A freguesia onde o violador atacou tem pergaminhos mas está envelhecida. Viagem ao centro do bairro do futebol, à igreja e à barbearia.
As tardes correm velhas no café Nilo. Mulheres vestidas para o domingo ocupam as mesas vagas do almoço com chás e meias-de-leite. A algumas, o batom vermelho desembacia-lhes a cara das rugas. Quando não chegam com companhia ou não a encontram, ficam sentadas de olhos postos na Estrada de Benfica, que vem serpenteando quilómetros até às portas desta que é a segunda maior freguesia de Lisboa. Passam carros, autocarros, resvés em direcções opostas, pessoas. Hermínia Noémia Nascimento está sentada a comer um queque. "Ela é boa para falar", indicam outras, as que se queixam do hoje para elogiar o antigamente e o respeitinho de então. Hermínia tem 81 anos; amputou há muito o nome. Tirou o garrido e o lobo. "Sou divorciada", sussurra: "Ora diga lá."
O café Nilo é um aquário pelo inverso. Miram os que lá estão dentro quem passa fora. Foi aí o campo do ‘Fofó’ [Clube de Futebol Benfica], antes de mudar para ao pé do mercado. Do outro lado da rua, a Igreja de Nossa Senhora do Amparo, as modas antigas do Fica-Bem e o toldo verde do Girassol de Benfica a dobrar toda a esquina, onde nasce a Rua Cláudio Nunes. Poucos metros depois, num terreno abandonado, atrás de prédios, feriram o coração do bairro. Violaram mulheres.
A Hermínia questões de abertura de noticiário não a preocupam. Não sai à noite. Veio de Tabuaço, com 17 anos, para uma cidade onde ainda andavam mulheres com bilhas de água – era Lisboa, ali em Benfica. Mas casou-se "na Igreja da Porcalhota", e o nome antigo da Amadora serve-lhe ao desgosto. "Um dia foi embora para África. Arranjou outra e deixou-me grávida." A filha casou e, como muitos dos filhos do bairro, saiu de Benfica. Hermínia vive – como tantos outros – sozinha.
Do outro lado da Estrada de Benfica, na montra da loja de modas Fica-Bem, os bonés e os collants oferecem-se por oito e meio e sete euros. Um cartaz anuncia malhas a nove euros e meio, blusões de Inverno a vinte e nove. Rosângela Alentado está àquele balcão desde os 15 anos. Tem 37. "Quando para aqui vim, esta loja era a fina-flor de Benfica. Uma entre muitas. Chegámos a ser dez empregados. Hoje somos duas. Ainda na década de 80, à noite, lembro-me de ir a pé à gelataria do Acácio comer os melhores gelados. Hoje é uma loja de câmbios."
Rosângela deixou de fazer vida de bairro depois do expediente. Benfica morre quando o Sol se põe.
Há menos de um mês, a Fica-Bem – 200 euros de renda por 195 metros quadrados carregados de mercadoria – foi assaltada. Eram 13h25. Ia encerrar para o almoço. "Eu desconfio sempre de vendas fáceis. Queria tudo, queria ver tudo, e falava constantemente ao telemóvel. Era um ‘pre...to’, diz, baixo, a inconveniência, separando a sílabas. Menos alguma roupa e todo o dinheiro da caixa: 60 euros.
Mas todos os sustos podem ser pequenos: "Tínhamos outra casa, ali mais adiante. Fechou, e agora é o Santander. Vou fartar-me de chorar se isto também fecha. Vim ainda de soquetes."
O DESTINO DO BALDIO
O padre José Traquinas nasceu em Évora de Alcobaça. Começou como pároco no Bombarral, esteve 15 anos no Seminário de Almada e agora está em Benfica, desde Outubro de 2007, na Igreja de Nossa Senhora do Amparo, um projecto de João Frederico Ludovice, o arquitecto alemão do Convento de Mafra.
Numa sala anexa a esta igreja dispõe-se a falar depois do almoço, feito na companhia de quatro paroquianos com cabelos mais brancos que os dele, num restaurante da Rua Cláudio Nunes, na esquina com acesso ao baldio dos crimes. O desassossego das recentes notícias não coube nas homilias. Numa comunidade de quase 50 mil pessoas – diz –, bastam cinco indivíduos para causar alarme social. Apoquenta-se antes com o "fenómeno da consistência das famílias"; "o número de divórcios, que se dão aqui como em todo o lado"; e "o envelhecimento da população".
