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NUNO MORAIS SARMENTO: 'NÃO SOU UM SUPER-HOMEM'

Levou muita pancada nos ringues, mas diz que o boxe é mais leal do que a política. Ainda assim, o homem que provocou um “terramoto” na RTP sabia o que o esperava <BR>quando aceitou a pasta.Para quem ultrapassou<BR>um problema de toxicodependência e teve a coragem <BR>de o assumir publicamente, talvez este combate <BR>não seja assim tão decisivo.

17 de junho de 2002 às 20:06

A conversa estava marcada há várias semanas e decorreu poucos dias antes do Tribunal Constitucional se pronunciar sobre as alterações à lei da Televisão. É anterior também à “alegada” hipótese colocada pelo ministro da Presidência e responsável pela tutela da RTP, de pôr o seu lugar à disposição.

Na altura, tendo em conta o desconhecimento da “sentença” do Tribunal e a polémica que tem rodeado o processo, Nuno Morais Sarmento não quis falar sobre a televisão pública – embora tenha acabado por tecer algumas considerações.

Ainda assim, considerámos pertinente a entrevista que visa, acima de tudo, saber quem é, afinal, o governante que mais tem enfrentado a opinião pública nos últimos tempos.

P - Como foi a sua infância? Que memórias guarda desse tempo?

R - Foi uma infância normal, numa família grande, com sete irmãos – seis rapazes e uma rapariga – vivida entre Lisboa e Santarém. Quase se pode dizer que nos fomos educando uns aos outros. Eu sou o terceiro filho. Depois, além de nós, havia um cão, o Sete. Quando ele veio lá para casa éramos só seis...e depois já não dava para mudar.

Éramos uma família um bocadinho italiana, muito grande, muito viva e com muito convívio entre todos. Ainda hoje é assim.

P - Os rapazes foram educados de forma tradicional ou desempenhavam tarefas ditas femininas? Faziam a cama, por exemplo?

R - Não, não fazíamos. Com sete filhos, tínhamos que ter duas empregadas que, aliás, casaram lá em casa e ficaram amigas da família.

P - O que é que faziam os seus pais?

R - O meu pai era engenheiro de formação e esteve muitos anos ligado à Sociedade Nacional de Sabões – onde foi director. Pouco antes do 25 de Abril foi abrir uma fábrica de cimentos, em Souselas, e até estivemos para ir viver para Coimbra. Mas depois deu-se o 25 de Abril e isso ficou sem efeito.

P - A sua mãe, era a mãe clássica e doce?

R - Era de facto uma mãe de família, completamente virada para nós, a tentar manter alguma ordem numa casa cheia.

P - Olhando para o seu carácter, diria que herdou mais do seu pai ou da sua mãe?

R - (Pausa) É muito um misto dos dois. A minha mãe é uma pessoa mais emotiva, o meu pai mais racional...

P - Há quem o ache muito emotivo...

R - Uma coisa é ser emotivo e outra é exteriorizar a emoção. Eu penso que exteriorizo mais as emoções. E isso é saudável, até é terapêutico...

P - Dentro dessa linha, é da opinião de que os homens devem chorar?

R - Acho que os homens devem chorar... e devem rir. Chorar é das coisas que mais aliviam, aliás, é das poucas coisas que aliviam.

P - Que valores é que os seus pais lhe transmitiram que mantenha até hoje?

R- A verdade e o empenho/disciplina. Eram outros tempos, a educação era mais distante entre pais e filhos; era uma educação — e se calhar tinha que ser assim — muito de tradição e muito exigente. Hoje em dia há uma relação muito mais próxima entre pais e filhos, o que é bom.

Preocupo-me muito que os meus filhos um dia olhem para trás e possam achar que foram crianças quando era altura.

P - Que idade têm os seus filhos?

R - Ele tem dez e ela tem seis. Antes existia muito o culto da exigência e da excelência. E eu acho que mais importante do que isso é ajudar os meus filhos a encontrarem o seu equilíbrio e o seu caminho. Quero que um dia digam: “fui feliz”.

P - Andou em escolas públicas?

R - Andei primeiro numa escola privada — a Escola João de Deus —, depois fui para o S. João de Brito, e a seguir para o Liceu Camões.

