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MÃES JOVENS: ADULTAS À FORÇA

As estatísticas não mentem: Portugal é o segundo país com mais mães adolescentes da Europa. Fomos à procura destas jovens que em nove meses disseram adeus à infância e se tornaram mães de família

13 de março de 2003 às 19:05

Numa sala fria, quatro meninas de olhar vazio esperam a sua vez para ser atendidas por uma assistente social. No colo, em vez de um urso de peluche ou uma Barbie, têm um bebé, que seguram com carinho. São apenas quatro das 28 mil mães adolescentes que, segundo a Unicef, existem em Portugal. Mais um triste recorde da Nação, apenas superado pelo Reino Unido, que possui a maior taxa de gravidez precoce nos Quinze da União Europeia. Mas há mais. Um relatório sobre a ‘Situação da População Mundial’, divulgado pelas Nações Unidas revela que no nosso País, 22 mães em cada mil são adolescentes.

"Este tipo de gravidez decorre da falta de educação sexual na família e nas escolas", declara Miguel Oliveira Silva, médico do Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Em pleno século XXI, quando a televisão, os jornais e a Internet chegam a casa de quase todos e o sexo já não é tabu no pátio dos recreios parece haver ainda milhares de jovens que ignoram ou têm receio de discutir assuntos como os métodos contraceptivos ou as doenças sexualmente transmissíveis.

"Há dois perfis de mães adolescentes", defende Carlos Ramalheira, médico psiquiatra no Hospital Universitário de Coimbra. "A tradicional, que vive num ambiente rural, e enveredou pela via marital muito cedo para ter a sua liberdade individual. E a suburbana, que abandonou os estudos em idade precoce, começou muito nova a trabalhar e muitas vezes tem uma gravidez indesejada", explica.

Embora à partida, os números assustem, os especialistas não crêem existir razões para alarmismos excessivos: "Tem--se empolado muito este assunto. Só um terço dos casos é verdadeiramente preocupante", garante o especialista do Hospital de Coimbra. "Os outros dois terços são os de mães com idades entre 18 e 20 anos, que na maioria das vezes até desejavam engravidar e têm a vida conjugal e profissional bem estabelecidas".

Há outro factor que tem ajudado a desdramatizar o discurso dos responsáveis pela saúde em Portugal: a taxa de gravidez na adolescência tem vindo a diminuir desde a década de setenta. Se em 1970 havia 14 por cento de mães grávidas com menos de 20 anos, hoje, a taxa é de 6,1 por cento. "Há uma mudança de estilos de vida e as jovens portuguesas também seguem a tendência europeia de casar e ter filhos mais tarde", conclui Carlos Ramalheira.

ILUSÕES DE CRIANÇA

Embora haja mais razões para sorrir, os profissionais que fazem turnos nos blocos de partos, serviços de obstetrícia e assistência social, continuam a assistir a uma realidade mais cinzenta. É o caso de Nélia Serrano, enfermeira de 34 anos, que trabalha no Centro de Saúde do Montijo: "As jovens mães têm a ilusão que a maternidade as vai valorizar como mulheres. A maioria apenas engravida para chamar a atenção. Ou porque são mal-amadas pela família ou desprezadas pelos namorados. E deste modo, julgam conseguir prender o pai da criança".

Estes são os casos apelidados de "gravidez narcísica", expressão em voga nas consultas de apoio à maternidade. Maria Jesus Correia, psicóloga na maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa revela: "Estas mães querem ter o bebé para apenas obter benefícios individuais, não se preocupando, muitas vezes com o próprio filho". Geralmente, são as situações mais difíceis de resolver a nível psicológico, uma vez que a progenitora "se encontra feliz e não se apercebe das dificuldades futuras da maternidade", acrescenta a psicóloga. Maria Jesus Correia não tem ilusões e sabe que esses sonhos fabulosos depressa se transformam em pesadelo: "Os namorados furtam-se à responsabilidade, e na maioria dos casos são elas que acabam por tomar conta do bebé, sozinhas ou com a ajuda da sua mãe."

Nélia Serrano corrobora: "Afinal, estes rapazes e raparigas não deixam de ser adolescentes e têm outras necessidades e estilos de vida pouco consentâneos com o novo papel que têm de desempenhar na sociedade."

