Aos 53 anos, com seis filhos e a viver exilado em Espanha, o escritor chileno não é amargurado, apesar do seu desencanto com o jornalismo e a política. Por isso, esteve preso três anos...
A sua obra mais popular — ‘O Velho Que Lia Romances de Amor’ — está há 10 anos nos ‘tops’ portugueses e é fruto de uma história que costumava contar aos seus amigos. Como justifica o seu sucesso?
Penso que é um grande livro. Sou leitor e sei distinguir o que é bom e do que é mau. Quando o terminei, percebi que estava perante uma ‘bomba’ de qualidade. As primeiras pessoas que o leram disseram-me que a partir dali se falaria de um Luis Sepúlveda antes e depois do ‘Velho...’
Esta história atravessa várias faixas etárias.
Sinto-me muito orgulhoso em constatar que, por exemplo, há dez anos um jovem com 18 anos lia-me e agora continua a ler-me. Tenho a sensação clara de que esta história não tem pretensões morais e que seduz leitores jovens e menos jovens, porque conta simplesmente como é a vida com um enorme trabalho de linguagem.
Quando se publica uma ‘bomba de qualidade’ aplaudida pela crítica, criam-se automaticamente exigências internas e externas.
Diria que se gerou uma espécie de exigência pessoal porque enquanto leitor, se ler alguma coisa boa fico ansioso à espera do próximo livro. E como escritor, sei que há livros que se tornam mais especiais ou queridos que outros.
Costuma dizer que os escritores são ‘sedutores camuflados’.
Escrever é um enorme acto de sedução: a sedução do leitor, a auto-sedução, a sedução das palavras. Seduz-se pelas ideias, pela defesa de um mundo mais humano. O objectivo principal da sedução não é o sexo, mas sim humanizar o outro.
A literatura é uma terapia?
Não penso que seja uma terapia, mas sim uma parte de mim – nem mais, nem menos importante que as restantes partes.
Humanizar os outros é um modo de vida?
Tento, sobretudo, ser fiel à minha forma de pensar e acredito que através da literatura consigo partilhar com os outros o que sinto. É uma forma de resistir à constante ameaça da estupidez, da medriocricidade, da proposta de pensamento único, é a minha resposta ao mundo.
Ou seja, é um refúgio.
Sim, a literatura transformou-se num grande refúgio. Deixei o jornalismo quando a profissão me começou a criar náuseas e quando percebi que se tentava impôr um modelo em que não havia espaço para sistematizar a informação. Na literatura, há tempo para sistematizar todas as minhas experiências de vida.
Pode-se ser escritor de várias maneiras...
Há por aí uma raça de escritores que sonham ser embaixadores culturais ou ocupar cargos importantes. Não é o meu caso. Penso que as minhas histórias valem o que valem. Não estou interessado na imortalidade, que é atroz.
A imortalidade é atroz?
Simplesmente porque é antinatural. Tudo o que nasce tem, necessariamente, que morrer.
Fica na memória de algumas pessoas até que apareça outro com uma proposta interessante. Vivemos numa época de imortalidades forçadas em termos culturais. Por exemplo, não consigo perceber porque razão a ‘Madame Bovary’ de Flaubert, é uma obra imortal.
Acredita na literatura feminina e masculina?
Não creio nisso. O que acontece é que existem poucas mulheres na primeira linha da literatura e penso que uma das causas é o machismo vigente nas sociedades. Infelizmente, quando um escritor homem quer publicar um livro, na maior parte dos casos o que interessa ao editor é saber se apreciamos boa comida, vinho e mulheres. São as regras do jogo.
Mas há casos de extraordinário sucesso como, por exemplo, o de Isabel Allende.
Infelizmente, Isabel Allende é duramente criticada, simplesmente porque é mulher e é muito boa. Se fosse uma escritora medíocre, ninguém lhe ligava mas como é excepcional, criticam-na duramente. Dizem, por exemplo que ela é uma cópia do Garcia Marquez ou que é uma autora de segunda categoria do realismo mágico, o que também é mentira. Há uma crítica atroz às mulheres.
Em 1984 publicou, pela primeira vez, um livro na Europa. Mas desde os anos 70 que o nosso continente demonstrava abertura à literatura latino-americana
A Europa estava muito cansada e os países que tinham liberdade de expressão, como a França, tinham sucumbido a uma espécie de perversão experimental. Todos queriam ser o novo Flaubert mas não havia argumento. Na Alemanha do pós-guerra, a liberdade de expressão era fortemente moralista e por aí adiante...
Nessa altura, surgiu uma literatura diferente.