P - Hoje, como pai, acha importante ter a experiência da escola pública? Isso ajudou-o a perceber melhor a realidade?

R - Acho que as escolas privadas são sempre uma coisa mais fechada, uma espécie de conchinha, e penso que foi bom ter tido tempo para crescer num ambiente que tinha mais alguma protecção.

P - Era um aluno aplicado?

R - Variou muito ao longo do tempo. Houve alturas em que estudei apaixonadamente, outras não.

P - Teve muitas namoradas?

R - As suficientes. Sendo que conheci a minha mulher quando eu tinha 14 anos. Mas não foi um namoro regular. Só me casei com 28 anos.

P - Vindo de uma família predominantemente masculina, achava as raparigas “bichos” estranhos?

R - Não. Tinha um grupo de amigos —alguns vinham da instrução primária — com muitas meninas e meninos, que se juntavam ali no jardim da Casa da Moeda. E havia as festinhas todas, convivíamos muito. Foi um período fantástico . Eu tinha uma vida activa, fazia desporto. Fiz natação de competição durante vários anos e joguei râguebi durante dois anos. Os meus amigos jogavam todos...

P - E o boxe, como é que surgiu?

R - Um dia fui com alguns desses amigos ao Sporting a um treino de boxe. Fui o único que fiquei. Durante muitos anos, fiz boxe de competição, mas depois deixei. Tinha dois treinos por dia e não tinha vida para isso. Além de que jogava às escondidas do meu pai e fazia combates com um nome que não era propriamente o meu. Mas um dia o meu pai descobriu e deu-me 24 horas para decidir.

P - Não aprovava o jogo?

R - Ele até tinha jogado boxe em novo mas...

P - Será porque o boxe está um bocado associado à ideia de gente “arruaceira”?

R - Não, isso é uma ilusão. Encontrei gente fantástica. A maioria das pessoas que estava comigo na equipa do Sporting era muito calma.

P - Mas há essa ideia. Se calhar porque certas figuras míticas do boxe tinham essa fama...

R - Não. O Tyson fui o único que comeu a orelha ao outro.

P - Bom, sempre se pode descarregar a raiva no ringue...

R - Por um lado isso. Mas para além de permitir “gastar” energia, o boxe ensina a vencer as limitações e o medo. Ao chegarmos ao ringue, toca a campainha e não temos ajudas de ninguém.

P - Consta que por muita “porrada” que levasse, levantava-se e continuava a lutar. É um resistente?

R - (Risos) Sou um resistente, lá isso sou. Havia uma máxima no boxe que era não contar os murros que se levavam, mas apenas os que se davam. É uma escola de vida importante.

P - Quando e por que é que se interessou pela política?

R - Não sei bem. Se calhar porque a casa dos meus pais era em frente ao Pavilhão dos Desportos e, depois do 25 de Abril, não havia “gato-pingado” que não fizesse lá comícios. Fui a todos, do PCP ao MRPP.

Porquê? Porque me interessava, sei lá, deu-me para aí. Nessa altura, até escrevia sobre política para um jornal que se chamava O Templário, com um pseudónimo — era Nuno Foca. A equipa de natação tinha-me posto esse nome.

Estava sempre a ler e a escrever. A minha avó tinha escrito um livro e como eu era o seu neto preferido, estava sempre a dar-me livros.

No liceu Camões, um belo dia decidi – não sei explicar porquê -— fazer política. Já era da JSD (Juventude Social-Democrata). Tínhamos um movimento associativo (na altura era eu, o António Fontes, o Carlos Pimenta) e refundamos a primeira associação de estudantes. No ano a seguir fui presidente [da associação de estudantes].

P - Quais eram as posições políticas em sua casa?

R - Não havia muita tendência política. Eu e o meu irmão Tiago éramos laranjinhas ferrenhos, mas mais ninguém lá em casa teve filiação partidária. Havia um irmão meu que a certa altura foi do CDS, mas aquilo passou-lhe (risos). A minha mãe também andou por aí... mas também lhe passou.

