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MÁ ESTRELA, EDITE

Na RTP, ensinou a bem falar e escrever. Depois fez carreira, socialista, ganhando as autárquicas em Sintra. É daí que lhe vem a acusação de violação dos deveres de imparcialidade e neutralidade e de abuso de poder. Edite Estrela acredita que o processo vai ser arquivado.

15 de junho de 2003 às 15:20

Uma anedota que circula com insistência pela Internet faz a ponte entre as figuras conhecidas internacionalmente e as nossas. Diz assim: “Batatoon pensa que é Walt Disney. Rute Marques pensa que é Grace Kelly. Luís de Matos pensa que é David Copperfield...” O texto atravessa uma série de personalidades famosas e, lá pelo meio, aparece: “Edite Estrela pensa que é Hillary Clinton”. Não se sabe se alguma vez tal coisa pensou, muito provavelmente não. Mas a verdade é que Sintra passou a ter uma notoriedade maior quando Edite Fátima Santos Marreiros Estrela abriu a porta da sala destinada ao presidente da Câmara local e se sentou pela primeira vez na confortável cadeira que, a muito custo, tinha sabido alcançar. O estilo que emprestou à presidência poderia não ser exactamente o de Hillary, mas andava perto. Decorria o ano de 1993 e a carreira política tinha atingido o ponto alto, pois dirigir uma edilidade na Área Metropolitana de Lisboa ajuda a ‘ganhar pontos’ junto de qualquer aparelho partidário, muitas vezes é até o primeiro passo para voos mais altos. Mas é, dessa altura, que vem a actual acusação de violação dos deveres de imparcialidade e neutralidade e de abuso de poder. Uma questão de publicidade. Mas voltemos atrás.

Dez anos antes, Edite Estrela estreara-se na televisão com o programa ‘Bem Dizer, Bem Escrever’. Na altura, na direcção de programas da televisão pública estava Maria Elisa e, na administração, Proença de Carvalho. Era o tempo das locutoras. “Mandaram-me uma carta para o jornal ‘A Capital’, onde tinha um consultório de língua portuguesa havia três anos, convidando-me para fazer um programa na RTP.” Admite as dúvidas – estaria à altura do desafio? Admite o medo das câmaras e, sobretudo, a estranheza que poderia provocar (num tempo em que jornalistas mulheres não davam a cara no ecrã) uma jovem a explicar aos portugueses como se devia falar. “Eram sempre pessoas de certa idade, lembro-me do Raul Machado e outros à frente deste tipo de programas”. Aceita e à custa da ousadia, nos bastidores os cochichos são mordazes. “Havia muitos comentários; ouvia-os ou vinham-me contar. Tipo: afinal, apesar de ser jovem e bonita, até percebe disto”. Foi “atirada aos bichos”. Fazer TV assemelhava-se então à probabilidade circense e sem rede. O primeiro programa tinha 30 minutos, sem montagem e quando as coisas davam para o torto – e, às vezes, davam – recomeçava-se tudo

de novo. A este sucedem-se ‘Crónicas de Bem Dizer’ e ‘Falar Português’, numa prática televisiva que se estende

até 1992.

O PS DEPOIS DA VITÓRIA DA AD

Nascida a 28 de Outubro de 1949, em Belver, Carrazeda de Ansiães, filha de um proprietário rural e de uma doméstica (tem uma irmã mais velha que hoje é médica), Edite rumou com dez anos para o Porto – onde viria a passar o período do liceu. “Sempre fui boa aluna a Matemática, melhor do que a Português e, mesmo o gosto por esta disciplina, sempre teve a ver com o facto de a achar, em certa medida, parecida com a Matemática.” No antigo 5º ano do liceu optou pela amizade: as amigas iam para Letras. Anos depois, acaba por se formar em Filologia Clássica pela Faculdade de Letras de Lisboa; uma opção pelo raciocínio lógico da formação e decomposição das palavras, um compromisso com a paixão pela lógica. (Gosta de frisar que recebeu excelente nota de Vitorino Nemésio.)

