Ficar a saber a diferença entre o comportamento masculino e o feminino numa situação extrema, como por exemplo viver em Marte, é um dos objectivos de uma tripulação internacional, liderada pelo jovem Ricardo Patrício. No deserto do Utah, nos EUA, o grupo de seis ‘candidatos a astronautas’ irá simular uma estadia numa base do Planeta Vermelho.
Como reagem um homem e uma mulher quando confrontados com a situação extrema de viver em Marte?Para responder a esta pergunta, uma tripulação internacional, chefiada pelo jovem conimbricense Ricardo Patrício, 28 anos, vai simular uma estadia numa base do Planeta Vermelho, entre 15 de Abril e 1 de Maio. O objectivo deste projecto na estação da Mars Society, situada no deserto do Utah, é mais uma etapa na preparação de uma expedição humana a Marte que, nas próximas décadas, se poderá concretizar com uma equipa mista.
Foi o estágio na Agência Espacial Europeia, onde trabalhou durante dois anos, que lhe aguçou a ideia do espaço?
Em criança, já dizia que queria ser astronauta. Não era um ávido consumidor de livros ou filmes de ficção científica mas gostava de ver documentários sobre astronomia e astrofísica. Quando estive no Von Karman Institute, na Bélgica, já sonhava com uma oportunidade na Agência Espacial Europeia (ESA). Depois de concluir o curso de Engenharia Mecânica da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, fui trabalhar para uma empresa de componentes automóveis. Mas o espaço não me saía da cabeça. Resolvi arriscar e consegui um estágio na ESA.
Como é que surgiu essa oportunidade?
Foi através das bolsas de estágio da Agência de Inovação. Portugal tinha entrado como membro da ESA em 2000 e havia algum interesse em ter portugueses a trabalhar lá. Cheguei à Holanda em Abril de 2001.
A experiência superou todas as suas expectativas?
Fiquei impressionado com as condições nos laboratórios de testes de satélites. Ao final do dia, quando dava por terminado o meu trabalho, passava por lá só para ver os especialistas a efectuarem testes estruturais e térmicos – ou seja, descobrir como o satélite se comporta quando está em vácuo ou sujeito a determinada radiação que vem do Sol.
E em que projectos é que esteve envolvido?
Um dos trabalhos que me deu mais gozo foi fazer análises térmicas para a missão Baby Colombo. O objectivo era conseguir ter dois satélites a orbitar o planeta Mercúrio e, naquela altura, também se falava na possibilidade de aterrar lá um ‘lander’ – mas julgo que essa ideia já foi cancelada. Como é um planeta com temperaturas muito elevadas, por se situar próximo do Sol, termicamente é um desafio. Durante o estágio, tive até a oportunidade de fazer ‘debugs’ aos softwares que estavam a ser utilizados na altura. Adorei.
O que torna o espaço tão fascinante?
É uma ponte que nos leva para uma questão fundamental: o universo será finito ou infinito? Se é infinito, o que há para lá dele…porque tem de existir mais alguma coisa. E se é finito, há uma parede? São perguntas às quais não é fácil responder. Ao mesmo tempo, acabam por ser interessantes porque são um desafio à nossa compreensão. É por isso que eu prefiro refugiar-me na engenharia – o conceito de espaço é mais tangível.
Quando divaga, onde é que pára?
Dou por mim a recordar alguns episódios do ‘Star Trek’. Gosto de ficção mas à medida que cimentamos os nossos conhecimentos, apercebemo-nos que os filmes sobre o espaço não se assemelham à realidade. São só para vender. Às vezes, lá me escapa uma gargalhada…
As explosões no espaço, por exemplo, são sempre muito efusivas e celebradas com som. Na realidade, isso não seria assim, porque estamos em vácuo. É por isso que eu acho mais piada aos documentários, são mais fiéis à verdade.
As viagens a Marte deixaram de fazer parte das histórias de ficção científica e estão cada vez mais próximas de se tornarem reais. Há, aliás, já bastantes multimilionários que pensam numas férias naquele planeta num futuro muito próximo…
Não sou especialista nessa matéria, mas não prevejo uma viagem a Marte tão cedo. É uma realidade ainda distante, nomeadamente por questões de investimento financeiro. Os Estados Unidos já avisaram que pretendem voltar à Lua até 2020, e só depois é que vão pensar numa ida a Marte.