O que também me despertou foi o 25 de Abril ter sido marcante para a nossa família. O meu pai estava em Coimbra para arrancar com uma fábrica, foi saneado pelos trabalhadores que nunca ali tinham trabalhado, e ficou desempregado. Não havia fortuna na família. A minha mãe tinha trabalhado no início, mas depois, quando nós nascemos, parou. Mas nessa altura, teve que voltar a trabalhar.

No mesmo período, a comissão de trabalhadores da Dyrup — empresa que estava ligada à família porque o meu avô tinha sido um dos fundadores — resolveu cortar a única fonte de rendimento da minha avó. Entretanto, o meu tio (que tinha sete filhos) foi saneado no dia 1 de Maio de 1975, teve um enfarte, e morreu nessa noite. De repente, o meu pai ficou com 25 pessoas a seu cargo. Isto motiva e faz com que uma pessoa pense. Foram tempos muito difíceis.

P - Apesar de tudo, não parece guardar mágoas desse período.

R - Não há que guardar. São custos. Mas lembro-me da angústia que se sentiu lá em casa. Até se pensou em ir para fora do país. Tinha 14 anos e aquilo marcou--me. Agora, ficar com rancor porquê, e contra quem? Há coisas que não têm de ser personalizadas, foi assim.

Mas acho que as pessoas se acobardaram. Acho que a geração dos meus pais se acobardou na altura do 25 de Abril. Não souberam dizer que o país também era deles e que tinham uma opinião. Foi um bocadinho à portuguesa: é a demissão colectiva habitual.

Demorou dois anos até que as coisas entrassem nos eixos. Podia ter sido muito complicado.

P - Apesar de fazer parte de um partido, sempre deixou claro que tinha as suas opiniões. Até que ponto é que, agora que está no poder, mantém essa independência?

R - Ou se mantém um grau de individualidade e independência, ou não vale a pena.

P - Mas agora é mais complicado...

R - Por isso é mais exigente e tem mais graça.

P - Continua a ter esse lado rebelde?

R - Não é uma questão de rebeldia. Se não houver essa individualidade, esse lado nosso, não vale a pena. Aí há 500 mil iguais...

P - Ainda há lugar para ideais na política?

R - Tem que haver. Durante muitos anos, enquanto estive à frente da JSD de Lisboa e se começou a falar em reduzir o papel das juventudes partidárias à actividade política, bati-me para que isso não acontecesse. As pessoas têm que se manter independentes. Se viverem apenas da política, a liberdade de movimentos é nenhuma. Se amanhã sair daqui e voltar para o meu escritório (aquele ou outro) volto a ser advogado.

P - Por isso disse uma vez que era um advogado que não estudou para ser político?

R - Exactamente. Sou um advogado emprestado à política. Nunca aceitei uma função política remunerada – a não ser agora esta – e é assim que vejo a política.

P - Não deixa de ser curioso que algumas das pessoas que passaram pela política nos últimos anos e que granjearam mais respeito não sejam políticos.

R - São pessoas que têm as suas competências profissionais. Mas também conheço pessoas que só fizeram política na vida, que têm um percurso notável, e que são importantes para a política. Contudo, são poucos. Na maioria dos casos, isso significa atrofia. Das duas uma: ou ganharam uma particular qualidade; ou então tornam-se político-dependentes e têm que vender as suas opiniões à continuidade dos seus cargos.

P - Lá vamos parar à “velha” questão de que quem vai para a política, a ganhar o que se ganha, vai mesmo por amor à camisola.

R - As pessoas têm que acreditar que vale a pena. A política é um bichinho que fica e que rói volta e meia. Não se consegue deixar... não se consegue ser treinador de bancada.

P - Hoje em dia, não há momentos em que pensa: “Cá estou eu, um ministro”?

R - Não, é mais: “O que é que eu estou aqui a fazer?; porque é que eu estou aqui e não continuei a minha vida profissional?”

P - E depois, o que é que responde a si próprio?

R - Há momentos em que é difícil — principalmente quando se fazem opções que implicam alguns sacrifícios pessoais. Está-se aqui para fazer qualquer coisa, ponto. E depois quando se sente a resistência de alguns...

Estou na política há 20 anos, conheço bem o jogo. Mas há alturas em que a pessoa diz: “Não é bem isto.”

P - A vida política é mais desleal do que um jogo de boxe...

