A saída da ONU é um enorme desafio para Timor. Os portugueses, cada vez em maior número, são recebidos de braços abertos.
João Carvalho não tem dúvidas: "Os timorenses precisam de conhecimento, mas sobretudo precisam de quem faça as coisas com eles e não de quem as faça por eles."
Há quase uma década no território, este gestor de Lisboa lidera, desde 2008, um projecto de cooperação que tem por objectivo tornar economicamente sustentáveis uma vila e a sua comunidade, através da fomentação da iniciativa privada.
"Em pouco mais de três anos, esta comunidade reconstruiu as suas casas, requalificou os jardins, as escolas, os espaços desportivos, as ruas e a frente de mar, e criou mais de uma dezena de empresas nas mais diversas áreas", explica João Carvalho, sublinhando que o seu papel é de "mero coordenador".
Hoje, Maubara, a 45 quilómetros de Díli, no sentido da fronteira com a Indonésia, é provavelmente o melhor exemplo dos frutos que podem colher-se da boa cooperação entre Portugal e Timor-Leste.
"Foram criados mais de 120 empregos, algumas das pessoas que integraram o projecto já criaram as suas empresas. Maubara é um lugar aprazível, o restaurante que criámos no forte é um exemplo de sucesso. Agora, além de tudo o que há para fazer, ao nível da água, saneamento, etc., temos, todos os dias, de dizer a estas pessoas com que linhas se cose a resistência às pressões dos grandes grupos turísticos."
Esta vila, de 3400 habitantes, tem hoje escola, desporto escolar, supermercado, alfaiate, cabeleireiro, restaurante, produtores e vendedores de artesanato, uma hospedaria, e o projecto de transformação em pousada da antiga ‘casa do guarda’.
Cláudia Esteves, professora, natural de Coimbra, integra o projecto e diz que "a grande recompensa acontecerá daqui a três ou quatro anos, quando já não fizermos cá falta", sublinhando que o objectivo "é preparar as pessoas para assumirem as rédeas do seu destino".
COMUNIDADE A CRESCER
João e Cláudia foram dos primeiros portugueses a escolher Timor para território futuro das suas vidas. Mas são cada vez mais os que vêem a ‘Casa do Sol Nascente’ como uma terra de oportunidades.
É o caso de Bruno Lencastre, advogado de 37 anos, que resolveu optar por alicerçar a vida e a carreira jurídica a 15 mil quilómetros da terra natal. Bruno é casado com uma timorense e trabalha nos serviços jurídicos do Parlamento, onde ajuda à criação das leis que vão reger este novo país.
"A estrutura jurídica de Timor é, por razões históricas, semelhante à portuguesa. No entanto, e tendo em conta as várias diferenças de usos e costumes e até o contexto geo-estratégico e das relações com os diversos países à volta, é necessário criar muita coisa nova", diz o jurista, que assegura "um futuro promissor para Timor".
"Aqui está praticamente tudo por fazer e, quem tiver vontade de trabalhar, de ser criativo, é muito bem-vindo", diz Bruno Lencastre, que já conta com a companhia de duas dezenas de advogados portugueses.
E não param de chegar, assim como os professores que, muito provavelmente devido ao crescente desemprego em Portugal, já são mais de 400 em Timor.
Não há números exactos sobre a comunidade portuguesa no território, mas a embaixada suspeita de que não deve andar longe das mil pessoas. Com tendência para aumentar.
"Nós contamos com Portugal e com os portugueses para esta fulcral fase de construção do país. Todos aqueles que nos queiram ajudar serão recebidos de braços abertos", disse à Domingo o primeiro-ministro, Xanana Gusmão.
E uma das áreas onde a ajuda é mais necessária é precisamente a Educação. "Contamos com o apoio da Igreja Católica, mas precisamos de mais professores de português. O português é, para nós, um elemento de independência e nós temos orgulho nisso. Repare que no meio de 17 mil ilhas que compõem o enorme arquipélago que é a Indonésia, há meia ilha que é independente e que fala português. Isto é extraordinário", afirma, com emoção, Xanana Gusmão.
