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“Na segunda casa não se deve matar a trabalhar”

É uma “aldeia mesmo aldeia”, à moda antiga. O frio corta-se com a lareira e o Sol do Verão aproveita-se no Atlântico. Zita Seabra escreveu em Óbidos o seu livro sobre a vida política no PCP. É aqui, no silêncio, que gosta de estar e trabalhar.

16 de novembro de 2008 às 00:00

O objecto querido da família está arrumado na garagem. Um Citroën 2 CV, clássico, num azul jeans, que fora o volante dos três filhos de Zita Seabra, deputada do PSD e editora da Alêtheia. Às duas raparigas, todos as conheciam pelo carro. E foi a mais nova quem protagonizou a última grande saída. Vestida de noiva, chegou no clássico à Igreja de Santa Maria, em Óbidos. Mas o 2 CV voltou, para a garagem, vazio. Rebocado. A casa, que desde antes do séc. XIX era de camponeses, numa aldeia perto de Óbidos, é o refúgio da família.

'Escrevi o meu livro [‘Foi Assim’] em Óbidos', conta Zita Seabra, que vendeu cerca de 40 mil exemplares. 'Eu escrevi a minha vida política até sair do PCP, em 89. A partir daí, tive uma vida normal, portanto, dava um folheto. Não outro livro' – antecipa. Mas ainda ocupa o mesmo lugar na sala. Sentada no maple de pele castanha, à lareira, agora lê os livros que lhe entregam para publicar. 'Vivi sempre dividida entre livros e política. Gosto de trabalhar com os livros. A política é uma tentação, portanto, quando me tentam, eu não resisto.'

Recentemente, Telmo Faria, autarca de Óbidos, desafiou Zita para abrir uma livraria na Igreja de Santiago, que está desafecta ao culto. Assim sendo, na primeira semana de Maio, deverá nascer a Livraria Santiago e realizar-se o Festival Literário de Óbidos.

Desde há 20 anos que a deputada do PSD se ligou ao concelho. O seu avô era produtor de espumante na Bairrada, em Sangalhos – Zita tem sempre 'champanhe' para receber as visitas, – mas ter casa naquela região já se tornava longe de mais de Lisboa. Escolheu Óbidos. Comprou casa numa 'aldeia que é mesmo aldeia'. Está a 20 km da praia. E no Verão aproveita o Atlântico 'no seu melhor'. Telefona a uns amigos com casa perto do mar e, se não houver nevoeiro, faz-se à estrada acompanhada pelo marido. Podem ir também as duas filhas e os genros, o filho e a neta.

'Uma casa de férias nunca deve ser grande', diz Zita, apesar ser anfitriã de uma família grande e de vários amigos. Na Páscoa, recebe cerca de 25 pessoas no refúgio. 'Aprendi com um sócio rico – é bom aprender isto com os ricos: fiz um acordo com um hotel na região e a família e os amigos dormem lá. Temo-nos dado lindamente com esse sistema.' Assim pode dedicar mais atenção às visitas. Mesmo as limpezas estão entregues a uma jovem empresa local. 'É importante que, numa segunda casa, uma pessoa não se mate a trabalhar.'

A decoração joga muito com recordações, embora tenha peças tradicionais portuguesas, como o 'padre', de Rafael Bordalo Pinheiro. As viagens são a primeira das memórias que Zita leva para casa, como Gorbachev em versão matrioska (ver caixa), que trouxe da Rússia. Como segundas memórias, a deputada guarda oferendas de presidentes de Câmara, como os galhardetes e medalhas dos seus concelhos.

Mas é no pomar, entre maçãs, ameixas, pêras, pêssegos, marmelos e ginjas, que Zita ocupa parte do seu tempo. 'O meu hobby é tomar conta das árvores de fruto.' Ou dos arbustos que verdejam o jardim, à frente da casa.

A MATRIOSKA GORBACHEV

Imediatamente a seguir à desunificação da URSS, ainda em 1991, Zita Seabra visitou a Rússia. A deputada comprou nessa viagem um boneco representativo de Mikhail Gorbachev, em versão matrioska (as típicas bonecas russas). Gorbachev tinha sido pintado, na mão direita, com a bandeira da Rússia e a bandeira norte-americana, empunhada na esquerda. Era o início da Perestroika (que, em russo, significa reconstrução), palavra esta também inscrita nas costas deste Gorbachev. O político foi o último secretário-geral do comité central do Partido Comunista da União Soviética e o impulsionador da reconstrução. Zita Seabra, hoje deputada do PSD, foi expulsa, em 1988, da Comissão Política do Partido Comunista Português e saiu do partido em 1989. Nesse ano, fez a cobertura, para o ‘Expresso’, das primeiras eleições livres na URSS – por consequência, diz, abandonou os ideais do PCP.

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