Menos sorte têm as meninas que vêem os próprios pais e irmãos a rejeitar a criança e são obrigadas a percorrer sozinhas por caminhos desconhecidos. "Nos 200 casos anuais de adolescentes grávidas que surgem na maternidade Alfredo da Costa, os mais angustiantes são os daquelas que não têm projecto de gravidez consistente. O bebé não foi planeado, ou desejado e é repelido por todos", revela a psicóloga. Neste tipo de casos, uma equipa multidisciplinar da maternidade alfacinha (psicólogos, assistentes sociais, médicos e dietistas), tenta integrar a gravidez no seio da adolescência. "O meu papel é o de as ajudar a perspectivar o projecto de maternidade”, acrescenta.

Calcula-se que existam cerca de dois mil casos de gravidez precoce de raparigas que vivem em situações limite. "Há situações em que os filhos são consequência de abusos sexuais de homens mais velhos e por vezes familiares", declara Carlos Ramalheira. Estes dois mil casos parecem ser uma gota de água num oceano de 108 mil nascimentos por ano em Portugal. "Mas enquanto houver histórias destas devemos estar sempre preocupados", remata o médico.

AJUDA DE MÃE

Nas instituições de reinserção social para estas mães adolescentes que vivem sem rumo, como a Ajuda de Mãe ou Casa de Santo António, chegam diariamente dezenas de meninas que aos doze, treze, catorze ou quinze anos já deixaram de brincar de forma pueril nos recreios da escola ou de se preocupar unicamente com os TPC (Trabalhos Para Casa) ditados pelos professores. São raparigas como a Cláudia, a Susana, a Isabel, a Ami, a Maria Antónia, ou a Regina, que moram em bairros sociais, no seio de famílias problemáticas e desintegradas socialmente.

"Elas entram por esta porta adolescentes e saem igualmente adolescentes. Mas entretanto passam a ser jovens mais moderadas e maduras", conta Alexandra Lourido, técnica de serviço social na Ajuda de Mãe. A instituição privada serve de residência de internato e semi-internato a muitas daquelas mães adolescentes de sorriso triste. Muitas delas não teriam oportunidades de continuar a estudar, ou a cuidar do seu filho se não contassem com esta ajuda.

Em geral, as mamãs adolescentes vivem na Ajuda de Mãe durante cerca de dois anos, mas a ‘estadia’ prolonga-se um pouco mais quando as assistentes sociais sentem não existir condições sócio-económicas estáveis no mundo exterior. "Não vamos pôr em risco todo o projecto de vida delineado durante largos meses", justifica Alexandra Lourido para quem a principal aposta é na sua escolaridade. "Incentivamos a que atinjam a escolaridade mínima obrigatória porque sabemos que no futuro, a maioria acaba por ser explorada em trabalhos precários." Mesmo quando saem da instituição, as assistentes sociais continuam a estar atentas às suas notas e assiduidade nas aulas. "A Cláudia (ver caixa) é um desses exemplos". A técnica de serviço social sorri: "Passamos a ser todos uma grande família".

Para Alexandra Lourido a principal causa da gravidez em tão precoces anos deve-se apenas a um factor: a imaturidade. "Todos os dias elas me dizem o mesmo quando entram na minha sala: ‘E eu que pensava que isto apenas acontecia às outras!’"

Angolana, tem 13 anos e é mãe um menino de 4 meses. Frequenta o 5º ano de escolaridade

"Vim de Angola para Portugal apenas com nove anos. Fui criada pelos meus avós. A minha mãe deixou-me com eles era eu muito nova. Quando voltei a encontrá-la não nos demos às mil maravilhas e vivemos uma relação muito conflituosa. Estamos sempre a gritar uma com a outra. Tenho de fazer aquilo que ela me manda. E somos ambas teimosas. Antes de vir para a Casa de Santo António vivia no Cacém, com o meu padrasto. Ele estava divorciado da minha mãe. A minha gravidez (tinha apenas 13 anos) não foi uma surpresa, apesar de tudo, porque eu desejava mesmo ter o Bruno. Se não fosse o meu filho, hoje era uma rapariga demasiado rebelde e nem pensava em estudar. Com um filho no colo, mudei bastante a minha maneira de ver a vida. Tornei-me mais madura. Fui viver para a Casa de Santo António, quando estava grávida. Sinto grandes diferenças entre os meus dias aqui e daqueles quando ainda não era mãe. Saía frequentemente com os meus amigos para parques ou ficava na escola, na conversa. Hoje, continuo a estudar. Estou no 5º ano. Mas chumbei, talvez devido ao facto de ter ficado grávida. Só saio daqui aos fins-de-semana para ver os meus pais. Depois do nascimento do Bruno, a minha mãe começou a falar melhor comigo. O bebé aproximou-nos. O meu desejo secreto é que o Bruno um dia fosse médico."