O que é que já sabe sobre a missão a Marte?
Tecnologicamente, vai ser um desafio enorme. Por ser um planeta tão longínquo, vão ser precisos 18 meses de viagem só num sentido. Os cálculos apontam para 10 toneladas em plantas, de modo a que se possa criar um círculo fechado – fora o peso dos restantes mantimentos e da água. Além disso, ainda não há uma maneira simples de dar a volta à questão da radiação a que os astronautas vão ser sujeitos.
Vai ser mais difícil chegar a Marte do que foi pisar a superfície lunar, a 20 de Julho de 1969?
Naquela altura, não dispúnhamos de tanta tecnologia, mas bastaram quatro dias para se chegar até lá. Para ir a Marte vão ser precisos anos. E fechar um grupo de cinco ou seis pessoas numa cápsula minúscula durante tanto tempo, vai dar problemas…
A experiência a que se vai submeter pretende preparar esse dia. O momento em que o homem conseguir enfrentar as condições extremas do Planeta Vermelho…
O objectivo é perceber como é que seis pessoas reagem num local pequeno durante quinze dias. No final da sessão de Verão da International Space University, na Austrália, em Agosto de 2004, falou-se muito da dinâmica de grupos. E na sequência destas questões, surgiu a ideia de comparar comportamentos entre sexos perante os factores da vida em Marte. Primeiro vai-se obter informações quanto à tripulação totalmente masculina, para depois fazer a mesma avaliação com o grupo feminino.
Não há muita informação relativa a tripulações exclusivamente femininas em missões de longa duração. Porquê?
É um dado quase adquirido que a tripulação de uma missão a Marte será internacional e mista. Fala-se em cinco ou seis astronautas, mas não são verdades absolutas. Com este estudo, talvez se aprofunde a diferença entre o comportamento masculino e feminino nu-ma situação de “stress”, como a de viver em Marte.
Agora, em contagem decrescente para esta experiência científica, vai ter de se habituar a estar fechado, porque adora ar livre, e de ver as estrelas…
Acho que não vou ter dificuldades porque são só quinze dias. Terei de aproveitar bem o tempo das saídas, durante o qual o grupo vai ter de experimentar dois tipos de fatos – o que tem sido utilizado até agora, pressurizado, e um modelo mais recente, que funciona com contrapressão mecânica. É mais parecido com um fato seco de mergulhador e tem a vantagem de ser mais leve e confortável. É a primeira vez que se vão fazer testes comparativos.
Vai ser um sonho vestir o fato de astronauta?
Claro!
E depois desta missão, está mais perto de ver o seu desejo realizado?
Não. Neste momento, Portugal não pode ter astronautas porque não participa nos programas da Agência Espacial Europeia. Nos próximos anos, será muito difícil algum português conseguir chegar a astronauta. Com muita pena minha…
Para além do estudo sociológico relativo ao comportamento de cada uma das tripulações, este projecto, sempre como base de uma missão real a Marte, contempla outras actividades e estudos…
Uma das principais actividades do grupo vai ser avaliar procedimentos de segurança na saída dos astronautas da estação. Só nesse estudo vamos gastar várias horas por dia. Ainda relacionado com estas saídas, vamos ter um protótipo, um Rover de exploração, com uma câmara minúscula incluída. Como é um aparelho muito ágil, rapidamente dá informações geográficas ao astronauta – mais limitado em termos de mobilidade. Além disso, ainda vamos fazer testes de hardware térmico, testes geológicos…
Em 2002, a revista ‘National Geographic’, acompanhou o dia-a-dia de uma equipa de 6 pessoas na Mars Desert Research Station e chegou à conclusão que só na confecção de comida macrobiótica perdiam 16 horas…
Em Marte, teoricamente os astronautas não vão ter à sua disposição a comida liofilizada, ao qual só é preciso juntar água. Como é uma missão de longa duração, o objectivo é que haja ciclos fechados e se produzam plantas, verduras e fruta. Numa parceria com a Agência Espacial Europeia, vamos fornecer-lhes alguns dados sobre questões relacionadas com a alimentação.
