Fez sempre desporto e não tem, nem nunca teve, vícios, a não ser o maior de todos, a música, sem a qual não pode viver.
Maria João não pára. Este ano terá dois discos novos - um com os Ogre e outro com a poesia de Aldir Blanc - e muitos concertos. Com Mário Laginha, com as Moçoilas, com Egberto Gismonti etodos os outros parceiros que se quiserem aventurar. A entrevista com quem não acredita em "vozes direitas e afinadinhas".
Tem vários projetos entre mãos. Como consegue dividir-se por tanta coisa? De onde vem essa ‘insatisfação’?
Eu sou muito curiosa e a música – juntamente com o meu filho – é o grande amor da minha vida. Eu adoro música, sou completamente viciada. Se houver um dia que não tenha música, eu arranjo maneira de a fazer. Não é preciso receber nada em troca. Sempre tive esta disposição. Também há o lado do negócio da música, que às vezes é complicado. Mas eu sempre quis fazer muita coisa. Se gosto, aceito.
Como é que descobriu a música? Nem sequer começou a ter aulas de música muito cedo…
Eu fui para a escola do Hot Club por acidente. E só aconteceu porque a piscina onde eu dava aulas de natação entrou em obras e eu fiquei uns tempos parada. Estava muito ociosa e um vizinho meu, que era músico, diz-me que estavam a fazer audições no Hot Club. Que eles lá faziam jazz, "aquela música que se ouvia nos festivais". Lá fui. Sem preparação. Levei só uma música ensaiada, ‘Cantador’, do Luiz Gonzaga. Era o Zé Eduardo que estava a fazer as audições lá naquela cave pequenina e escura, onde de dia se dava aulas e à noite havia concertos. Quando cheguei pergunta-me: "então e o papel?" E eu: "papel? Qual papel?" Respondeu: "A partitura para poder acompanhar!" Mas eu não tinha papel nenhum… "Então canta outra!", diz-me ele. Improvisei o ‘Night and Day’. E não sei o que viu em mim, mas deve ter sido qualquer coisa de especial. Foi puro acaso. A música podia perfeitamente ter passado completamente ao lado da minha vida.
Com os seus alunos também é assim? Procura esse fator especial?
Gosto sobretudo de lhes transmitir a liberdade da música. Mais do que terem tudo direitinho e afinadinho.
Alguma vez teve medo que a voz lhe falhasse?
Sempre. Mas o tempo vai passando e eu estou tão agradecida! A voz está intacta, eu estou bem. Tenho 62 anos de vida e 33 de carreira. Eu própria penso: "Respect!" [respeito]. E também acho que tive muita sorte! São 33 anos de uma profissão muito exigente. É como ser atleta de alta competição. Também fiz por isso. Quando chego ao fim de um concerto, se calhar vão todos para os copos e eu vou para o quarto descansar. É preciso ter disciplina. Tive sorte. Também não fumo, não bebo, nunca tomei drogas. Sou viciada em desporto. Muita natação, até porque a minha mãe era nadadora do Algés. Fiz ginástica no Sporting. Fiz aikido. Mas também era muito rebelde, mal comportada. Era hiperativa.
Mas de onde vinha essa rebeldia? Ao fim de todos estes anos, já conseguiu perceber?
Eu era curiosa, muito curiosa, e tinha muita energia. Tenho esta coisa da imaginação, da criatividade e queria fazer tudo. Depois, a minha mãe pôs-me em vários colégios internos e, como eu não queria lá estar, portava-me mal. Mesmo mal. E fugia. Mas eu sou boa pessoa. Eu sempre soube que era boa pessoa, apesar de estar calhadinha para o disparate. Isso, juntamente com o desporto, salvou-me. A minha mãe inscreveu-me numa escola de aikido em Cascais, quase com 18 anos, e a modalidade canalizou a minha energia.
E agora, o que faz?
Corro, trial, natação, aikido e ando a sonhar com o triatlo.
Tem um filho, João Grancha, também nadador.
