Escolher o nome para uma criança nem sempre é fácil. Saiba o que influencia os pais portugueses
Luena é a capital da província do Moxico, antes conhecida por Vila Luso, em Angola, ex-colónia portuguesa, mas não foi por saudosismo súbito que no ano passado 94 meninas foram registadas em Portugal com este nome – quando em 2014 apenas oito o tinham recebido. A explicação para a escalada do nome no ranking do Instituto dos Registos e do Notariado está na personagem da atriz Rita Pereira na telenovela ‘A Única Mulher’ (TVI), uma bailarina filha de retornados movida por uma vontade de vingar tudo o que os pais perderam em Angola. Não podemos subestimar o papel da televisão enquanto inspiração para os pais na hora de escolherem o nome das crias e não falamos só de produtos de ficção, daqueles onde os maus e os bons são a fingir e tudo tem um fim dezenas de capítulos mais tarde sem danos nem mossas para ninguém.
"Doriana também apareceu subitamente depois de uma concorrente da ‘Casa dos Segredos’ ter-se tornado conhecida. No ano seguinte houve uma série delas e depois desapareceu [um fenómeno tão efémero como a popularidade de quem participa nestes reallity shows]", conta Ana Filipa Lopes, autora do blogue Nomes e mais nomes (nomesportugue-ses.blogspot.pt), que desde 2009 se dedica a perceber os fenómenos por detrás dos nomes com que se registam as crianças inspirada em sites norte-americanos profissionais que há muito já o faziam com elaboradas bases de dados organizadas desde 1900 e pouco. "Eles conseguem mesmo determinar a relação com o que estava a acontecer: neste ano houve filme x com personagem y e decidi ver se isto acontecia também em Portugal".
Por cá, o nome Beatriz
passou da 63ª posição no ranking para a 20º entre 1992 e 1993 e em 1996 já estava no top 10 depois da exibição em Portugal da telenovela brasileira ‘Felicidade’, graças à popularidade da personagem [uma criança que só no penúltimo capítulo descobre quem é o pai verdadeiro] com esse nome. Depois disso nunca mais abandonou os lugares cimeiros: está há 15 anos ininterruptos no top. "Beatriz abriu as portas a uma nova tendência de nomes femininos em Portugal, papel que do lado masculino coube a Rodrigo e Afonso", explica Ana Filipa Lopes. Este último tornou-se extremamente popular ainda nos anos noventa [depois de
anos com poucos registos, apesar de ser dos mais populares no século XVI] quando D. Duarte de Bragança e Isabel de Herédia escolheram este nome para o primogénito, nascido em 1996. "Nascia assim a tendência de nomes mais aristocráticos que vinte anos depois domina a lista de nomes mais registados no país, com grande destaque para Matilde e Leonor", acrescenta a autora do Nomes e mais nomes.
O mesmo se passou com o nome Pilar quando a [atriz e apresentadora] Diana Chaves escolheu esse nome para a filha [em 2012] e quando [a também atriz] Fernanda Serrano batizou o filho mais velho com o nome Santiago, em março de 2005. Por outro lado – e aqui a blogosfera a mostrar que já entrou na casa das pessoas como uma velha amiga – "depois de a Pipoca mais doce (título de um dos blogues mais lidos no País) ter escolhido o nome Mateus para o filho começaram a ser registadas (muito) mais crianças com este nome", continua Ana Filipa Lopes. Também Enzo passou a ser eleito por muitos pais portugueses à custa do protagonismo nos relvados do ex-jogador do Benfica (agora no Valência) Enzo Pérez, nos anos seguintes aos seus sucessos na Luz. Noutro campo de peso, a eleição do papa Francisco também içou os Franciscos e as Franciscas para os lugares cimeiros do ranking em Portugal (e muito provavelmente no resto do Mundo). Já o nome do seu antecessor não produziu influência no ranking – os Bentos não colheram muitas preferências dos pais das crianças.
Sempre Maria
Em 2015 foram registadas 5324 meninas com o nome Maria, 1999 crianças a quem os pais escolheram chamar Leonor e 1889 Matildes. O primeiro do top também era o nome eleito no século XVI, seguido por Domingas e Teresa. Curiosamente (ou não) nos nomes masculinos há dois repetentes nos dois séculos: em 2015 os lugares cimeiros foram ocupados por Rodrigo, João e Martim e no século XVI por João, Martim e Domingos.