Sobretudo os mais velhos, cada vez mais velhos. Há 40 anos faziam-se ali 400 baptizados. No último ano, 140. "Os filhos saíram da freguesia. Ficaram os avós. Não chega o apoio domiciliário que já fazemos. Precisamos de um centro." A ambição mora no terreno da má fama – o baldio das violações –, também disputado pela associação de reformados local.
NO LARGO ERNESTO DA SILVA
Maria do Céu de Jesus casou há 50 anos em Ansião. Tem 75 anos. Nem a idade, nem o nome tão católico lhe vedam o sorriso quando se lembra do padre "antes deste", o que "dava muitos beijinhos". Está com a vizinha, Maria Manuela, à porta do pequeno prédio com rés-do-chão, primeiro-andar e, logo a seguir, águas-furtadas, no Largo Ernesto da Silva, uma aldeia pequena dentro de Benfica. Comentam o caso das violações. Foi perto.
Desde que ali mora, Maria do Céu de Jesus já viu muita gente chegar e partir. Vê agora os novos vizinhos, que falam outro português. "O advogado, o Palma Carlos, está zangado comigo. O primeiro-andar vagou e eu mudei-me logo das águas-furtadas. A casa era melhor. De 38 euros, fiquei a pagar 370. Ele disse-me que fiz asneira. A minha reforma é de 390. Já sei que a Segurança Social é num prédio alto. Mas se vou lá e não me ajudam fico muito envergonhada."
Subiu rápida as escadas estreitas e de degraus altos. Entrou dentro de casa para mostrar a água da chuva que lhe inunda a casa-de-banho. No louceiro da cozinha estão alinhadas canecas onde, em cada uma, se lê escrito a dourado: "Meu bem, hoje pensei em ti". "Quando o meu neto, que vem dormir comigo, se levanta a meio da noite pergunto-lhe sempre: ‘Hugo, és tu?’." Não vá "o outro alguém" de que tem tanto medo ter galgado aqueles degraus do Largo Ernesto da Silva e ter entrado em sua casa. "Para fazer mal."
O vizinho de Maria do Céu, Manuel Francisco Vicente, expia saudades de Cabinda e mágoas da guerra. Na parede da sala, uma santinha promete-lhe em vão ‘Deus abençoe a sua casa’. Morava ali com a mulher, Maria Manuela, até a Protecção Civil lhes interditar o domicílio. Maria Manuela foi costureira na fábrica do Simões, ali em Benfica, que fornecia roupa para a CanCan e para a Primazi. A fábrica fechou. Ela reformou-se, bem como o marido, electricista. Têm uma reforma conjunta de 500 euros. "Somos uns ricos."
Manuel Francisco Vicente jogou hóquei no ‘Fofó’. Entre 1964 e 1966, em vez do ‘stick’ pegou na arma. O Dia de São Martinho passou a ser sinónimo triste depois do último ano vivido no Norte de Angola. "Foram 16."
Para provar que foi dos que combateram e regressaram, mostra o seu retrato fardado, pendurado numa parede em frente à santinha. Um homem não chora e, por isso, cala a dezena e meia e mais um. Não conta como se foram. De mortes, só as recentes por infortúnios, doença ou velhice. "No último jantar éramos 50. Vinte morreram entretanto. Um dos meus camaradas era sócio do Bacalhau Riberalves. Já tive de falar com a viúva."
DO ‘FOFÓ’ AO CABELEIREIRO
O livro ‘Clube Futebol Benfica – Dados Históricos’, de Domingos Estanislau, foi apresentado na televisão por Marcelo Rebelo de Sousa, no final do programa do professor. Escassos segundos, grande orgulho, para o autor e presidente desde 1988 do ‘Fofó’, "o único clube de Lisboa, porque os outros são SAD". "Uma vez disse isto numa rádio e o locutor até deu um salto!", conta Estanislau.
