Livro conta histórias dos presidentes dos EUA através dos relatos daqueles que os serviram.
Ninguém estranhou ao ver Ronald Reagan na cozinha da Casa Branca, na noite de 15 de abril de 1986, pois era habitual que o então presidente dos EUA lá entrasse, ao contrário de muitos antecessores. No entanto, o mordomo Wilson Jerman e o chef Frank Ruta perceberam que a ocasião era solene. "Quero que saibam, rapazes, que dentro de cinco minutos vamos começar a bombardear a Líbia", disse-lhes Reagan, ao que Ruta reagiu como o profissional que era: "Isso é muito simpático, senhor presidente, mas a que horas é que quer o jantar?"
As histórias de alguns dos mordomos, governantas, cozinheiros, camareiras ou jardineiros que trabalharam no número 1600 da avenida da Pensilvânia, em Washington, foram reunidas pela jornalista Kate Andersen Brower, em ‘O Mundo Privado dos Presidentes dos Estados Unidos’, publicado em Portugal pela editora Vogais. Entrevistas a três antigas primeiras-damas (Barbara Bush, Laura Bush e Rosalynn Carter), diversos filhos de ex-presidentes e dezenas de ex-funcionários deram-lhe a possibilidade de ultrapassar a regra de ouro de quem se habituou a ser invisível: nunca falar sobre os empregadores.
Ficaram assim claras as preferências daqueles que zelaram pelas dez últimas ‘primeiras famílias’ dos EUA: apesar da relevância de Barack Obama para mordomos e camareiras que nunca esperaram ver na Sala Oval alguém com a mesma cor de pele do que eles, do mito em torno de John Fitzgerald Kennedy e da cinematográfica simpatia de Reagan, George H. W. Bush e a sua mulher, Barbara, são os mais memoráveis e saudosos ocupantes da Casa Branca. Ao ponto de a sua derrota, quando tentava ser reeleito para o segundo mandato, ter levado à saída de alguns funcionários, vistos por Bill e Hillary Clinton como demasiado conotados com o antecessor.
INSETICIDA EM BUSH
Uma das razões para a "dedicação excecional do pessoal" a ‘Pops’ – alcunha que a mulher (por sua vez alcunhada de ‘Bar’) não deixava esquecer – explica-se com a preocupação dos primeiros Bush na Casa Branca com os horários de quem trabalhava para eles e a compreensão para com as falhas. "Bush era rápido a perdoar os erros que teriam enfurecido outros presidentes", escreve a autora do livro, exemplificando com a ocasião em que o jardineiro se enganou e, em vez de repelente, borrifou o presidente com inseticida, forçando-o a ser descontaminado.
No extremo oposto deixam a primeira-dama anterior, Nancy Reagan, que não tolerava cabelos compridos nas mulheres da Ala Leste da Casa Branca e não raras vezes destratava o marido à frente de todos. Algo que só voltaria a suceder aquando do escândalo sexual de Bill Clinton com a estagiária Monica Lewinsky, pois a voz de Hillary sobrepôs-se à porta fechada, sendo impossível para vários mordomos não ouvir o sonoro "maldito filho da mãe!" antes do barulho de um objeto decorativo não identificado a ser arremessado contra o presidente, sem que ninguém dos serviços secretos pudesse interpor-se.
Entre os presidentes ninguém deixou recordações tão negativas quanto o "grosseiro" Lyndon B. Johnson, que só se tornou presidente devido à morte de Kennedy. "Se eu consigo movimentar dez mil soldados num dia, você consegue de certeza arranjar a casa de banho como eu quiser!", gritou ao canalizador-chefe Reds Arrington, obcecado com a pressão de água necessária para o chuveiro presidencial, "equivalente a uma mangueira de incêndio".
Quando o problema foi resolvido, à conta da instalação de bombas elevatórias e à compra de uma cabeça de chuveiro idêntica à existente na mansão em que o até então vice-presidente residia, Reds foi chamado à casa de banho, ouvindo do presidente, sentado na retrete, palavras simpáticas: "Só quero dizer-lhe que o chuveiro ficou uma delícia e que agradeço tudo aquilo que você fez."
Noutras ocasiões, Johnson despia-se na presença do pessoal e entrava para o duche. Mas a nudez também marcou a passagem de Ronald Reagan pela Casa Branca. Repreendido pela mulher por falar com o secretário-geral-adjunto ‘Skip’ Allen estando de cuecas no quarto presidencial, teve resposta pronta: "Não te preocupes com isso. Ele já hoje me viu nu. Já somos velhos amigos."
TRAGÉDIAS E DESGRAÇAS
Trabalhar na Casa Branca também implica ver homens e mulheres poderosos nos piores momentos. É convencer Jacqueline Kennedy a tirar as roupas ensopadas de sangue do marido, ao voltar à Casa Branca, viúva e já não primeira-dama – Johnson tomou posse no Air Force One, durante o voo de Dallas para Washington –, ou dizer a Caroline e John-John que tinham ficado órfãos. A missão coube à ama Maud Shaw. "Houve um acidente e o teu pai levou um tiro", disse, dias antes de o ascensorista Preston Bruce abraçar ‘Jackie’ e o cunhado Robert no elevador. Tal qual faria anos mais tarde, com lágrimas nos olhos, ao levar Richard Nixon, no dia em que este se demitiu, desgastado pela longa investigação ao caso Watergate.
Mas também pode ser descobrir manchas de sangue na roupa de cama do presidente, obrigando a camareira a reportar uma possível ameaça à segurança nacional. "O presidente teve de levar vários pontos na cabeça. Clinton insistiu que se ferira ao bater na porta da casa de banho a meio da noite", escreve Kate Andersen Brower. Não por acaso, dormiria num sofá de um gabinete privado "durante três ou quatro meses".
Coube ao chef pasteleiro-executivo Roland Mesnier animar a primeira-dama, com um bolo de creme moka que Hillary apreciava. "Os Clinton quase me mataram. Fiquei com as pernas desgraçadas", desabafou o francês, em entrevista, revelando que saiu da reforma duas vezes, uma delas a pedido de Laura Bush, que lhe encomendou um bolo de aniversário para George W. Bush.
Com os Obama, entre outras transformações, voltou a haver crianças na Casa Branca. Malia e Sasha cresceram rodeadas de pessoas pagas para tratar da ‘primeira família’, e não consta que tenham fumado marijuana nos quartos, como alguns antecessores. Embora a regra seja que o que se passa na Casa Branca, fica na Casa Branca.
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