Porque era a grande literatura da imaginação. Tínhamos um registo diferente, mas rico e de qualidade, que se devia unicamente à juventude do continente americano. Estas características exerciam algum fascínio na Europa.
Há quem diga que é um registo exótico.
[Risos] Para mim, não há nada mais exótico que algumas particularidades do continente europeu que é muito exótico. Sinceramente, não compreendo a ideia de centralismo. Parece-me insultante o termo exótico. Uma selva pode ser exótica!
É um mito europeu e que subsiste.
É um mito ‘rousseauniano’ [de Rousseau] e é um problema dos europeus. Para mim, o monolinguismo da Europa, como a riqueza cultural, é extremamente exótico. Nós também somos descendentes dos europeus e às vezes penso que conhecemos melhor a História da Europa do que os próprios europeus.
Aliás, a sua forte oposição ao regime chileno é pública...
Diria que sou um forte opositor da Ditadura e, neste momento, sou extremamente crítico em relação aos governantes da América-Latina. A única pessoa em quem deposito esperança e que conta com a minha simpatia é o Lula.
Apoia unicamente o presidente do Brasil?
Sim, porque os restantes mandatários da América-Latina não representam a expressão popular e são meros administradores de um sistema económico, são gerentes para quem a liberdade democrática não faz sentido.
Ou seja, não existe Democracia...
Se pensarmos na Democracia num sentido mais amplo, mais generoso e mais participativo, não existe. No Chile, a Ditadura terminou há dez anos e desde então, nenhum dos três presidentes se atreveu a reformular a Constituição e continuamos com a horrorosa Constituição da Ditadura, o que faz com que mais de metade dos populares não tenha, por exemplo, representação parlamentar. É evidente que estou contra isto!
Esse confronto fez com que estivesse preso.
Estive quase três anos preso! Saí em Julho de 1977 graças à Amnistia Internacional que me tirou da cadeia e me conduziu ao exílio. Nessa altura, percorri vários países da América e terminei na Nicarágua, em 1980. Sentia-me cansado e vim para a Europa e aqui tornei-me escritor.
Como é que a sua obra é acolhida no Chile?
Sou o escritor mais querido, mais popular e mais acarinhado mas, simultaneamente, sou sistematicamente ignorado pelo Governo. Para eles eu não existo, não se fala de mim, não faço parte dos planos de leitura, de nada.... Os meus livros são pirateados na rua!
E o seu próximo livro, quando é que edita?
Se tudo correr bem, em Outubro.
Entretanto vão sair outros títulos seus em Portugal.
Sim, tenho uma compilação de artigos de imprensa já traduzida e uma história para crianças.
Que diferenças existem entre escrever para crianças e para adultos?
Escrever para crianças é o mais difícil que existe. Em primeiro lugar porque escrevo com respeito, ou seja, para pequenas pessoas inteligentes, criativas e imaginativas. A maioria dos livros para crianças são completamente idiotas, por todo o lado se vê a moral do autor e se transmitem falsas mensagens. Não há nada mais puro que a imaginação das crianças.
A ‘História de uma Gaivota....’ foi bem sucedida.
Demorei dois anos e meio para a terminar e pensei que nunca mais regressaria ao mundo dos mais novos. Os actos de pura descrição são uma expressão da imaginação e eu via uma espécie de lógica nas palavras, a minha lógica. As crianças detestam a lógica, são surrealistas e corrigir o texto foi muito difícil.
E esta nova história?
Comecei no início do ano passado e terminei recentemente. Falo de um caracol que tem o prazer da lentidão, num mundo que anda demasiadamente rápido.
Os seus netos contribuiram de alguma forma para regressar às histórias infantis?
Eles são pequenos (ela tem dois anos e ele tem um) mas talvez, de forma inconsciente, tenham contribuído, porque apesar de não os ver frequentemente, tenho-os sempre presentes no coração. A ‘História da Gaivota’ foi. claramente, dedicada aos meus filhos.
Quantos filhos tem?
Tenho seis filhos. O mais velho tem 30 anos, é músico e vive na Suécia, a seguir tenho uma filha jornalista que vive no Equador, tenho três filhos alemães - uma com 18 anos e um casal de gémeos com 14 anos – e uma enteada que é como se fosse filha, com 16 anos.
Como é que se define?
Gosto de viver intensamente mas de forma tranquila – com a minha família, os meus cães, gatos – mas, ao mesmo tempo, sou um homem que tem uma plástica social muito forte. E sou sensível.
É um homem de causas...
Não há nada mais lindo do que lutar por causas perdidas, porque acredito que não estão perdidas. No Chile há um provérbio popular que diz: “Quem nasceu cigarra vai morrer a cantar”. E como se sabe, as cigarras fêmeas não cantam.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.