Viveram perto, mas este Benfica acabou por ficar longe do Sport Lisboa e Benfica – a quilómetros, perto do Centro Comercial Colombo, ‘shopping’ onde a paróquia tem igreja.
A histórica rivalidade, nomeadamente no hóquei, baptizou o clube de que mais se fala na freguesia: o ‘Fofó’. "Antigamente, os jogadores dos dois clubes até iam a pé para os jogos. Conta-se que houve um jogo em que do nosso lado gritou-se ‘Deus te guie, lampiões’ e do outro ‘olhò o Fofó’. "A palavra, depreciativa outrora, pegou. Domingos Estanislau acha bem feito – com os anos, o termo "é de carinho". No ‘Fofó’ jogaram, mas à bola, Paulo Bento – "ainda no último domingo cá veio" – e António Lobo Antunes.
O escritor escreveu sobre o clube numa crónica de 1993 intitulada ‘O elogio do subúrbio’, ou seja, de Benfica, a freguesia onde nasceu. A crónica está emoldurada na parede, na entrada das instalações que dão acesso aos balneários. "Uma vez ele entrou em campo e fez-se à bola, e houve um que gritou ‘Eh pá, cuidado, que ele é filho do doutor", conta Domingos Estanislau.
A casa originária da família Lobo Antunes desapareceu. A Vila Ana e a Vila Ventura ainda lá estão, mas ao abandono, na Estrada de Benfica. No blogue ‘Retalhos de Bem-Fica’, a antropóloga Alexandra Carvalho, 33 anos, conta as histórias da freguesia. É proprietária recente e entusiasmada pelo bairro onde escolheu viver. É também ela quem lidera um movimento de cidadãos em defesa das ‘vilas’.
Na véspera de a Judiciária apanhar o suspeito da Margem Sul, dentro do Cabeleireiro Costas, onde até Francisco Louçã já cortou cabelo, menospreza-se notícias de violadores, como coisas corriqueiras. "Oh, meia-volta e aparece uma história destas." Mário Costa, que aprendeu o ofício do cabelo com um alfaiate da sua terra, Mirandela, diz que o mal dali é o do País. Envelhecimento e crise. Benfica é "um bando de reformados a ler cabeçalhos de jornais".
O ESCRITOR SOBRE OS SUBÚRBIOS ONDE NASCEU
"Cresci nos subúrbios de Lisboa, em Benfica, então quintinhas, travessas, casas baixas, a ouvir as mães chamarem ao crepúsculo – Vííííííítor, num grito que, partindo da Rua Ernesto da Silva, alcançava as cegonhas no cume das árvores mais altas e afogava os pavões no lago sob os álamos", escreveu António Lobo Antunes numa crónica de 1993. O avô do escritor, que emigrou para o Brasil, construiu no regresso uma casa de arquitectura brasileira (foto ao lado). A casa já lá não está. Estão prédios altos. "Hoje, se vou a Benfica não encontro Benfica."
UM TOSTÃO NA CARTEIRA PARA ENGANAR LADRÕES
Maria Manuela riu-se do aviso do marido, Manuel Francisco Vicente: "Não vás à Cláudio Nunes!" "Como se alguém fosse fazer mal à velha!" À antiga costureira da Fábrica Simões fez-lhe mais impressão a tentativa de assalto a uma mulher. "Tiraram-lhe a mala, correram, viram que ela tinha tanto como eu e deitaram a mala fora. Isso pode acontecer-me."
Francisco avisou a mulher, para a rua só com pouco dinheiro. "Um tostão dentro do bolso e chega. E nada de cartões. Antigamente isto era como na aldeia. Agora não se vê ninguém na rua a partir de uma certa hora." Manuel diz que com os crimes o patrulhamento policial aumentou.
NOTAS
SALOIA
Benfica começou por ser uma aldeia de camponeses da região saloia, "fora de portas" de Lisboa.
SÉCULO XIX
Foi integrada primeiro no ‘concelho’ de Belém (1852). Em 1885, uma parte passa para a Amadora.
DIVISÃO
No último ano da década de 50, a freguesia de Benfica divide-se e surge São Domingos de Benfica.
CRESCER
Com a rápida urbanização de Benfica entre 1950 e 1990, a população passa de 17 843 para 50 mil.
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