R - Bastante mais. Num jogo de boxe também há deslealdade – os cotovelos, as cabeçadas. Mas na maioria dos casos, não é assim.

Mas não me faço nenhum inocente. Conheço este jogo há anos suficientes para me saber defender. Agora acho que valia a pena fazer qualquer coisa. Se isto não der uma volta neste momento, vamos passar uma série de anos a chorar a oportunidade perdida.

P - Tem noção de que é uma das figuras mais polémicas deste governo? Tem nas mãos uma das pastas mais complicadas...

R - Nunca pensei nisso. Não obedeço a uma estratégia premeditada, nem tenho algum gozo exibicionista particular, pelo contrário. Mas não vou desviar-me nem um segundo do caminho por causa disso.

P - Qual é a sensação de ser uma espécie de “testa-de-ferro” do Governo?

R - Não me vejo como “testa-de-ferro”.

P - Mas está mais exposto.

R - Estou... preferia estar menos. Esta história da exposição pública é o vício mais perigoso da história da humanidade. Desperta coisas boas e coisas más. Sabia que era inevitável, mas desagrada-me particularmente que essa exposição seja tão...

P - Mas teve essa consciência antes.

R - Sim, isso vem com o pacote.

P - E acredita que a maior parte das pessoas que vão para a política tem essa consciência?

R - Muitas pessoas que não tiveram uma experiência política anterior, não têm consciência do que isto pode ser. Eu tinha. Para mim, agora, era muito cómodo ter dito que não. Estava numa altura muito boa profissionalmente. Mas a vida não nos traz as coisas quando as queremos. Há que aceitar com naturalidade as mudanças e os desafios. Porque há coisas fantásticas em estar aqui a tentar fazer isto...

P - Porque é que acha que merece tanto respeito do primeiro-ministro. É por ser um resistente?

R - Não, não sou nenhum super-homem, nem pretendo ser. Tenho consciência de que todos temos as nossas limitações, falhas e defeitos. Não há super-homens nisto. Estrelas de cinema na política, é uma coisa que tem muito que se lhe diga. Nem sequer tenho... já tive, confesso, noutras alturas da vida, o sonho, a atracção ou o fascínio pela ribalta da política. É engraçado que foi quando já não era importante que isso fizesse parte da minha vida que aconteceu exercer estas funções. Temos que saber ler esses sinais. Se calhar só nesta altura é que fazia sentido passar por aqui.

É um caminho que começámos há uns anos atrás, eu e o José Manuel Durão Barroso. E também não se pode deixar as pessoas a meio caminho.

P - Quando é que o conheceu?

R - Na altura da Nova Esperança, quando ele estava ainda na Suíça e veio cá.

P - A amizade aconteceu por serem pessoas parecidas ou diferentes?

R - Somos muito diferentes. E nesse sentido, ele tem uma série de características que eu admiro. O inverso se calhar também acontecerá.

P - Mas Durão Barroso também é um resistente.

R - Sem dúvida nenhuma, até será muito mais corredor de fundo do que eu. Não aguentava metade do que ele aguentou.

P - Quais são as características que mais admira nele?

R - Tem um lado humano que as pessoas não conhecem...

Ele, ao contrário de mim, acha que os sentimentos não se devem mostrar. Também não acho que se deva fazer exibição de sentimentos. Mas penso que é saudável a gente distrair-se.

Conheço a pessoa por trás daquela imagem, e é uma pessoa com uma honestidade intelectual excessiva para conseguir fazer política no sentido mediático do termo. Isso por vezes impede-o de ser politicamente tão oportuno e eficaz quanto podia. Mas ele sabe e vive bem com isso. É um homem de bem.

P - Quer dizer que ele prefere ser assim para viver bem com ele próprio?

R - Não sei se ele prefere ser assim, ou se não consegue ser de outra maneira.

P - Tem muitos amigos?

R - Tenho.

P - Foram decisivos para conseguir ultrapassar fases difíceis da sua vida?

R - Foram. Tenho amigos que vêm comigo desde a quarta classe ou do liceu. A vida sem amigos não é nada.

