o marechal gomes da costa, presidente da república depois do golpe final contra a i república, pelo neto de 85 anos
Reza a história familiar do marechal Gomes da Costa que, pouco antes do golpe de 28 de maio de 1926 que inscreveu o seu nome na história contemporânea, ‘expulsou’ de casa os convivas com quem conversava sobre uma hipotética revolução porque a neta preferida lhe foi bater à porta e disse: ‘Avô, tinha prometido comprar-me um manjerico, o Santo António está a chegar’.
‘Meus senhores’ – terá dito – ‘ide-vos embora porque prometi à miúda e não posso faltar com a minha palavra’. Entre os senhores em questão estaria o general Sinel de Cordes e outros militares destacados de então. O episódio parece fora do contexto do homem-soldado que nasceu há 150 anos no tempo da Monarquia (14 de janeiro de 1863), participou em operações militares nas colónias portuguesas, assistiu ao nascimento da I República, lutou nas trincheiras na I Guerra Mundial, e também fez cair a República para dar lugar à ditadura, mas quem a conta é o neto, parecido ao avô nas feições e igual ‘sem tirar nem pôr’ no nome que carrega na certidão de nascimento.
Manuel de Oliveira Gomes da Costa, hoje com 85 anos, nasceu três anos antes de o avô morrer e dois depois deste regressar de um forçado exílio nos Açores, que lhe terá apressado a doença e a morte aos 66 anos. "Na altura da I Guerra, em França, disse alto e bom som: ‘Só sei que há duas coisas de que não vou morrer: de medo e de parto.’"
CASA SEMPRE CHEIA
"Ele adorava esconder-se com os netos (18) debaixo da mesa para pregar partidas à minha avó [filha de um comandante] e ter-nos a todos a partilhar as refeições. A casa nunca estava vazia. Ou era a família ou era gente a convidá-lo para encabeçar uma revolução, estavam sempre a bater-lhe à porta." Era "irrequieto, gostava de conspirar, mas recusou muitos dos convites por achar que não havia um programa concreto, dizia que faltavam ideias sobre o que se ia passar". Naquele maio que abriu caminho à ditadura militar e ao Estado Novo aceitou a liderança.
"Só quando teve a certeza de que havia possibilidades de ser bem-sucedido é que secretamente se meteu num automóvel, sem farda sequer, e foi à paisana até Braga". Aí fez a proclamação devida e marcharia depois no caminho inverso, entrando triunfalmente a cavalo na capital à frente das forças revoltosas a 6 de junho.
"Durante a viagem soube que tinha sido traído pelo comandante [Mendes] Cabeçadas" – que afastou do poder ao chegar – mas isso não o impediu de assumir a chefia do Estado. Foi por isso, e ainda que por pouco mais de um mês, o 10º presidente da República Portuguesa e o segundo da Ditadura Nacional, precisamente na altura em que Oliveira Salazar entra em cena. "Foi o Manuel Rodrigues, convidado para ministro da Justiça, que sugeriu o Salazar para as Finanças. O meu avô não o conhecia, tanto que quando o meu pai [que o marechal tornou seu secretário] lhe perguntou quem era aquele homem que também estava na reunião, ele respondeu: ‘Olha, é um professor de Coimbra que foi recomendado.’"
Certo é que Gomes da Costa acabou deposto num golpe de Sinel de Cordes – fala-se que devido à sua incapacidade para gerir os delicados equilíbrios da Presidência, "tanto que Salazar chegou a regressar a Coimbra de comboio". E, por isso, recebeu um ultimato de Sinel de Cordes e Carmona: ‘Podes ficar como presidente, mas sem autoridade nenhuma’. "O meu avô não quis. Foi por isso preso em Caxias e depois enviado para os Açores".
Quando Gomes da Costa morreu, "e apesar das dificuldades económicas, Salazar fez questão de fazer-lhe um funeral com honras nacionais e de ir todos os anos à missa em alma dele. O problema foi que, antes, não o quis ouvir, quando ele voltou dos Açores, e lhe disse que achava que o caminho que estava a seguir não era o mais correto. Nunca teve problemas de dizer o que pensava. Tinha uma linguagem rude e usava termos agrestes", diz o neto. Apesar dos dissabores que o parentesco lhe trouxe, o orgulho transborda. "No Liceu Camões sofri com o apelido. Tive um professor que me chumbou por não gostar do meu avô. Nunca ganhei nada com o meu nome, mas isso nunca me abalou."
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