Tem 49 anos e não fosse ter agarrado dois casos mediáticos ninguém agora a reconheceria. Primeiro safou uma inspectora da PJ de homicídio e agora aparece de ‘braço dado’ com pedro dias no ‘reality show’ da sua rendição à polícia. É conhecida por ser “vistosa”. O par que forma com o atual companheiro, também advogado, mereceu alcunha mordaz – são “o casal maravilha”
A alcunha pode associar-se a uma dupla de feirantes capazes de imensos truques de malabarismo. Não, não é essa a ideia. "Casal maravilha", segundo quem prefere conservar o anonimato, reúne a seguinte explicação: ambos são advogados, fazem parte de uma lista à Ordem dos Advogados e estão em sintonia em algumas defesas. Para ser um pouco mais atrevido, digamos que a mulher dá a cara e o marido fica na retaguarda. Falamos, caros leitores, de dois membros integrantes do Conselho Geral apresentado por Elina Fraga, recandidata a bastonária. Mónica Quintela e Rui da Silva Leal, os advogados de defesa de Pedro Dias, o cavalheiro que andou durante 28 dias em fuga, depois de ter alegadamente baleado cinco pessoas, matando duas. Ao que parece, os honorários do "casal maravilha" constituem um montante maravilhoso. Cada hora ronda 500 euros, ou cem contos na moeda an-tiga, para custar menos mentalmente.
Seja como for, representa um balúrdio para criaturas que não são ricas e é uma módica quantia para os aflitos que querem safar a pele sem olhar a custos. Um advogado conimbricense de renome não aplaude a forma de actuação de Mónica Quintela, no que diz respeito à entrega de Pedro Dias às autoridades: "Eu optaria por uma maneira mais clássica. Jamais faria e diria o que a Dra. Mónica fez e disse. Temos formas diferentes de encarar a advocacia". Refere-se ao facto de Mónica Quintela ter dito em primeiro lugar ao director- -adjunto do ‘Diário de Coimbra’ (onde o marido, Rui da Silva Leal, o provável vice-presidente de Elina Fraga, é cronista) e à jornalista Sandra Felgueiras a intenção do seu velho cliente Pedro Dias se querer entregar. De ter consentido, sugerido, sabemos lá, que alguém que andava a fugir à polícia concedesse uma entrevista em directo antes dos punhos serem algemados.
Os holofotes e as luzes que cobriram, de forma inédita, um presumível assassino basearam-se numa coluna: os defensores de Pedro Dias precisavam de ter a certeza de que estava posta de lado qualquer possibilidade de haver algum tiroteio. Foi desta feição que Mónica Quintela justificou ter informado a imprensa, com direito a cameraman, antes de comunicar via telefone ao director nacional da Polícia Judiciária, Almeida Rodrigues, que passava as merecidas férias na Indonésia, e que, estremunhado, recebeu a novidade.
Há uma alma viva, aliás, cinco almas, e todas vivas, que emitem diferente visão do assunto: "Sabe, tudo aquilo, aquele espectáculo circense não está relacionado com a segurança de Pedro Dias. É uma manobra de publicidade para que o seu escritório seja famoso". As palavras engrossam às almas: "Mas alguém normal acha que a GNR e a Polícia Judiciária desatariam aos tiros? Este ‘casal maravilha’ julga o quê das autoridades?"
Vida vistosa
Mónica Quintela não é teimosa, talvez persistente seja o adjectivo adequado. Não contemos com a Dra. para que desista com facilidade. Se decide ir por um determinado caminho é complicado mudar-lhe a rota. Não gosta de sentir que alguém lhe está a dar música, muito embora adore música, em especial a boa que vem dos anos 80 e 90. E como o que é nacional é bom, Rui Veloso é um dos seus cantores predilectos. Na literatura, domina os clássicos portugueses, apesar de o seu tempo estar direccionado para os processos dos clientes.
