Salazar ia “direito ao assunto” e “dispensava preâmbulos”. Maria Emília, bailarina e astróloga, contou tudo, mesmo a decepção – “é um homem como os outros” – à amiga Teresa. Não imaginava que uma criança ouvia a conversa
Maria Emília Vieira está muito excitada – confidencia à amiga Maria Teresa Nunes que vai a São Bento passar a noite. No dia seguinte ao encontro, quando se revêem, Teresa não aguenta a curiosidade feminina e interroga Maria Carlos – assim chamavam os mais íntimos a Maria Emília Vieira:
- 'Então ‘Carlitos’? Como é que foi? Que tal é ele?'
- 'Oh, Maria, estou muito desiludida. Ele afinal é um homem como os outros'.
'Ele' é António de Oliveira Salazar. A inconfidência foi testemunhada nos anos 50 por um miúdo, Luís D’Oliveira Nunes, sobrinho de Teresa. O pequeno ouviu isto… e mais. A ‘Carlitos’ explicou à amiga que Salazar era muito apressado... e que ia logo direito 'ao assunto', sem grandes 'preâmbulos'! Confidência cujo alcance Luís D’Oliveira Nunes – mais tarde jornalista –, só veio a compreender depois…
A relação entre Maria Emília e Salazar dura até o Presidente do Conselho se instalar na cadeira da indiferença.
As cartas, que estão na Torre do Tombo, são bem elucidativas sobre quem larga quem e deixam adivinhar momentos de intimidade. Não têm data e estão misturadas com vários mapas astrais do Presidente do Conselho, feitos precisamente por Maria Emília, astróloga.
Como actriz na ‘movida’ Lisboa, Teresa tinha conhecido a astróloga de Salazar, Maria Emília Vieira – ‘Carlitos’ – naquela intimidade das amigas. 'Ela era de uma família circense, muito excêntrica de carácter e tinha no seu domínio as danças exóticas, fazendo par com um francês, o Janot, muito amigo da minha tia', recorda Luís D’Oliveira Nunes, na altura um miúdo. Com nove anos, por ser calado, assistia a muitas conversas discretamente. Como aquela sobre a noite em São Bento.
Ouvia as amigas confessarem intimidades no palacete do n.º 34 da Alexandre Herculano, em Lisboa, a casa da tia, que casou com o ilustre banqueiro Carlos Ramires dos Reis, accionista do ‘Diário de Notícias’. 'O marido da minha tia pertencia a uma família de gente muito rica, entre eles muitos foram ministros de Salazar', recorda. As duas mulheres conhecem-se no meio artístico de que ambas fazem parte, na boémia Lisboa dos anos 30, e a amizade é tão forte e duradoura que Maria Teresa vem a ser a madrinha de casamento de Maria Emília Vieira com Norberto Lopes, fundador, com Mário Neves, do jornal ‘A Capital’.
Aos 69 anos, o sobrinho de Teresa, Luís D’Oliveira Nunes, é um dos jornalistas portugueses mais antigos, com a carteira profissional nº 23. Trabalhou no ‘Diário de Lisboa’, na ‘Capital’, ‘Diário de Notícias’, ‘Jornal Novo’, ‘Vida Mundial’ e ‘A Luta’, entre outros. Namorou com uma sobrinha de D.ª Maria, a governanta de Salazar, mas garante que não teve 'nada a ver com o Regime'. Também não lhe caem os parentes à lama por isso. O seu avô, que primeiro foi monárquico, com a implantação da I República depressa se 'tornou fervoroso' do Presidente do Conselho – um legado que deixou ao filho. 'Sempre adoraram Salazar.'