Tem 16 anos e uma filha de três. E estudante do 9º ano de escolaridade

"Se eu hoje não fosse mãe, sei que não teria tantas responsabilidades e provavelmente teria outra maneira de pensar e de agir. Desde que nasceu a Iolanda (há três anos), sinto que cresci bastante. Uma bebé requer que se lhê dê muita atenção e carinho e vale a pena o esforço. Penso que poderia ter engravidado mais tarde. Tinha apenas 13 anos quando descobri que estava grávida de cinco meses. Não cheguei a contar directamente aos meus pais. Foi uma amiga minha que o fez, revelando tudo à minha mãe. Quando eles souberam da notícia, ficaram alarmados. O meu pai até me deixou de falar. Mas quando a Iolanda nasceu, reatámos as relações. O pai da criança, o Paulo, até reagiu bem, na altura. Este foi um parto prematuro, realizado no Hospital Amadora-Sintra. Pouco tempo depois, fui encaminhada por uma assistente social do hospital para a Ajuda de Mãe, onde fiquei a viver durante dois anos, em regime de internato. Entretanto, voltei a estudar e actualmente frequento o 9º ano de escolaridade. Gosto muito de estudar, principalmente as disciplinas de Português e História. O meu dia-a-dia é o de colocar a Iolanda na creche, de seguida vou para as aulas. À tarde regresso e vou buscá-la. Hoje, vivo em casa da minha mãe, com o meu irmão, na Reboleira. Só tenho pena que o Paulo, que tem 21 anos, esteja longe de mim, uma vez que trabalha na Holanda. Todos os meus tempos livres são passados com a Iolanda. Gosto muito de passear com ela".

Tem 16 anos e, dentro de sete meses, deverá dar à luz pela primeira vez. Vive com o namorado em Évora, tem apenas o 7º ano de escolaridade e está desempregada.

"O meu namorado, o Rui, tem 29 anos e trabalha na construção civil e nós vivemos juntos", explicou Elsa. Sem poder contar com o apoio familiar, a mãe abandonou-a em bebé e esteve afastada do pai até ao Verão passado, tendo vivido uns anos com um casal e depois em dois lares, esta jovem acredita que a experiência que adquiriu com crianças pequenas num dos lares aonde viveu e, mais recentemente, com dois sobrinhos, a vão deixar à vontade para tratar do bebé. Penso que tudo vai correr bem. Tenho várias amigas em lares em Lisboa que também com 16 anos, ou menos, foram mães. Isso sempre me fez alguma confusão, mas agora já não faz. Com elas as coisas resolveram-se e comigo também será assim", afirma, ainda que, sem grande convicção. Enquanto aguarda pelo nascimento, Elsa espera tirar um curso profissional e sempre que pode visita o lar de onde partiu no Verão passado. De momento, só sabe que apesar dela e do namorado não terem planeado ter um filho tão cedo, estão ambos "muito contentes".

Tem 17 anos. Francisco, o filho, tem 5 meses. A mãe não desiste da vida: frequenta o 12º ano.