" Portugal tem um quadro legal relativo à atribuição de nomes próprios singular no contexto da União Europeia e das democracias ocidentais, mecanismo desenvolvido no século XVI como instrumento do projeto político de tornar Portugal num país religiosa, cultural e linguisticamente homogéneo. Nesta altura, no tempo de D. Sebastião quando a inquisição estava em força, instituiu-se a obrigatoriedade de nomes próprios cristãos através do registo de batismos nos assentos paroquiais", explica Paulo Feytor Pinto, professor de Linguística e doutorado em Estudos Portugueses com especialidade em Política da Língua. "Até ao final da monarquia constitucional a aprovação de nomes próprios disponíveis para a generalidade da população dependeu das autoridades religiosas. O primeiro Código de Registo Civil português foi aprovado a 18 de fevereiro de 1911, logo nos primeiros meses do regime republicano. Ao longo do século XX foram aprovados cinco novos códigos [o último deles em 1995] mas surpreendentemente todos eles mantiveram características estruturantes da tradição onomástica inquisitorial. O que é surpreendente é como é que isto perdurou até à democracia. Em Espanha, por exemplo, no final da ditadura abo-
liu–se esta obrigatoriedade
nos nomes. Há muito poucos países no Mundo que fazem este tipo de restrições e os que fazem são países autoritários, como a China, Irão...", acrescenta o linguista.
Manel e Xico
"Compete ao conservador do Registo Civil determinar se aceita como nome próprio o vocábulo, ou vocábulos (no máximo de dois) indicados pelos pais. Se o conservador tiver dúvidas sobre a admissibilidade do vocábulo indicado e se recusar a efetuar o registo com aquele nome podem os interessados solicitar uma consulta onomástica ao senhor presidente do Conselho Diretivo do Instituto dos Registos e do Notariado", explica fonte do Ministério da Justiça. Na verdade, os pais que propõem determinado nome para o filho que não seja aceite pela lista do IRN podem contestar. A média de pedidos de admissibilidade (fazer o estudo custa 50 euros) de novos exames é de 13 por mês. Ivo de Castro foi consultor onomástico do Ministério da Justiça até ao ano passado. Até então era este professor de Linguística na Faculdade de Letras de Lisboa que se debruçava sobre os nomes diferentes que os pais propunham para os seus filhos e dava um parecer sobre os mesmos. Desde que deixou o cargo – coincidência ou não – começaram a ser aceites nomes que até então não eram. Já é possível chamar Xico, Manel e Cla-rinha a uma criança e até Chloe, apesar de ser declaradamente estrangeiro.
Se quiser chamar Leão ao seu filho pode fazê-lo apenas como segundo elemento do nome, bem como Magenta, Agonia e Natal. Marx não é admitido, Matricolina também não e Mogli e Mona Lisa muito menos. Mas ninguém o impede de escolher Modesto para o nome próprio da sua criança ou Neótoles, Abelâmio, Amor, Betsabé ou Clemência. São nomes que dificilmente irão para o top dos eleitos mas não se iniba se forem os preferidos lá em casa.
O mesmo não se pode dizer de nomes intemporais como Manuel, João, Luís, António, Carlos – para rapaz – e Teresa, Maria, Ana e Isabel – do lado das meninas – que em maior ou menor número nunca deixaram de entrar nos registos e, independentemente das épocas (dos filmes e das telenovelas mais badalados, dos filhos das celebridades e das próprias), fizeram sempre parte das escolhas dos portugueses. Por outro lado, há nomes queviveram épocas áureas em determinadas décadas mas que se ‘sumiram’ de um momento para o outro. Tânia, Vânia e Marisa são disso exemplo entre as raparigas (extremamente populares nos anos 80 entraram em declínio no final dos 90) e Marco, Nélson e Sérgio nos rapazes, por exemplo. Por agora as Alices e as Claras estão a dar cartas (devem conseguir chegar ao top 1o em 2016) e os Vicentes e os Lucas também. Importante é que escolha em consciência. E que tape os ouvidos às críticas: haverá sempre alguém que não goste. Afinal quem são os pais?
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