A poucos dias da estreia de ‘Monólogos da Vagina’, pusemos Ana Brito e Cunha a entrevistar Guida Maria e São José Correia sobre os problemas que mais preocupam as mulheres. O pretexto para desmistificar ideias feitas. Bom! pelo menos tentámos...
Ana Brito e Cunha - O que é que vocês acham que os homens falam de nós nas conversas de casa de banho?
São José Correia – Não sei, mas eu acho que as conversas que eles têm devem ser muito parecidas com as nossas.
ABC - Mas será que eles são mais agressivos a falar de nós?
SJC – Bom, as mulheres também sabem ser muito agressivas, pelo menos as minhas amigas (risos). Não posso falar por todas as mulheres mas eu, pelo menos, digo o que tenho a dizer dos homens sem qualquer problema
ABC – E nós? Será que as mulheres sentem necessidade de falar mal dos homens nas tais conversas de casa de banho?
SJC – Não. Isso é um mito. Os homens é que adoram pensar que quando vamos juntas à casa de banho é para falar deles. A verdade é que nós só vamos juntas para termos companhia. E depois há assuntos bem mais interessantes do que os homens (risos). Nós também falamos de outras coisas como música, roupas, sapatos (risos). Às vezes os homens são o que menos interessa.
Guida Maria – Eu acho que nunca falei sobre um homem numa casa de banho (risos). Eu venho de uma altura diferente da vossa. Lembro-me de que, quando ia às boîtes com as minhas amigas e eventualmente íamos à casa de banho juntas, o máximo que falávamos era se o gajo apertava a dançar ou se não apertava.
ABC – Isso do apertar a dançar é engraçado. Perdeu-se, não foi?
GM – Foi! Era a chamada marmelada. Hoje dança cada um para seu lado (risos).
ABC – Por acaso, eu sinto muito falta dessa coisa de dançar agarrada e de ser convidada para dançar.
GM – Pois é, mas hoje a música que se houve é só ‘tum, tum, tum’. Não dá para dançar agarrado a ninguém (risos).
ABC - Quem é que vocês acham que fala com mais detalhes sobre as suas experiências sexuais, os homens ou as mulheres?
SJC – Eu acho que são capazes de ser os homens porque são mais desligados do lado emocional. É muito mais fácil um homem dizer que fulana tal tinha as mamas descaídas do que para nós, mulheres, dizermos que o gajo tinha a pila para o lado esquerdo (risos).
ABC – Eu por acaso acho que os homens, quando gostam de uma mulher, não falam muito. Essa é uma grande diferença entre nós. Os homens não partilham determinadas experiências. Não acham que nós somos muito mais abertas umas com as outras?
GM – Eu acho. Os homens não contam nem aos médicos.
SJC – Bem isso é verdade! Eu tenho amigos com 37 e 38 anos que nunca foram a um urologista. Isso para mim é uma coisa muito estranha. Nós, mulheres, começamos a ir ao ginecologista ainda miúdas.
GM – A experiência diz-me que os homens são muito mais reservados em falar de sexo de forma mais séria. Eles ficam mais naquela coisa do 'ontem dei uma ganda queca' ou 'a gaja era podre de boa'. Já nós não temos problema nenhum em dizermos a uma amiga que estamos com o período.
ABC - É impensável ver um homem admitir a um amigo que não conseguiu ter relações, não é?
GM – Claro, eles não são capazes de reconhecer nem para nós que estamos ali ao lado (risos). Inventam logo uma desculpa – que foi a comida que lhes caiu mal no estômago, que estão preocupados com o trabalho ou então que a culpa é nossa. Eu tenho amigas médicas que me contam que têm que ser as mulheres as ligar para lhe dizer que os maridos estão com problemas de erecção.
ABC - É verdade que as mulheres mentem muito sexualmente e que, por vezes, sentem a necessidade de dizer que ‘já está!’ quando não está nada?
GM – Eu acho que depende muito de com quem se está. Há homens que, sinceramente, não dão mais do que aquilo (risos). Mas também há casos em que, em vez de fingimento, há desistência. 'Olha, não te importas que continuemos isto noutro dia!' (risos).
SJC – Eu também, pessoalmente, sou mais pela desistência do que pelo fingimento.
ABC – Já viveram muitas situações constrangedoras nesse campo?
SJC – Muitas não, mas algumas (risos).
GM – Também é preciso dizer que muitas vezes os homens também fingem que estão ali connosco. Tanto ladrão é aquele que vai às uvas como o que fica cá em baixo a apanhar.
ABC – (risos) Ai! Tenho que aprender essa expressão!
GM – Pois, se calhar em oitenta por cento das vezes ou gajo só está connosco para chatear a ex-namorada ou para se aliviar...
SJC – Sim, mas as mulheres também se aliviam. Esse também é outro mito. As mulheres não fazem só sexo quando estão apaixonadas. Nós também temos a queca do alívio (risos). É bom aliviarmo-nos dessas coisas senão ganhamos energias negativas (risos).
ABC – O que é que vocês aprenderam com esta peça, ‘Monólogos da Vagina’?