A coisa melhor da vida são os filhos, por muitas chatices que nos dêem. Não há nada que pague. Eu costumo dizer que uma pessoa só sabe o que é gostar sem limites quando é pai ou mãe. Até lá não se sabe. Mesmo com as nossas mulheres. O que sentimos pelas nossas mulheres é uma soma de sentimentos. Com os filhos é sentimento puro. Gostamos e acabou.

O ser pai ou mãe marca dois momentos na vida de uma pessoa. A partir daí passa-se a saber o que é gostar, a avaliar melhor o quanto se gosta ou não se gosta dos pais, dos amigos...

Das mulheres gosta-se, das mães e dos amigos e dos irmãos gosta-se, mas há uma história de vida. Com os filhos, não. A gente gosta deles antes de qualquer história de vida. Portanto a primeira coisa são os filhos - e a família ao lado - e depois os amigos.

P - Tem noção de que o facto de “confessar” ter tido problemas graves com a droga, teve imensas repercussões? É preciso coragem; e não é um comportamento muito normal em Portugal.

R - (Silêncio) Que não é muito normal já sabia.

P - Temos poucos exemplos como o seu.

R - Eu não sou nenhum paradigma da honestidade. Serei uma pessoa normal como as outras; terei mentido e errado como qualquer pessoa.

P - Por que é que decidiu revelar esse passado?

R - Porque acho que também é uma maneira de recordar maus momentos da vida. É bom fazê-lo e recordar as pessoas que nessas alturas difíceis estiveram ao nosso lado.

Se o resultado daquilo for que havia uma pessoa com dificuldades que eu ajudei (por falar do assunto) — e isso já aconteceu — então vale a pena.

P - Há quem diga que o seu “exemplo” fez mais por algumas pessoas (que estão a tentar ultrapassar esse problema) do que uma terapia faria em anos.

R - Não há exemplos nisto. Os heróis têm pés de barro. Há testemunhos e cada um tem o seu, mas não há exemplos. Porque eles são sempre meio caminho andado para as desilusões.

P - Essa confissão é capaz de ser uma das tais coisas que aproximam o político do cidadão comum.

R - Não o fiz por causa disso. Se as consequências do que disse fossem não poder fazer política a seguir, tê-lo-ia dito na mesma. Fiz aquilo, naquela altura, porque achei que devia e já tinha pensado em fazê-lo antes.

Era-me completamente indiferente as consequências que aquilo tivesse em termos políticos. Durante estes anos, conheci muita gente que ainda está nessas dificuldades, outros que já as ultrapassaram. E há muitas histórias, enfim, de igual resultado, de pessoas com a mesma capacidade.

P - Mas dessas ninguém sabe...

R - Não se sabe mas há muitas. A vida hoje em dia é tão pesada para todos que as pessoas não querem mais problemas. Mas eu conheço centenas de pessoas que passaram por dificuldades e que hoje em dia têm uma vida fantástica.

Eu tive muitas ajudas, apesar de tudo. E conheço pessoas que, sem ajuda nenhuma, conseguiram ultrapassar situações muito graves. Pessoas que sabiam que fisicamente a sua vida estava condenada a curto prazo; outras que sabiam que estavam a ultrapassar aquele problema para a seguir se sentarem numa prisão durante 10 ou 15 anos, e ultrapassaram-no. Isso sim, são exemplos fantásticos.

Essencialmente, não devo ser um exemplo, porque os exemplos podem estimular a asneira, e isto é daquelas coisas que não se passam sem factura.

Paguei uma factura muito pesada. Muitos anos da minha vida ficaram perdidos profissionalmente; em termos de saúde, fiquei com algumas sequelas e, em termos emocionais, foi das experiências mais violentas que se pode ter.

P - Muda-se muito?

R - É um bocadinho como quem tem acidentes graves. Quando as pessoas chegam a situações terminais, reequacionam a sua vida toda daí para a frente; as suas prioridades. É uma espécie de segunda vida.

P - A sua “confissão” gerou diversas opiniões e há quem diga que se tratou apenas de uma estratégia política de antecipação.

R - É daquelas coisas que me são completamente indiferentes.

P - Acredita em Deus?

