No dia de São Valentim os encostos de cabeça das cadeiras dos aviões da TAP vão ser forrados com lenços de namorados. Os bordados de Vila Verde voam mais longe
Nascido das relações de amor das comunidades rurais, o Lenço de Namora-dos tornou-se no baluarte das manifestações etnoculturais de Vila Verde. É a única peça certificada no artesanato português. Assume-se actualmente como a imagem de marca de uma terra cujas tradições a autarquia local pretende levar além-fronteiras. Vários estilistas de moda decidiram colaborar, assim como a TAP que no dia 14 de Fevereiro vai voar com a mensagem ‘Transportamos o Amor de Portugal’.
Os Lenços de Namorados ou Lenços de Pedidos terão tido origem no século XVIII, a partir dos lenços senhoris usados como peça decorativa de vestuário. As mulheres do povo passaram depois a usar o modelo – com versões bem mais populares e coloridas – também para dar conta dos seus amores e desamores e, muitas vezes, para conquistar o namorado.
Rezam as histórias antigas que as jovens casamenteiras – depois de uma vida a aprender os ofícios caseiros por influência maternal – bordavam o seu lenço num pano de linho fino, ou eventualmente num pano de algodão, que se adquiria na feira como sendo os lenços da tropa. Depois de bordado – com muita paciência e alguns erros ortográficos, próprios do antigo analfabetismo das gentes do campo e das aldeias –, o lenço ia ter, de alguma forma, às mãos do ‘namorado’ ou ‘conversado’.
Se o pretendido passasse a usar publicamente o lenço – ora ao pescoço com o nó voltado para a frente e sobre o casaco domingueiro, ora no chapéu ou até no pau que tradicionalmente se usava
na caminhada –, estava então dada a resposta positiva ao desafio e iniciada a
relação amorosa. Caso contrário, a oferta era devolvida, tal como acontecia
quando a relação terminava sem o casamento desejado.
As quadras populares dando conta da mensagem sentimental surgem enquadradas com símbolos de felicidade, amor e fidelidade, como flores, cibórios, corações, brasões, utensílios agrícolas, chaves ou animais (como passarinhos, borboletas e peixes). Com a revolução industrial do século XIX, os motivos bordados a preto e vermelho deram lugar a uma grande variedade de cores vivas, intensificando a criatividade e a expressividade dos lenços.
Legado que atravessa fronteiras e gerações Outrora usados como prova de amor e meio de enamoramento, os Lenços de Namorados estão agora ser recuperados como uma peça de artesanato valiosa pelo seu valor histórico-social, artístico e também sentimental. É verdade que constitui um meio de rendimento suplementar para muitas famílias rurais, mas tem-se revelado sobretudo como um produto único pelo seu significado sócio-cultural.
Apesar da evolução tecnológica dos tempos, os Lenços de Namorados não perderam o seu peso nas relações amorosas, sendo um produto actualmente solicitado como presente entre namorados, amigos e casais. É também uma oferta muito procurada para bodas e casamentos, além de servir como peça decorativa.
“É um legado deixado pelos nossos antepassados de uma riqueza inigualável, onde se pode sentir parte da nossa história e da nossa identidade”, sublinha o presidente da Câmara de Vila Verde, José Manuel Fernandes, que se tem assumido como um acérrimo defensor e promotor dos Lenços dos Namorados como imagem de marca do concelho.
Responsável pela actual campanha de promoção internacional dos lenços, o vereador António Vilela realça que esta é uma peça que adquire uma expressão cada vez mais significativa na sociedade moderna, “por força das ideias e sentimentos que veicula para a construção de um ideal de amor e felicidade, sobretudo social”.
O autarca diz que os Lenços de Namorados são produtos genuinamente locais e que vão de encontro às origens das tradições e do património do concelho, transportando uma mensagem actual e todo um imaginário de sentimentos que atravessam fronteiras e gerações – o que os transforma num “recurso local de extrema importância para o desenvolvimento social e económico de Vila Verde”.
Conforme explica Paula Isaías, directora da Aliança Artesanal – instituição que tem assegurado ao longo das últimas décadas a sobrevivência do produto –, os Lenços de Namorados “são peças irrepetíveis”, dado o emaranhado de linhas cruzadas, cores, símbolos e letras que fazem as mensagens de amor, assim como o cunho pessoal e momentâneo de cada bordadeira.
