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Migrantes: A longa marcha para a Europa

Redes de tráfico humano aproveitam-se dos que fogem da miséria.

16 de agosto de 2015 às 09:00

O que se está a passar na União Europeia (UE) com os refugiados ou emigrantes do Médio Oriente e do Norte de África é inaceitável, é uma catástrofe humanitária. É um crime humanitário. Surpreende-me, pois, a posição de algumas organizações nacionais e internacionais, tão críticas e céleres a condenar atos individuais, como os crimes contra a humanidade, e depois, perante este cenário, estejam vergonhosamente mudas.

Já sabíamos que a palavra solidariedade na União Europeia significa muito pouco. A UE foi constituída na diversidade dos países que a integram, mas as diferenças culturais passaram a ser um fator de conflito, agora que temos uma Europa eminentemente económica.

O PUZZLE EUROPEU

Na UE existem várias realidades. De uma maneira simplista, um núcleo constituído pelos países do Centro da Europa e pelos países nórdicos, muito desenvolvido do ponto de vista económico, e depois os países localizados no Leste europeu, pobres, com poucas infraestruturas, mas desenvolvidos do ponto de vista dos recursos humanos, muito qualificados; e por fim os países do Sul da Europa, nos quais nos incluímos, com um razoável desenvolvimento em termos de infraestruturas, mas todos muito expostos a uma elevada dívida pública e privada e com recursos humanos pouco qualificados. Este factos, e principalmente a dimensão da dívida pública destes países, fizeram com que Espanha, Itália, Portugal, Chipre e Grécia estejam numa situação extremamente delicada, em especial a Grécia.

A UE foi solidária com estes países? Sabemos que não. A solidariedade europeia foi exatamente igual à manifestada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Estes países foram obrigados a um garrote económico que os atirou para uma recessão brutal, com níveis de desemprego elevadíssimos e um agravamento da exclusão social. A Grécia está hoje a viver uma situação de catástrofe social, sendo que lhe exigem ainda mais austeridade, mais cortes na despesa pública, ou seja, mais desemprego, mais miséria. O Banco Central Europeu (BCE) e a Comissão Europeia nem sequer perdoaram os juros do dinheiro emprestado aos países em crise. E, em alguns casos, os juros cobrados são superiores aos praticados no mercado de capitais.

Perante esta forma de tratamento dispensada a países europeus, seria de esperar que a UE tivesse uma política para os migrantes e refugiados que diariamente chegam à Europa à procura de uma vida melhor? Não.

Se as pessoas que chegam trouxessem alguma mais-valia económica a curto prazo para a UE, seriam recebidas de braços abertos; para depois serem exploradas e abandonadas. Não trazendo coisa alguma, a posição é só uma: impedi-las de entrarem em território europeu.

Esta poderia ser até uma posição defensável, se alguns dos países da UE não tivessem responsabilidades na situação em que se encontram os países dos desesperados.Os Estados Unidos e alguns países europeus, nomeadamente a França e a Inglaterra – já que Portugal e Espanha não contam para este campeonato, tendo estado na cimeira das Lajes apenas para fazer figura – alteraram a correlação de forças no Médio Oriente, mais concretamente no Iraque. Este país acabou por ser atacado a pretexto de ter armas nucleares – uma enorme mentira.

Aqueles países, principalmente Inglaterra e França, não aprenderam nada com a História. As civilizações não se impõem pela força das armas, nem por decreto. Os países ocidentais não podem pensar que chegam ao Médio Oriente e a África e impõem um regime democrático ocidental, assente no multipartidarismo e em eleições livres. Hoje, ao contrário do Rei Midas, que transformava em ouro tudo aquilo em que tocava, a troika formada pelos EUA, França e Reino Unido, apoiada pela generalidade dos outros países ocidentais, parece transformar em miséria e em pardieiros de criminosos tudo aquilo em que toca. A intervenção no Iraque deu no que deu – um país desmembrado, dominado pelo Estado Islâmico.

Na intervenção armada das forças aliadas no Iraque, milhões de pessoas perderam a vida, mas não se aprendeu rigorosamente nada com este desastre e voltou-se a intervir, na Síria, na Líbia, no Sudão, na Nigéria, no Iémen, entre outros, e o resultado foi idêntico. A Primavera Árabe, muito apoiada pelo Ocidente, não trouxe nada. Os países da Primavera Árabe são atualmente mais repressivos e fundamentalistas do que antes.

A intervenção do Ocidente no Médio Oriente e em África foi arrasadora para as pessoas que ali viviam. Se tinham dificuldades, e tinham, hoje têm muito mais. Se existia pobreza, hoje existe ainda mais. Se existia criminalidade, hoje existe muito mais. A intervenção da União Europeia e dos EUA apenas ajudou a que mais países se transformassem em estados falhados.

