A 9 de Novembro de 1938 os judeus da Alemanha e da Áustria tiveram uma noite sangrenta. A avó de Ruth Arons viveu na primeira pessoa a Noite de Cristal.
Elie Wiesel escreveu que aquela noite fora “uma bofetada no rosto da Humanidade”. O Estado Novo difundiu a notícia desse bofetão. Ela ouviu o horror na rádio. As mãos destilaram de aflição. O coração minguou. A avó materna estava ‘lá’. A senhora Hedwig, alemã de veia desde 1730, recusara com pés e alma seguir os passos da família que tinha largado o epicentro do III Reich rumo a Portugal. Estava ‘lá’ na Leibniz Strass, cerne de Berlim – o estrado da perseguição. “Não esqueço”.
Passaram sessenta e oito anos, mas, para Ruth Arons, o tempo quando magoa fica próximo. Não esquece o choro que viveu no rosto da mãe quando a censura salazarista entornou a aritmética álgida resultante da fúria nazi na Alemanha e nos recém-territórios ocupados da Áustria. Uma centena de judeus assassinados. Dúzias vezes dúzias de feridos. Duas mil sinagogas incendiadas. Oito mil lojas e escritórios destruídos. Cemitérios e escolas judaicas vandalizadas. Trinta mil enviados para campos de concentração.
“Horrível”. Ruth não precisa de muitos adjectivos. Foi horrível saber que a avó sofria em directo a noite de 9 de Novembro de 1938 – Kristallnach – a Noite de Cristal onde só as luzes da devastação ficaram acesas. A banalidade do mal, como imortalizou a pensadora Hannah Arent, precisava de azo para abrolhar. O pretexto apresentado para a depredação pendia no assassinato de Ernst Vom Rath, em Paris, atribuído a um judeu. Na verdade, Goebbels, maestro do pogrom, aio principal da propaganda nazi, cumpriu com gosto as instruções de Hitler: instigou os dirigentes do NSDAP (Partido Nazi) e os AS (Tropas de Assalto) a atacar a população judaica.
Heydrich, que mais tarde esfregou as mãos na ‘Solução Final’, naquele Novembro de cristais mortíferos coordenou as violências que visavam os estabelecimentos comerciais e lugares de culto. Para que o movimento parecesse espontâneo de uma multidão irada, as milícias despiram os uniformes de cor parda e disfarçaram-se à paisana. Cinicamente, para não destoar, a autoridade nazi cobrou aos judeus uma multa de um bilião de marcos pelas desordens e prejuízos dos quais foram vítimas. Após a noite que durou dois dias “a minha avó não teve alternativa”. Respondeu aos apelos da família e veio para Portugal “sem nada e muito infeliz”. Pagou um imposto absurdo. A mala vinha vazia. Pior: a vida nova em idade velha não lhe trazia sorriso. Ao contrário dos catorze anos da neta que, mal viu o solo alemão pelas costas, cantou e dançou para festejar “a libertação do pesadelo”.
Os nazis arrancaram-lhe a cidadania alemã, mas não conseguiram roubar a pronúncia germânica. Ruth Arons, a primeira presidente da Junta de Freguesia de São Mamede eleita após o 25 de Abril de 1974, mãe do político socialista Arons de Carvalho, portuguesa “claro” com dois erres agudos, nasceu a 22 de Abril de 1922 no castelo da cultura. Berlim. Porém, a partir de 1933, com a ascensão de Hitler à poltrona da devastação, o requinte cultural deu lugar à violência. O castelo erudito tornou-se de areia sanguinária. No mesmo ano em que estala o ceptro de Adolfo, Março estreia-se com o estabelecimento de Dachau – o primeiro campo de concentração. No mês seguinte, um decreto afasta os judeus do funcionalismo público, do exército e universidades. Goering, úmero direito de Hitler, cria a Gestapo – a Polícia política alemã – perita na perseguição, deportação e execução.
Em Setembro de 1935 a súcia nazi não faz cerimónia: proclama as Leis de Nuremberga. A primeira – ‘Lei da Cidadania’ que decepou aos judeus alemães a nacionalidade, e a segunda – ‘Lei da Protecção da Honra e Sangue Alemão’ que os proibia de casar com alemães.
“O meu pai tinha lido ‘Mein Kampf’ e achava que Hitler iria por aí fora.” O pai, reputado advogado sem autorização para exercer a profissão por ser judeu, homem que se alistou como voluntário na I Guerra Mundial, tinha razão. O austríaco foi por aí fora. Já nesse calhamaço escrevera que os planos para o futuro germânico moravam nos punhos da raça superior: ariana. Judeus e comunistas traduziam a fonte de todos os males. Em Dezembro do crítico 1935, a família Arons viajou para a Suíça, país que somente três anos a seguir solicitou às autoridades alemãs que marcassem os passaportes dos judeus com um ‘J’ para limitar a sua entrada. Portanto, entrariam sem problemas.
O intuito da viagem não eram as habituais férias. Ruth e a irmã ficaram em segurança na companhia da avó enquanto os pais regressaram à ferina Alemanha para desfazer a casa. “Fiquei tão feliz”. No país do chocolate e da neve não via cartazes anti-semitas, caricaturas, e os bancos dos jardins podiam ser dela na totalidade. Em Berlim, nem todos. Em Março de 1936 Alberto e Carlota Arons estavam prontos para ir buscar as filhas mas, antes da partida, o estado alemão obrigou-os a pagar um imposto elevadíssimo.