Sim. Vai agora aos mundiais de masters. Quando ele e os amigos eram pequenos, eu uma amiga prometemos que, se chegassem aos Jogos Olímpicos, rapávamos o cabelo. Ainda bem que não foi aos Jogos Olímpicos (de masters), são só os mundiais! Ainda vou ficar com o meu cabelo.
A maternidade fez tudo ficar diferente?
Foi uma descoberta. Primeiro, desde que engravidei, sempre soube que era um rapaz. Eu sabia! E andei em tournée na Europa de mala atrás, sozinha, com uma barriga enorme, até aos sete meses quase. Era eu e o meu bebé que estava ali na minha barriga. E de repente, quando eu o tive, foi uma coisa estranha. Porque não foi aquela coisa "ai, meu rico filho". Foi uma sensação de estranheza, até. Durante uma, duas horas, não era "o meu rico filho", "eu"… era outra pessoa. E depois o amor veio, veio, e foi avassalador. Mas muda tudo, a nossa vida não fica a mesma… nem parecida. Perde-se a independência, a liberdade.
Foi fácil continuar a carreira quando ele era pequeno?
Foi fácil, porque eu tinha o meu pai e a minha mãe. Ai dos músicos se não tiverem os pais! Mas lembro- -me da primeira vez que saí em digressão. Quando voltei, a minha mãe estava exatamente no mesmo sítio e na mesma posição com ele ao colo que quando eu fui embora. Só que o João estava maior. Partiu-me o coração. Mas o João sempre percebeu. Eu dizia-lhe que era a maneira como a mamã podia e que saía, mas voltava sempre.
O único homem da sua vida para o qual voltou sempre?
Absolutamente. O único que sempre teve a minha total e absoluta dedicação.
As raízes africanas marcaram-na muito?
Quando eu era miúda não convivia bem com isso. Estive no colégio inglês em Carcavelos e não gostava nada. Eles todos muito louros e magros, com o cabelo liso e escorrido. Eu gorducha, de óculos, com o cabelo africano. Houve bullying, claro, mas eu resolvi bem aquilo à minha maneira, que era à pera. Esse amor pelos meus antepassados veio mais tarde.
Como?
Assumidamente quando fiz o disco ‘Cor’. Nessa altura, caiu em mim. Eu andava à procura do meu lugar na música e na vida e aquilo fez sentido. Não é ser nem branco, nem preto. Eu sou branco e preto. A soma de duas coisas. Olha que sorte! A partir daí foi orgulhosamente o meu lugar, amado e assumido. Descobri há muito pouco tempo que tinha família em Moçambique. E primas! Eu que era filha única e sempre tinha brincado sozinha, tinha afinal montes de primos da minha idade! Fiquei zangada com a minha mãe. Ela já sabia, claro, mas lá me explicou porque é que nunca me tinha dito. A típica história das colónias e da descolonização. Ela era filha de pai português e veio para Portugal. Disseram-lhe que a mãe tinha morrido, mas ela depois percebeu que a mãe estava viva e que a tinham criado outras pessoas. A minha mãe sentia que tinha sido abandonada. Percebi e aceitei a posição dela.
Encontrou esse lado da família?
Conheci primeiro a Paulinha, prima, em 1998, durante a Expo. Ela apareceu lá com a nossa árvore genealógica numa folha. Uma mulher muito parecida com a minha mãe! Depois já me encontrei com as minhas primas de cá (moram a poucos quilómetros de mim!) e com as de lá de Moçambique. Fiquei tão feliz! Uma família enorme!
A história das pessoas é a história também de uma época?
Absolutamente.
Tratamos bem esse nosso legado da lusofonia?
Eu não sei bem o que achar. Acho que ligamos muito a esta coisa do fado, mas ligamos pouco à faceta multicultural que também é dos portugueses. Nós andamos por todo o lado. Eu tiro o chapéu aos portugueses antigos, que tiveram essa coragem. O colonialismo foi uma vergonha, mas a aventura foi incrível. Criámos um povo multicultural, mas que não é tão usufruído como poderia ser. Mas eu julgo que sou uma digna representante disso.
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