O brandy mais bebido do País passou a produção para Espanha, quase 130 anos depois de ser criado.
Para José Maria Macieira, a quinta do Maxial era coisa para não se levar muito a sério. Vivia tranquilamente na capital, onde, com a mãe e os irmãos, geria a empresa Viúva Macieira, uma próspera casa comercial que se especializou depois no fabrico de papel, na rua da Madalena. Estávamos em meados do século XIX.
"Sempre ouvi na família que o meu tio-trisavô possuía uma quinta no Maxial, perto de Torres Vedras, onde produzia vinho e aguardente, que nunca comercializou. Houve um grupo de amigos que insistiu com ele para que avançasse com o negócio", conta hoje João Macieira, um dos descendentes de uma família que veio do Norte para Lisboa no final do século XVII. O apelido foi adotado da terra onde viviam: Macieira da Maia, no concelho de Vila do Conde. "Era uma burguesia rural endinheirada que se estabeleceu em Lisboa para fazer negócios", conta João Macieira.
Retomando a história de João Maria, o homem lá se convenceu a seguir o conselho dos amigos e, em 1865, passou a comercializar vinhos, azeite e outros produtos alimentares que trazia da região Oeste e transformava em Lisboa. Fazia destilação de aguardentes e terá sido essa a razão de ter mandado o filho, José Guilherme, estudar o fabrico de destilados em Cognac, região de França que dá nome à famosa bebida. E José voltou cheio de ideias. Em 1885 nascia a marca Macieira, brandy destilado e envelhecido na fábrica do Beato, em Lisboa. José Guilherme Macieira criou a fórmula (que ainda perdura) e foi o grande impulsionador da bebida, que rapidamente chegou a todas as mesas do País. Incluindo a mais nobre de todas elas: em 1892, o rei D. Carlos nomeou José Maria Macieira "fornecedor de vinhos e cognacs de vinho da Real Casa". José Guilherme também viu o seu engenho premiado. Foi ordenado cavaleiro da Legião de Honra em França e comendador em Portugal.
SAGA FAMILIAR
João Macieira, sobrinho-bisneto do criador da marca, conta que a sucessão no governo da empresa foi atribulada. "José Guilherme morreu sem deixar filhos. A empresa passou para as mãos de um irmão, Frederico Macieira, que também casou tarde e não teve descendência." A Macieira haveria de ser continuada por vários sobrinhos e a marca prosperou. Slogans como ‘Um café e Macieira’ ou ‘O bom sabor dos velhos tempos’ tornaram-se familiares. O poeta Fernando Pessoa não dispensava o seu copo diário de Macieira, o que mais tarde viria a ser aproveitado para a publicidade da empresa (ver cartaz em cima).
O brandy vendia bem em Portugal e em mercados onde a comunidade portuguesa era numerosa, como o Brasil do início do século XX. Durante a II Guerra, a bebida lusa chegou a ser distribuída pelos Aliados, privados da produção das caves francesas. A família Macieira manteve-se à frente da fábrica até 1973. O engenheiro João Eusébio Tordo, que entrou na empresa um ano antes, ainda se lembra "de uma senhora e dois sobrinhos que eram descendentes dos fundadores". A Macieira foi vendida à Seagram, empresa canadiana que chegou a ser a maior distribuidora de bebidas alcoólicas do Mundo.
FÓRMULA SECRETA
João Tordo, que hoje vive entre Portugal e Angola, esteve na Macieira até ao final dos anos 90. Como diretor de produção, viveu os melhores momentos da marca: "Quando cheguei, produzíamos 20 mil caixas por ano, no final chegámos às 500 mil", conta. No início dos anos 80, a Macieira deixou as velhas instalações do Braço de Prata, em Lisboa, e mudou-se para o Bombarral, região de onde vinham os vinhos e aguardentes usados no fabrico do brandy. João Tordo foi durante anos um dos guardiões do segredo. "A fórmula da Macieira baseia-se em extratos naturais de ervas, vinho abafado, extratos de carvalho e caramelo", conta o antigo diretor de produção, que desfaz, no entanto, o mito de que a fórmula se mantém intacta desde 1865: "A receita foi sendo adaptada, conforme os gostos do consumidor", explica o homem que criou outra marca da fábrica. João Tordo ‘inventou’ a aguardente Aldeia Velha, outra bebida sempre presente nos restaurantes e cafés do País. "Tenho muito orgulho no que fiz na Macieira", conta João Tordo, de 66 anos, lamentando a saída da produção para Espanha.
Em 2000, a Macieira passou para as mãos da Pernod Ricard, gigante francês do ramo das bebidas. A marca mantém-se relativamente popular – continua a ser o brandy mais bebido em Portugal –, mas os gostos mudaram e as novas gerações têm outras preferências. Em 2010, a fábrica que chegou a ter 100 empregados nos tempos áureos ficou entregue a apenas dois. O engarrafamento já era feito na fábrica espanhola de Manzanares, e agora toda a produção passa para Espanha. O brandy que ainda está a envelhecer nos cascos de carvalho do Bombarral será o último a sair de Portugal.
A um ano dos 130 da marca, a Pernod Ricard estuda o futuro da Macieira. Espera-se uma nova fórmula, mais ao gosto das novas gerações.
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