Na Suíça a avó deu meia volta e teimou a Alemanha. “Nós, não.” O destino encontrado surgiu por exclusão de partes. Vistos e autorização para trabalhar representavam a escolha. A geografia não era larga. A Europa começava a ser um cerco para quem tinha pelo menos duas gerações judaicas. Em Portugal, até 1940, a muralha tinha uma fechadura aberta. Salazar ainda não exigia o círculo vicioso de vistos. Em consequência, a entrada para Portugal tornava-se fácil. “Chegámos em Maio de 1936”. A Lisboa. De carro. Num ‘adler’ descapotável. Ficaram hospedados no extinto Grande Hotel da Inglaterra, na artéria dos Restauradores. Depois, foram para a pensão Liz. Já em poiso definitivo alugaram apartamento em Santo Amaro de Oeiras.
“Muito fechado” foi a primeira impressão que teve do Portugal comandado pelo fascismo. Os portugueses, esses, abriram-lhe as portas para a liberdade com franca simpatia.
“Foi um alívio”. Estudar no Colégio Feminino Francês na estreita rua do Salitre alargava a felicidade: não havia distinções. Em Berlim estudara num organismo oficial, mas após as referidas Leis de Nuremberga, o pai, por considerar mais seguro, transferiu as filhas para um colégio de freiras. “Os católicos eram mais brandos do que os nazis”. Uma brandura que certa vez esgotou. A professora que semanalmente dava aulas particulares a um grupo de alunas, uma tarde avisou: “Eu e a minha irmã não podíamos ir mais a casa dela”. Podiam ir, sim, mas sozinhas, sem que a sombra as visse. Em Portugal a sombra não mordia. “A mentalidade fascista não era anti-semita”.
Salazar, apesar da neutralidade apresentada imediatamente após o rebentamento da II Guerra Mundial, cumpria as ordens germanas até 1943, altura em que a contenda começou a ser favorável aos Aliados, e temendo que à semelhança de todos os outros regimes fascistas, o seu também não sobreviesse, concordou com os anglo-americanos a utilização estratégica de uma base nos Açores, e em Janeiro de 1944 declarou o embargo de volfrâmio aos Alemães.
Enquanto o antigo regime dava piruetas consoante a feição da guerra, Ruth que aprendera com velocidade a língua de Camões, estuda Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras onde a paixão acontece. Em Dezembro de 1945 casa com Joaquim Barradas de Carvalho, um colega, com quem, na ocasião, partilhava o mesmo colo político: Partido Comunista Português. É através do casamento que recebe a cidadania portuguesa. O pai, falecido em 1948, nunca conseguiu a nacionalidade. A mãe e a irmã obtêm-na nos anos cinquenta. A avó morreu apátrida com o coração na Alemanha.
“Foi uma festa” e das grandes. A mesma rádio que a tinha feito chorar na noite dos cristais quebrados, em Maio de 1945, fê-la vibrar de alegria. O final do nazismo anunciado pelo locutor simbolizava êxtase absoluto.
Nem uma década tinha passado da II Guerra, Ruth voltou a Berlim. Levou os filhos e não trouxe saudades. “Aquela cidade já não era a minha cidade. Senti-me uma estrangeira”.
PAUL JOSEPH GOEBBELS
Nasceu a 29 de Outubro de 1897 em Monchengladbach, Renânia. Cedo contrariou a vontade dos pais: em vez de seguir o sacerdócio, estuda Filosofia. Lê Tolstoi e Dostoievski, escreve poesia. Torna-se um anti-semita fanático. Quando sabe que a sua namorada Else Janke é filha de mãe judia, termina a relação. Em 1922 junta-se ao Partido Nazi. Em três anos enceta a sua ascensão no sistema do movimento nazi. Passa a ser um dos editores do jornal de divulgação nazi. Dirige a propaganda nazi em Berlim. Em 1938 é quem arquitecta a Noite de Cristal. Nas etapas finais da II Guerra Mundial, no bunker, Goebbels suicida-se com a mulher e os seis filhos.
CRONOLOGIA DO HORROR
1938:
1 de AGOSTO: É criado o Departamento de Emigração Judaica para forçar os judeus a saírem da Alemanha e da Áustria
28 de OUTUBRO: 17 000 judeus polacos que vivem na Alemanha são expulsos
9 a 10 de NOVEMBRO: Noite de Cristal
1939:
15 de MARÇO: Alemães ocupam a Checoslováquia
23 de AGOSTO: Assinado Pacto Molotov--Ribbentrop de não agressão entre a União Soviética e a Alemanha
1 de SETEMBRO: Alemanha invade a Polónia: início da II Guerra Mundial
23 de NOVEMBRO: Os judeus na Alemanha e na Polónia são obrigados a usar o distintivo da estrela de David
1940:
10 de MAIO: Alemanha invade Holanda, Bélgica, Luxemburgo e França
20 de MAIO: Abertura do campo de concentração em Auschwitz
1941:
31 de JULHO: Heydrich é nomeado para executar ‘A Solução Final’
7 de DEZEMBRO: Japão ataca Pearl Harbour
11 de DEZEMBRO: Estados Unidos declaram guerra ao Japão e Alemanha
1942:
22 de JULHO: Abre o campo de concentração de Treblinka
1943:
6 de JANEIRO: Exército alemão rende-se em Estalinegrado
JUNHO: Himmler ordena o arrasamento de todos os guetos
1944:
6 de JUNHO: Dia D
24 de JULHO: Russos libertaram o campo de concentração de Majdanek
1945:
6 a 10 de ABRIL: Marcha da morte dos judeus de Buchenwald
30 de ABRIL: Hitler comete suicídio
8 de MAIO: Alemanha rende-se
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