Mas a tarefa do ensino da língua portuguesa à população (um milhão de pessoas) não é fácil, já que, devido aos 24 anos de ocupação indonésia, mais de 90% das pessoas não fala, nem compreende, português.
A ESCOLA PORTUGUESA
Dinora Ferreira acaba de aterrar em Timor. Tudo para ela é novo. Natural de Palmela, dá aulas há 22 anos e resolveu partir à aventura. À procura, como diz, "de conhecer novas realidades"
Vai ensinar na Escola Portuguesa Ruy Cinatti, em Díli, onde trabalham 64 docentes lusos. A escola tem 800 alunos, da pré--primária ao 12º ano, mas só 50 são filhos de portugueses.
Segue o calendário escolar português, assim como os planos curriculares (os alunos fazem exames até à uma da manhã por causa da diferença horária) e é a escola mais procurada de Timor, com as vagas sempre esgotadas.
"Nós estamos aqui mesmo só para ensinar e dedicamo-nos de corpo e alma ao trabalho. Esta escola é uma referência educativa do país, o que nos orgulha muito", diz Conceição Godinho, a directora do estabelecimento.
Conceição, que já conhece Timor aos palmos, assegura a Dinora que "não tem quaisquer razões para estar preocupada".
"Isto para nós, professores, é altamente aliciante, porque conseguimos ver o resultado do nosso trabalho através da fantástica resposta dos alunos. Estes meninos são ávidos do saber, gostam da escola, valorizam a escola, e os pais, apesar de pobres, acompanham e participam, o que para nós é altamente gratificante", diz Conceição.
E as palavras da directora são sublinhadas por Nuno Gonçalves, que trocou uma escola primária de Paredes, perto do Porto, por uma aventura em Díli.
"Confesso que vinha cheio de desconfianças, mas isto aqui agarra-nos fortemente", diz o docente, que já vai no terceiro ano em Timor.
E o que se verifica é que, na esmagadora maioria dos casos, aquilo que inicialmente seria uma aventura acaba por tornar-se um projecto de vida.
"Como dizia Pessoa, primeiro estranha-se, mas depois entranha-se, e eu não tenho dúvidas de que Timor será destino para muitos portugueses, sobretudo atendendo à crise que o nosso país atravessa", refere Nuno Gonçalves.
E isso já está a acontecer, diz Conceição Godinho, acrescentando que, "este ano, muito mais do que nos anteriores, tenho recebido portugueses, quase sempre de formação superior, a dizer que estão a pensar vir para cá e a perguntar o que têm de fazer para colocar os filhos aqui na escola".
Em Timor, admite Xanana Gusmão, está quase tudo por fazer. A começar pela rede rodoviária, electrificação e portos de mar. E, assegura o comandante, "é tudo para fazer".
"OS TIMORENSES JÁ MOSTRARAM BEM DO QUE SÃO CAPAZES"
O padre João Felgueiras é uma referência. Jesuíta, natural de Caldas das Taipas, Guimarães, já leva mais de 40 anos de missão em Timor. São muitos os que lhe batem à porta a pedir um conselho, incluindo governantes. Não gosta de falar disso e assegura que o pouco que sabe aprendeu-o com o povo.
"Timor é uma terra de futuro e os timorenses já mostraram bem do que são capazes. Basta pensarmos na forma estóica como, tão poucos, resistiram a 24 anos de ocupação estrangeira", diz o sacerdote, que é o mais antigo missionário português em Timor.
Sem exagerados optimismos, o padre João Felgueiras considera que, "a médio prazo, Timor terá um futuro risonho, mas é preciso construir a nação com os pés bem assentes na terra". Sublinha o espaço de oportunidades que Timor representa para Portugal, mas alerta para o "longo caminho de consolidação que esta jovem nação ainda tem pela frente".
PETRÓLEO
A exploração de jazidas ao largo da ilha dá ao novo país as receitas de que precisa para a construção.
ELEIÇÕES
Xanana Gusmão, o primeiro presidente de Timor livre, foi eleito primeiro-ministro em Julho.
ONU
A missão actual das Nações Unidas termina no final do ano. Forças estrangeiras foram essenciais para a paz no território.
GNR
As sucessivas missões dos militares portugueses criaram um sentimento geral de simpatia para com os portugueses.
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