Amigos são contados pelos dedos e todos sinceros, pois coseram a boca para a ‘Domingo’: "Se fosse para falar do marido, tudo bem, os tribunais têm muito respeito por este advogado ligado às liberdades e garantias do cidadão". Uma valente amnésia abalou os seus ex-colegas de liceu e de faculdade. O email enviado ao director da Escola Secundária José Falcão, em Coimbra, recebeu nula resposta. Até o antigo professor de Ciências Sociais e de Geografia, Jorge Carvalho, sofreu de um apagão repentino. Parece um coro em verdadeira e sentida afinidade: Mónica Quintela? Nem ideia de quem se trata. Salvam-se dois, aliás três, que estão ligeiramente melhores de memória, e recordam, sim, uma Mónica Cláudia que não sendo das melhores alunas, também não era das piores, e cujo destaque assentava nos seus cabelos longos e na particularidade que Deus lhe deu, e que a própria caprichava: a de ser "vistosa".
Na Universidade de Coimbra – Faculdade de Direito, esta característica de não passar despercebida mantinha-se. Diz-se que Mónica Cláudia de Castro Quintela completou o curso com uma perna às costas. Findou-o em 1991 e inscreveu-se como advogada a 8 de Fevereiro de 1994. Seria eleita vogal do Conselho Geral da Ordem dos Advogados para o triénio 2014/2016. Terá chegado ao cargo através da mão de Elina Fraga, que por sua vez aterra na Ordem dos Advogados pelo carpo de Marinho Pinto.
Aos olhos do ex-bastonário, Mónica Quintela é um oceano cheio de qualidades: "É uma pessoa com grande verticalidade, coragem. É uma lutadora." Os elogios continuam: "É alguém que faz parte do núcleo de advogados que são o orgulho da profissão. Não é conformista e não tem medo". Marinho Pinto, que é seu vizinho de rua, em Coimbra, ainda afirma: "A Dra. Mónica Quintela defende tenazmente os interesses dos seus constituintes."
A discórdia consegue dar colorido à vida. Existem alguns profissionais do Direito que pensam desigual: "A Dra. Mónica Quintela, por exemplo, patrocina a Ordem dos Advogados num caso vergonhoso". A vergonha vem do caso de Ana Vieira da Silva, a advogada que coordenava o departamento de processos disciplinares da Ordem dos Advogados e que descobriu uma série de processos por resolver e tramitar já guardados em arquivo. Entre esses processos, vivia um contra Elina Fraga, acusada por uma cliente de receber dinheiro para interpor uma providencia cautelar que nunca entregara em tribunal. Valeu-lhe, a Elina Fraga, uma sanção de censura, anulada, depois, pelo Tribunal Administrativo de Mirandela.
Mónica Quintela, nascida no dia 14 de Julho de 1967, descende de João Maria de Jesus Quintela e de Elisabete Fernanda Pereira de Castro, reformados, tem uma irmã mais nova, Helena João, que também é advogada. Três dias antes da mudança do século, a 28 de Dezembro de 2000, enviuvou de João Madeira Cardoso, um ilustre advogado da zona de Albergaria-a- -Velha, Aveiro. Desse matrimónio chegou ao mundo Maria João.
O lugar de nascimento da advogada que defendeu os casos mais improváveis é Vieira do Minho. Lá está; temperamento minhoto. Nada fica por dizer. Estagiou com o tio materno, e quando o senhor trocou a advocacia para ser conservador, a sobrinha teve como patrono um vizinho que tinha escritório de advogados no mesmo prédio, Amaro Jorge, especialista em Direito de Trabalho e, à data da entrega deste texto, presidia o Conselho Regional de Coimbra da Ordem dos Advogados.
Fonte próxima da perfilada nestes x-files assegura que a formanda já mostrava ser "aplicada e interessada" e "estudava o problema do cliente com atenção".
Pedro Dias já havia consultado os serviços do escritório de Mónica Quintela. A razão, pelo que apurámos, residia na regularização do poder paternal da filha do agora suspeito das mortes de Aguiar da Beira. Tecnicamente é muito capaz, dizem-nos. E mais nos dizem: Mónica Quintela é uma perita em encontrar nulidades de inquérito.
Um antigo inspector da PJ na reforma sublinha: "Não esquecer" que Mónica Quintela é a defensora de Ana Saltão, a inspectora da Polícia Judiciária acusada em 2012 de matar uma octagenária, avó do seu marido, com catorze tiros, cuja sentença de 17 anos de prisão se viu anulada pelo Supremo Tribunal de Justiça, que mandou regressar o processo à primeira instância para repetição do julgamento. "Não esquecer" que tudo é possível se não houver provas inteiras.
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