“É um produto que se destina a dar a alguém por quem se tem muita estima e que tem uma mensagem forte e extremamente importante”, refere Paula Isaías, dando também conta de diversas encomendas com quadras alteradas, tendo em vista o objectivo e o destinatário do lenço.
Um exemplar dos tradicionais Lenços de Namorados custa cerca de 50 euros. Mas o preço pode chegar aos 500 no caso das peças integralmente bordadas em ponto de cruz. E há também as miniaturas – uma versão comercial – a 20 euros. “Para quem compra até pode ser caro, mas é um produto muito barato, se formos a ver o trabalho que cada peça representa”, defende a bordadeira Alice Augusta.
Aurora Maia, outra bordadeira, assegura que o valor de comercialização “não paga o trabalho, porque são precisas muitas horas” para finalizar cada exemplar. Caso a procura dos lenços venha a ser alvo de uma forte procura em face da campanha promocional ‘Namorar Portugal’, não terá problemas. “Nunca ficámos mal”, vincou Adosinda Gomes, manifestando-se satisfeita com o facto do produto, apesar da crise, apresentar bons níveis de procura, em Vila Verde e sobretudo nos pontos de venda em lojas de artesanato de diferentes pontos do país, como Lisboa, Évora, Coimbra, Braga, Guimarães e Vila Nova de Cerveira.
Na Aliança Artesanal – uma cooperativa que nasceu há 16 anos e que se encarregou de dar continuidade a um trabalho encetado ainda no Estado Novo pela Obra das Mães, sob a batuta de Conceição Pinheiro – trabalham 37 mulheres. Na instituição cumprem as oito horas legais, mas o trabalho prossegue normalmente em casa, porque ganham todas à peça.
Com a actual situação de crise e o aumento do desemprego, são muitas as pessoas que procuram a Aliança. “Aceitamos sempre todas as pessoas com boas mãos”, esclarece Paula Isaías, acrescentando que é também importante a formação e a capacidade das pessoas se inserirem no espírito de trabalho da casa. No entanto, têm sido poucas as pessoas desempregadas que se aguentam muito tempo a bordar lenços.
Paula Mendes é uma licenciada no ensino de português que tem dedicado os seus dias aos Lenços de Namorados. Não está na profissão escolhida e reconhece a “dureza” da alternativa encontrada, mas confessa-se feliz com a experiência.
Com o objectivo de promover os Lenços de Namorados, a campanha promocional ‘Namorar Portugal’ resulta de uma parceria entre a Câmara Municipal de Vila Verde, a Aliança Artesanal e a Região de Turismo Verde Minho. A iniciativa compreende a realização de diversas iniciativas em todo o país, ilhas e também na Galiza, com destaque para a realização de diversas exposições temáticas, além das promoções na Imprensa e na TV.
O ponto alto da iniciativa acontece no Dia de S. Valentim. Até lá, a companhia aérea portuguesa TAP emite nos seus voos um spot publicitário de 25 segundos.
Entretanto, estão a ser elaborados cinco mil novos encostos de cabeça inspirados nos motivos dos Lenços de Namorados que terão a mensagem: ‘Transportamos o Amor de Portugal’. No dia 14 de Fevereiro, os passageiros da classe executiva terão ainda direito à oferta especial de uma embalagem com uma peça em cerâmica sobre esta peça de artesanato.
O Dia de Namorados vai igualmente ficar marcado em Vila Verde com um desfile de moda com peças bordadas pela Aliança Artesanal, de acordo com propostas de vestuário apresentadas por vários estilistas nacionais, como Nuno Gama e Fernando Nunes, utilizando os motivos dos Lenços de Namorados. O evento marca ainda o culminar de um concurso de jovens criadores de moda sobre a mesma temática e que está a decorrer sob a orientação da Academia Bracarense.
Entretanto, de 1 a 14 de Fevereiro, os leitores do Correio da Manhã vão poder aceder a um desconto de 15% na compra de um Lenço de Namorados nos diferentes pontos de venda do produto espalhados pelo país.
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