O primeiro a revelar com desenvolvimento e consistência as ligações de Salazar ao mundo esotérico foi o escritor Fernando Dacosta. Declara que o chefe do Estado Novo consultava regularmente astrólogos, médiuns e videntes. Uns pelo telefone, outros pessoalmente. Deslocavam-se a S. Bento, rodeando-se dos cuidados que a delicadeza da situação exigia. D.ª Maria introduzia-os em casa abrindo-lhes a porta lateral do muro do palácio. Mas já o jornalista Norberto Lopes, numa crónica que escreveu em 1982, no ‘Diário de Notícias’, sobre a crença dos poderosos nos astros, sustenta, referindo-se ao Presidente do Conselho: 'Posso afirmar que Salazar também recorria a eles.'
A fonte de Norberto Lopes é segura e próxima: a mulher com quem casou, Maria Emília Vieira, fez a leitura dos astros ao Presidente do Conselho durante três décadas. Revelou-o ela própria numa entrevista à ‘Capital’, em 1997, quando diz , referindo-se a Salazar: 'Era um homem extraordinário. Trabalhei com ele muitos anos e cheguei a dizer-lhe para se afastar do Governo e ir para a Suíça. Disse-me que não tinha dinheiro.' Durante duas décadas Maria Emília Vieira assinou, sob o pseudónimo Sibila, a secção de horóscopos do jornal ‘A Capital’.
É esta mulher que Luís D’Oliveira Nunes encontra na casa da tia, para onde rumava após as aulas na escola. Lá ouve muitas conversas íntimas. 'Como era pequeno, devia ter uns 10 anos, e estava ocupado a fazer os trabalhos de casa elas pensavam que eu não ‘apanhava’ nada, mas absorvia tudo!' E não se esqueceu da excitação na voz de Emília quando anunciou a Teresa que ia passar a noite em S. Bento, com Salazar.
Entre os mapas astrais há dois datados. Um refere-se ao ano '1967 a 1968' e prevê um 'risco de acidente de que o nativo será causador'. Luís D’Oliveira Nunes revela mais pormenores sobre esta mulher que, para além de astróloga de mão-cheia, a julgar pelo acerto da previsão, deu algum colorido e agitação à vida do ditador: ' Era uma mulher possante, muito determinada, com um ar sempre desafiador, inteligente e com um toque masculino, não só porque praticava actividades como o boxe e o tiro ao alvo, mas também pela sua ambivalência nas relações íntimas. Uma dessas relações foi com a cenógrafa Maria Adelaide Lima Cruz, pintora, que habitava o prédio onde também vivia Almada Negreiros, e Sarah Afonso, que fez uma revolução como cenógrafa no teatro de revista'.
A faceta mais sensual de Maria Emília revela-se nas danças exóticas e acrobáticas nos cabarés da moda dos anos 30: o Arcádia e o Maxim’s, num dos salões do Palácio Foz.
Maria Emília dá um toque de exuberância às festas organizadas pela tia de Luís, que casa bem – com um dos banqueiros mais bem instalados em Lisboa, Carlos Ramires dos Reis, presidente do Conselho de Administração da Companhia Industrial de Portugal e Colónias, detentora do ‘Diário de Notícias’. O casal habita um luxuoso palacete na rua Alexandre Herculano. Lá organiza tertúlias culturais e dá grandes festas na Quinta das Camélias, em Sintra. Mobiliza um círculo de gente boémia de que, mesmo oriunda de família modesta, Maria Emília faz parte. E Luís ouve, deliciado, as 'estórias' que a tia lhe conta: à noite, nas festas e nos bares, Maria Emília usa como jóia uma cobra píton à qual dá a beber leite, num pires. Durante o dia passeia, montada a cavalo, pela Baixa ou no Campo Grande.
Maria Teresa e Maria Emília Vieira têm em comum a paixão pela astrologia. Durante os anos de bailarina nos salões de hotéis e restaurantes em Paris, Maria Emília aproveita para aprender a ler nas estrelas. 'Não havia melhor escola que a de Paris', acentua Luís D’Oliveira Nunes. Não tem a certeza mas acha que foi por causa dos astros que Salazar e Emília se conheceram. Mas a astróloga acabou por só adivinhar em São Bento que António Oliveira Salazar era, afinal, 'um homem como outro qualquer'!
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