Hoje, nesses países, devastados pela guerra, pela fome e pela miséria, onde a palavra esperança é desconhecida, onde o que interessa é conseguir estar vivo no final do dia, a que podem almejar os que lá estão? Fugir enquanto podem. Para aquelas pessoas, o desespero é tanto que nem a dificuldade da fuga as demove. É preferível morrer a fugir do que morrer sem tentar.

CATÁSTROFE

As ‘excursões’ do desespero são produto da história recente. O primeiro país europeu a ser confrontado com este problema foi a Itália. Os milhares de migrantes que ali chegavam diariamente, e que continuam a chegar, deram lugar a uma autêntica catástrofe humanitária. Perante a enormidade do problema, a Itália – em conformidade com os princípios e os tratados europeus – pediu ajuda à UE. Rapidamente se marcaram reuniões. No entanto, além de um reforço militar das águas italianas perto da ilha de Lampedusa e de incitamentos para que fossem mais eficazes a controlar as suas fronteiras, nada de significativo foi feito.Para um problema social e humano, a resposta foi militar e policial. O problema agravou-se, mas não apenas em Itália. Os migrantes encontraram novas rotas e começaram a entrar pelo Leste europeu, nomeadamente pela Bulgária e pela Hungria. Estes países pediram ajuda, em vão. Numa resolução brutal, o líder húngaro decidiu construir um muro de quatro metros de altura para impedir a entrada dos migrantes no país.

Na Itália, tudo como dantes – diariamente chegam milhares de migrantes, diariamente morrem centenas, diariamente a catástrofe agrava-se. Também na Grécia a situação é terrível, tendo-se tornado habitual banhistas confrontarem-se com o desembarque de migrantes nas praias das ilhas.

Um responsável da Organização das Nações Unidas (ONU), que visitou a Grécia, manifestou-se indignado com as condições do campo de refugiados, afirmando que foi o pior que viu até hoje. Mas do que é que estava à espera? Estamos a falar de um país a braços com a maior crise económica da sua história, com bancos fechados, com uma taxa de desemprego superior a 25%, sem dinheiro. Perante este quadro, de que é que o senhor Vincent Cochetel, diretor do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), estava à espera? O apelo que fez ao povo grego, pedindo-lhe uma atenção especial aos desesperados que desembarcam na Grécia, é um disparate. A Grécia vive uma situação de catástrofe social, não podendo acudir a nenhuma situação excecional, já que excecional é a situação que vive.

Perante esta situação, qual a resposta europeia? A de marcar uma reunião para dezembro. Até lá, podem morrer mais alguns milhares.

Mas tenho a sensação de que algo vai mudar em breve . É que estes migrantes querem ir para o Reino Unido, para França, Alemanha e para os países nórdicos, exatamente para os países mais desenvolvidos e com mais apoios sociais. O campo de refugiados de Calais, em França, é hoje o cartão de visita desta cega Europa. Os países que não tinham visto até hoje os migrantes chegar ao seu território estão agora a defrontar-se com essa realidade. O que era um problema principalmente dos países do Sul, dos países periféricos e atrasados, aqueles países que apenas dão problemas à União, passou a ser problema também deles.

Depois de estarem na Europa, os migrantes rapidamente chegam aos países desenvolvidos.

É por isso, com o agravar da situação, que rapidamente os verdadeiros líderes da Europa vão ter de pensar no problema de forma a resolvê-lo, algo que, diga-se, não é nada fácil. A resolução da catástrofe migrante passa também por criar condições de vida nos locais de origem, para que as pessoas queiram lá ficar.

A União Europeia deve também preocupar-se com o tráfico de pessoas, já que a forma organizada como estes migrantes chegam à Europa, e principalmente como se movimentam, orientados, organizados e com destino aos países com maiores benefícios sociais e que melhor apoiam os emigrantes e refugiados, aponta claramente para a existência de redes de tráfico de pessoas perfeitamente organizadas e implantadas, tantos nos países de origem dos migrantes como nos países de destino. Isto, que era já percetível há muito tempo, nunca foi devidamente investigado e combatido, por pura incapacidade dos líderes europeus.

Para alguns destes líderes europeus, problema que não afete o seu país não existe. Foi esta a política que erradamente seguiram neste caso. Mas neste caso, ao contrário de outros, paga-se caro o desinteresse. Pena é que, por incapacidade das atuais lideranças europeias, milhares de pessoas perderam já a vida e muitos milhares perderão ainda no futuro. Por menos, outros líderes foram condenados no Tribunal de Haia por crimes contra a humanidade.

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