"Sempre tive a informação suficiente sobre como evitar uma gravidez. Em casa e na escola sempre falámos do assunto... Enfim, não tomei os cuidados devidos e acabei por engravidar. Suspeitei que estava grávida logo na primeira semana. Quando o teste deu positivo nem me passou pela cabeça não ter a criança. Falei com a minha mãe, que me apoiou a cem por cento desde o início. O meu pai é mais fechado e não aceitou o facto tão bem, deixando de me falar durante quinze dias. Mas o problema maior foi o meu ex-namorado e pai da criança, um ano mais novo que eu, que não quis assumir o bebé. Ele acabou com o nosso namoro porque queria que eu abortasse. Estava com medo que o bebé lhe estragasse a vida e nunca mais nos vimos. Assumi a gravidez com consciência mas com algum receio à mistura. Ainda bem que levei a maternidade avante pois não estou nada arrependida, mesmo depois de ter sofrido uma ligeira depressão. Já não imagino a minha vida sem o Francisco. E cheguei à conclusão que a minha vida não mudou assim tanto. Eu nunca deixei de estudar e frequento o 12º ano no liceu Camões, onde pertenço a uma juventude partidária. Continuo a viver com os meus pais num apartamento nas Olaias. E graças à boa vontade da minha mãe até consigo sair à noite de vez em quando com os meus amigos. Ela é uma avó galinha. E acho que estamos a mimar muito o Francisco. Até o meu pai já se rendeu a ele. O bebé tem todas as condições afectivas e económicas para ser uma criança feliz."

Tem 14 anos e é pastora na aldeia de Bobal, Mondim de Basto. Teve um filho de um companheiro, pastor, de uma aldeia vizinha.

"Namorava-mos um pouco às escondidas, devido ao facto de eu ser muito nova e procurar esconder dos meus pais aquele relacionamento. Nunca pensei que pudesse engravidar, porque estava farta de ver parir as cabras, algumas das quais ajudei ao parto, mas tinha pouca informação de como se processava esta situação entre nós. Aconteceu. Comuniquei aos meus pais, algum tempo depois de ter a certeza que estava grávida, eles disseram-me que não vinha nenhum mal ao mundo por isto ter acontecido. Dois anos depois do menino ter nascido, ainda não o baptizámos porque estamos à espera de uma irmã minha que quer ser madrinha. Ainda no domingo passado o pai do meu filho esteve

aqui em minha casa, passeou com o menino ao colo (ele gosta muito do pai) mas ainda não me falou em casamento...

Por enquanto, estou em casa dos meus pais."

‘Susana’(nome fictício)

Tem 12 anos e um filho de um mês. Actualmente frequenta o 5º ano de escolaridade.

"Vim da Guiné para Portugal com os meus tios há poucos anos. De início vivíamos na Póvoa de Santo Adrião. Mas mudei-me para a Amadora recentemente. Ando no 5.O ano de escolaridade. Só parei de estudar quando fiquei grávida do Kevin mas quero continuar com os estudos. O meu filho chama-se Kevin, um nome inspirado no actor de cinema, do qual sou grande fã. Ainda não está registado. Mas gosto mesmo deste nome. O Kevin só tem um mês mas é muito grande. E uma sensação um pouco estranha andar de repente com um bebé ao colo, ainda por cima para uma pessoa da minha idade. Não estou nada habituada. Confesso que não fiquei nada contente quando soube da gravidez. Ainda pensei em abortar, mas já era tarde de mais. Os meus pais ficaram muito chateados comigo, mas acabaram por aceitar a ideia. Mas, infelizmente eles ainda não viram o bebé porque continuam a viver na Guiné. Mas espero que um dia o venham ver. O pai da criança gosta do nome escolhido por mim mas também quer baptizar a criança. O problema é que ainda não disse nada sobre o assunto e está a demorar demasiado tempo porque quero registá-la já. Ele é mais velho do que eu. Disse-me que tem 23, mas não sei se é verdade ou não."

• Cerca de 23 por cento da população jovem iniciou-se sexualmente com menos de 16 anos.

• Há anualmente cerca de 7500 mil novas mães adolescentes.

• Uma jovem sexualmente activa que não usa contraceptivo tem 90 por cento de probabilidade de engravidar dentro de um ano.

• A maioria dos jovens considera que seis meses de namoro é o tempo ideal para a iniciação sexual.

• O Concelho de Sintra é o que tem maior número de mães adolescentes em Portugal.

• A taxa de fecundidade em Portugal é de 1,42 filhos por mulher.

• 22 mães em cada mil mães portuguesas são adolescentes.

• 6,5 por cento dos jovens não estaria disposto a viver conjugalmente com uma pessoa que não fosse virgem.

• A idade média para a estreia da maternidade é de 26,4 anos.

• A maioria dos jovens portugueses entre 15 e 19 anos confessa ter recorrido a um contraceptivo na sua primeira relação sexual.

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