial?
Tantos. Um que decoro mais foi um desfile para a Fátima, quando fechei para ela em Paris, há três ou quatro anos. Foi num sítio tão grande. Estás sempre à espera de muitos fotógrafos mas a sala é tão escura que nem se repara, havia tanta luz que eu até fiz assim [engole em seco]! Parecia uma montanha de fotógrafos. Eia, minha mãe!
A união com a Fátima Lopes mantém-se até hoje.
Sim, já faço parte dos móveis da casa. Sempre nos demos bem, não nos chateamos. É uma pessoa espectacular para se trabalhar, muito humilde. Respeito-a muito. Já era conhecida quando cá cheguei, mas vendo o que conseguiu fazer nestes últimos anos, é muito. A Fátima achou que eu tinha possibilidade de fazer coisas diferentes em Portugal. E, olha, deu certo. Não me esqueço do que me disse quando cá cheguei: 'Ser conhecida e famosa em Portugal é fácil. Construir uma carreira e permanecer lá é que é a parte difícil'.
Hoje é impossível passar despercebida na rua?
Não dá. 'É ela, é ela, é ela'. Se vou ao McDonnald’s recebo mensagens no Hi5 a dizerem que o McDonnald’s está na moda. Já tive pessoas a correr atrás de mim. Em Inglaterra é diferente, mais fechado. Eu não me importo, quer dizer que sou reconhecida pelo bom trabalho que faço. Fico admirada que as crianças de seis anos saibam quem sou. Eu com essa idade não conhecia ninguém. Aliás, eu fui para Milão e não sabia quem era o Giorgio Armani. O meu booker obrigou-me a comprar uma revista para eu saber quem ele era! Fui atirada ao meio e tive que me desenrascar.
Sofreu muito com a agressividade do meio?
Ah, mas quando me dão, eu dou de volta! Fazem-me uma e eu faço pior. É preciso garra, luta, e isso tenho. Ninguém me deita abaixo. Podem tentar, posso sofrer, mas chego sempre ao fim.
Como é a Fiona sem um vestido glamouroso da Fátima Lopes?
As pessoas ficam surpreendidas. Esperam que eu chegue a um sítio e tchan! Mas eu gosto de estar de botas rasas, ténis, confortável. Aqui estragam-se os sapatos, não vale a pena. Saltos só em situações especiais. Diariamente visto ganga. Sou low profile.
Mas livra-se de piropos?
Depende. Não penso em mim como uma pessoa sexy, ou sensual. Sei que tenho uma imagem forte, mas faço um gosto muito específico. Sim, tenho umas boas pernas e se visto uns calções ainda ouço alguns! Com 70 anos não vai acontecer, por isso vivo a vida.
E quando não está a desfilar...
Estou a fazer muita coisa. Vou entrar na televisão com um programa de moda, no MVM. Estou a colaborar com o CM. O ano passado fui RP da Volta a Portugal e foi fantástico.
Sobra-lhe tempo para se divertir? O que gosta de fazer?
Gosto de dar passeios junto ao rio, andar de bicicleta e patins em linha, ir ao cinema. Ou simplesmente estar em casa a ver televisão com uma barrinha de chocolate. Um sofá, cobertor e, se for preciso, uma bolsinha de água quente. Gosto de coisas boas mas sou simples.
E as festas e saídas nocturnas?
Não vou muito a festas. Às vezes estou muito cansada e não tenho disponibilidade, mas quando posso e é de alguém que gosto, faço questão de ir. Felizmente tenho amigos com quem posso ir sair. A maior parte deles não são do meio da moda.
É difícil fazer amigos na moda?
É difícil encontrar amigos para a vida. É um círculo muito efémero. Não quer dizer que as pessoas sejam antipáticas, mas é difícil ter uma vida estável.
Nos primeiros tempos chegou a conciliar os desfiles com outros trabalhos. Até foi barwoman.
Sim, na Kapital. Fiz vitrinismo, presenças em eventos. Tive que ocupar o meu tempo até ter algo mais estável.
Agora que estabilizou, já pensa no que poderá fazer quando abandonar as passarelles? Li que gostava de ser booker.
Isso foi uma coisa que me passou pela cabeça, mas já mudei de ideias. Depois de ter viajado tanto não posso estar sentada um dia todo. Por agora, não faço ideia. A minha vida tomou um caminho que nunca pensei. A coluna, a televisão. Pela língua, pensei que nunca poderia entrar. É um desafio, tenho que provar que mereço.
Entretanto também tem o namorado cá. Vê-se a sair do País?
Para Inglaterra não ia. Tenho vontade de ir a outros sítios, mas gosto de estar em Portugal. O sol brilha praticamente todos os dias.
Que defeito aponta?
Burocracia. Puxa-papel e puxa-papel.
Já ganhou outros hábitos?
Sou benfiquista e adoro ir ao estádio. E já me habituei a algumas músicas portuguesas. Até há um ano não sabia quem era o José Cid, hoje já sei! Tem um gosto particular, mas uma música ou outra diverte-me.
E contava que também se diverte com a história do ‘Shrek’.
Tenho um carinho especial por ele. Imagina a minha surpresa quando vou ao cinema e descubro que há uma princesa ‘Fiona’! Nos bares, à noite, gozam muito. Dá para falar, não levo a mal.
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