SJC – Muito. Há uma série de questões que envolvem as mulheres e a sexualidade feminina que me passavam ao lado, como o facto de existirem muitas mulheres que não sabem onde fica o clitóris ou que há cem milhões de mulheres mutiladas genitalmente em todo o Mundo. Antes, quando me falavam em mutilação genital eu pensava sempre numa tribo qualquer no meio de África, mas isto também se passa na Europa ou nos EUA. Há também uma história incrível de uma senhora que estava no carro com o namorado e que se excitou de tal forma que manchou o banco. Ele expulsou-a do carro, ofendido, e esta senhora ficou traumatizada para o resto da vida e nunca mais teve uma relação.
ABC – O facto da Guida já ter apresentado esta peça, e de agora estar a repeti-la connosco, trouxe-lhe alguma coisa nova?
GM – Não propriamente, mas também porque da primeira vez que a apresentei tinha feito um trabalho de pesquisa muito exaustivo. Falei com ginecologistas, psicólogos, psiquiatras, entrevistei muitas mulheres, ouvi muitas experiências, algumas delas traumáticas.
ABC – Ou seja, esta não é uma peça que fala sobre vaginas só por falar. E essa é a parte interessante disto tudo, não é?
GM – Claro. Esta peça tem uma base científica muito grande. Tem muito a ver com mentalidades, educações e religiões. Uma mulher muçulmana não pensa da mesma maneira que uma europeia ou uma norte-americana, por exemplo.
ABC – Acho que esta peça contribui muito para a consciencialização do corpo da mulher e é capaz de ser muito mais pedagógica do que muitas experiências sexuais (risos).
SJC – Eu, por exemplo, só com esta peça é que aprendi a desvalorizar a palavra ‘vagina’, que parece que todas nós temos medo de a dizer. Hoje digo ‘vagina’ como digo ‘crica’ ou ‘rata’ ou ‘lolita’ ou o que seja. Encaro-a como qualquer outra palavra, como cerveja ou cigarro.
ABC – Olha! Eu, inacreditavelmente, já ouvi dizer que a peça só tem este nome para vender bilhetes e para falar de coisas porcas. E isto só prova que ainda há muitos tabus e muitos preconceitos em relação ao sexo.
GM - Sim, mas, de uma maneira geral, as pessoas reagem bem. Riem quando têm que rir e ouvem quando têm que ouvir.
'ESTE É UM ESPECTÁCULO MUITO PERIGOSO'
ABC – Apesar desta peça falar de assuntos sérios há muita gente a rir!
GM – A música e o humor são as duas melhores formas de passar mensagens. Eu acho que as pessoas riem por nervosismo, porque esta peça fala de coisas das quais não se fala abertamente. Há alturas em que descemos ao público e lhe perguntamos: 'Então, tem algum problema com a sua vagina?' E isso por vezes causa nervosismo.
ABC – Já teve alguma reacção indelicada do público quando apresentou esta peça pela primeira vez?
GM – Este é um espectáculo muito perigoso. No Villaret tive uma senhora na terceira fila que, às tantas, começou a gritar ‘Viva o Sporting!' (risos). Lá está, não devia saber onde era o clitóris. Tive mesmo de expulsá-la da sala'.
'OS HOMENS PODEM APRENDER MUITA COISA'
ABC – Este é um espectáculo mais para eles ou mais para elas?
GM – Tenho a certeza de que este é um espectáculo para toda a gente. É verdade que as mulheres se podem identificar mais porque estamos a falar do corpo feminino, mas também acho que os homens podem aprender muita coisa.
SJC – Esta não é uma peça interdita a ninguém. Obviamente que crianças com menos de 13 anos muito provavelmente não vão perceber metade, mas todos têm a aprender.
"ESTA PEÇA É SOBRE NÓS"
Identificaram-se com algumas das situações da peça?
ABC – Sim, mas esta peça não é sobre nós ou sobre as nossas experiências. O Armando Cortez costumava dizer-me uma coisa engraçada: "Ninguém vai ao teatro para te ver, Ana! O público quer ver a tua personagem".
A PEÇA
Os ‘Monólogos da Vagina’ é uma peça de sucesso mundial, com apresentações em mais de 119 países e baseada em entrevistas realizadas nos anos 90 por Eve Ensler a mais de 200 mulheres. Para ver no Casino Lisboa a partir do dia 26 de Maio.
PERFIS
Nascida a 23 de Janeiro de 1950, Guida Maria estreou-se em 1957 na peça ‘Fogo de Vista’. Fez a sua formação no Conservatório Nacional de Teatro. Tem um largo percurso em cinema e televisão.
Ana Brito e Cunha foi a 'entrevistadeira' (como a própria se definiu) de serviço, mas não resistiu a dar, também ela, algumas respostas. A conversa decorreu em clima de café nas instalações da produtora UAU. Actualmente com 34 anos, Ana Brito e Cunha estreou-se na TV em 1994, na série ‘Trapos e Companhia’, e popularizou-se em ‘Jardim da Celeste’ em 1997.
São José Correia nasceu a 13 de Setembro de 1974 e é uma das caras mais conhecidas das nossa televisão. Começou nos ‘Trapalhões’, em 1995, e fez várias telenovelas.
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