A escolha do deserto do Utah para a realização da investigação não é inocente…
Do ponto de vista geológico há algumas semelhanças com o que se espera encontrar em Marte. O deserto do Utah até tem aquele aspecto avermelhado. A estrutura geológica do local também é idêntica e, em algumas alturas do ano, assemelha-se a Marte em termos climatéricos. É evidente que a variação de dia para a noite não é a mesma, já que em Marte as noites são mais frias. Só não é possível simular a gravidade nem a atmosfera marciana.
Está com dificuldades em fazer a mala para o deserto?
Na realidade, até estou com alguns problemas porque estava convencido que era muito fácil transportar o material necessário para os 15 dias de investigação. Vamos ter de levar o ‘Rover’, uma caixa com amostras geológicas que pesa mais de 40 quilos, e três fatos de astronauta, que vêm da Austrália, com capacetes incluídos. E claro, o computador. É muita coisa…
Não leva objectos pessoais?
Talvez uma ou outra fotografia, para decorar o espaço. Encomendei alguns livros de ficção do Michael Crichton mas não chegaram a tempo.
Vai liderar uma equipa de 5 pessoas de várias nacionalidades – austríaco, australiano, francês, holandês e norte-americano. Entende-se facilmente com as outras culturas?
Agora, sou mais tolerante em relação aos outros. Mas quando estava na Agência Espacial Europeia, o meu colega de gabinete era holandês e, apesar de ser uma pessoa impecável, tinha um hábito que me chocava: usava a mesma roupa semanas a fio. Mas o que me mete mais impressão é a falta de flexibilidade de algumas culturas. Talvez a culpa seja minha, mas como típico português, sou da opinião que há regras que podem ser contornadas.
O facto de ter sido escolhido para líder é quase como um prémio por ter tido alguma iniciativa na montagem da proposta e na formação da equipa?
Acho que foi isso que pesou mais. Não teve nada a ver com o reconhecimento das minhas capacidades como líder. A verdade é que tenho alguma dificuldade em assumir o papel de chefe. Para as coisas funcionarem, tenho a certeza que não vou precisar de dar um murro na mesa. Conheço a equipa e damo-nos todos bem.
Não preferia ir numa missão desta natureza integrado numa equipa mista?
Não ponho de parte essa hipótese…
Como é que um português consegue, com as limitações à investigação em Portugal, ingressar num projecto tão ambicioso?
Às vezes revolto-me com o facto de ter nascido em Portugal, mas também sei que consegui um lugar na Agência Espacial Europeia porque o País tinha aderido recentemente. Foi quase uma cunha. Agora, é um facto que as actividades aeroespaciais em Portugal são muito reduzidas. Também não há muitas empresas a desenvolver este tipo de actividades. Fica-se espantado quando se olha para o grau de desenvolvimento de Espanha, o quarto país na Agência Espacial Europeia.
O projecto foi concebido por si, tendo sido apadrinhada pela empresa americana Mars Society, especializada na investigação para a colonização do Planeta Vermelho. Sem os patrocínios, quanto é que custaria esta expedição?
O valor ascenderia aos 200 mil euros.
Quais são as suas expectativas perante este projecto?
Para alguns dos nossos patrocinadores, como a LusoSpace, a Tekever ou a Critical Software, é positiva a participação neste projecto. Algumas até se envolveram com projectos específicos, e isso pode dar-lhes projecção, não só ao nível da visibilidade, mas também lhes permite testar uma série de aplicações que, dentro de alguns anos, podem vir a ser utilizadas em ambiente marciano.
Admitiu, por várias vezes, que se deve “aprender lá fora mas voltar para desenvolver cá dentro”. Já mudou de ideias?
Sinto-me cada vez mais tentado a deixar o País e ir trabalhar lá para fora. No entanto, como já comecei a desenvolver um projecto em Portugal, a Space Tecnologies, gostava de apostar nisso e vingar. A ideia de prestarmos um serviço nas áreas das engenharias térmicas e estrutural começou na incubadora da Agência Espacial Europeia. E como eles nos forneciam oportunidades de incubação, criámos a empresa. O nosso objectivo era levá-la para Portugal mas sabíamos que não fazia falta. Temos alguns clientes em Portugal, mas o nosso público-alvo é o mercado internacional.
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