No primeiro ano do curso, 1969, apanha a crise académica. Conhece António Reis e Jaime Gama. A contestária – apesar de ser oriunda de ‘uma família conservadora’ – envolve-se, “embora percebendo muito pouco do que estava acontecer”. Nas eleições de 5 de Outubro de 1980, a Aliança Democrática (AD) ganha. No dia 6, uma desconsolada Edite vai à Costa de Caparica, para perto do mar, meditar. Consiglieri Pedroso assina-lhe a ficha de inscrição no PS. Começa a vida partidária, pautada pela máxima de Cícero – os amigos criticam-se em privado e elogiam-se em público. Seis anos depois pertence ao Secretariado Nacional, presidido por Vítor Constâncio. Em 1987, está sentada na Assembleia da República. “O meu percurso político-partidário foi feito desde a base. Não entrei por cima. Fui sempre eleita, primeiro para a minha secção da FAUL (Federação da Área Urbana de Lisboa), depois para a comissão política, para a comissão nacional e, finalmente, na lista de deputados.”

Aa vida no liceu Antes da progressão política, a carreira da professora. Deu, 15 anos, aulas de Português no Liceu Rainha Dona Amélia. Quando aparece, pela primeira vez, em frente do quadro negro tem 21 anos, alguns alunos andam pelos 17. Descreve-se como uma professora rígida mas com uma relação boa com os alunos. “Quando perdi as eleições em Sintra, um engenheiro aproximou-se de mim para dizer que tinha sido meu aluno e que tinha por mim uma grande admiração. Só não o tinha dito mais cedo para não parecer mal. Foi muito comovente.”

A actividade política valeu-lhe concessões no plano pessoal e o fim do casamento. Abdicou mas não se importa: “Nunca vi com bons olhos as pessoas que dizem que estão na política com grande sacrifício. Ninguém os obriga!” Em certa entrevista, quando ainda estava na presidência de Sintra, confessa-se vaidosa e sem pudor fala da pecha. Por causa do trabalho, dizia, “não tinha tempo para o exercício de alguns egoísmos. (...) não consigo ir ao cabeleireiro, comprar roupas e sapatos”. Uma certa forma de vaidade é lembrar que foi a primeira mulher na Direcção do Grupo Parlamentar, quando o líder era Guterres; a primeira a integrar uma delegação à União Interparlamentar, por via do voto que elegeu primeiro Almeida Santos e ela logo a seguir.

SENHORA ‘PRESIDENTA’

O primeiro melindre veio quando integrou o grupo do secretariado do PS que se opunha a Mário Soares. Mas a ‘tremura’ política acabou graças a Guterres que a apoia incondicionalmente. O reinado em Sintra avizinhava-se. A candidatura à Câmara Municipal de Sintra era um desafio difícil. O município era um bastião social-democrata há mais de dez anos, a cara do PS era, neste caso, uma mulher, conhecida, é certo, mas não popular, no sentido da proximidade com as populações. Mas Edite ganha e cala os cépticos. Iria ser conhecida como a ‘senhora Presidenta’.

Tinha jogado todos os trunfos, numa campanha agressiva que passou, primeiro, por se mudar de armas e bagagens para junto do seu eleitorado. Depois da vitória instituiu visitas semanais às freguesias, numa espécie de ‘presidencias abertas’ e viu a teimosia ser compensada com a passagem de Sintra a Património Mundial. E sob o ar de Hillary apareceu a mão-de-ferro. “Em Dezembro de 1993, a candidatura à UNESCO tinha sido recusada e um ano depois, em 1994, foi aceite.” Gaba-se do Centro Cultural Olga Cadaval – “partimos com 360 mil contos para uma obra de dois milhões mas conseguimos”.

Mas, em 2001, a coligação PSD/CDS-PP toma conta da edilidade. Deixa Sintra. Volta a São Bento. E um destes dias recebeu um pedido de levantamento da imunidade parlamentar.

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