R - Sou católico – não um exemplo praticante – e acredito profundamente em Deus. Algumas experiências da vida levaram-me a isso. Se alguma conclusão tiro delas, é que há mais qualquer coisa além disto. O sentido da vida está para além daquilo que vemos, daquilo em que nos consumimos, daquelas trivialidades que consideramos essenciais.

P - Está a viver um período bastante conturbado na sua experiência governativa. A solução para a RTP é o seu grande desafio?

R - Não sei, não sei dizer.

P - Mas está mais exposto do que nunca...

R - E espero que acabe a exposição para poder começar a trabalhar.

Vim para aqui para fazer qualquer coisa e espero começar a ter condições para isso. Se não, não faz sentido.

P - Defende ou não a existência de um canal público?

R - Não quero falar de televisão... Se me perguntassem se em qualquer país é necessário haver televisão pública, eu diria que não. Mas num país como o nosso, que apesar de ter uma cultura com oito séculos, tem estas fragilidades, um canal que garanta a produção pública e que defenda a cultura e a língua, é essencial.

P - Mas ao acabar com um dos canais da RTP, está a afastar-se do modelo europeu.

R - O problema dos canais é o que tem menos importância...

P - Uma coisa é certa. Há anos que o Estado não cumpre as suas obrigações – mais do que não seja as económicas - para com a RTP.

R - Essa história da dívida do Estado à RTP é uma coisa que ainda tem que ser clarificada. Não é garantidamente assim.

P - Neste caso, sente-se vítima de alguma armadilha?

R - Muito se tem dito... mas é evidente que a RTP tem feito uma campanha. E é evidente que acho que o país o percebeu.

Penso que isso ultrapassa aquele que devia ser o caminho. Tem-se criticado muito a maneira como o Governo pegou neste dossier. Mas, na minha opinião, tivesse pegado da maneira se pegasse, chegava-se a este ponto. Desiludam-se aqueles que pensam que, se houvesse outra abordagem, as coisas poderiam ser diferentes.

P - A grande questão não é quererem acabar com um dos canais?

R - Não, não é. Se não fosse essa, era outra. A questão é que se está a querer mudar uma situação que tem muitos vícios, que tem muita necessidade de reacção e que não tem os empregados da indústria têxtil ou de muitos outros sectores que podem viver situações de igual dificuldade.

Trata-se de dois ou três sectores onde é evidente que há uma capacidade de excepção. Mas não vamos falar mais disso...

P - Como é que acha que Durão Barroso passou de mal-amado a D. Sebastião dentro do PSD?

R - Sempre achei, até ao momento das eleições, que era assim. Como dizia, com razão, a mulher do primeiro-ministro espanhol: “Primeiro ganha-se. O carisma vem depois”.

Nunca estive ao lado de Durão Barroso pela sua capacidade mediática de liderar a oposição. Se calhar havia pessoas que, nalguns momentos, teriam mais capacidade de comunicação ou mais habilidade meditática para fazer oposição do que ele. Estive ao lado dele porque sabia que ele seria o primeiro-ministro indicado e o melhor para assumir tais responsabilidade. E acho que o tempo me vai dar razão. Aliás, já está a dar-me razão. A capacidade de resistência, a seriedade e a determinação que estão sempre no fundo do caminho dele, eram essenciais para o tempo que vamos viver. Não podia ser uma pessoa com excesso de precipitação, com variações, com repentes.

P - Mas há uma coisa que não estava no “guião”?

R - O quê?

P - A aliança com o PP. Nunca teve muita simpatia pela ideia de uma AD (Aliança Democrática).

R - Achei fantástica a experiência da AD no tempo de Sá Carneiro.

P - Mas não achou grande “piada” a estas últimas tentativas de entendimento entre o PSD e o PP.

R - Eu não acreditava na AD há uns anos atrás. Mas creio que tudo tem o seu tempo. Agora fazia sentido pelas circunstâncias. Nessa altura, não fazia.

P - Nestes poucos meses de convivência, qual é o balanço da relação com o PP? Mais fácil do que se pensava?

R - Muito mais fácil.

P - O doutor Paulo Portas continua debaixo de olho?

R - (risos) Isso queria dizer que ele alguma vez esteve debaixo de olho.

Não, a sério. O que posso dizer é que esta coligação tem sido no sentido de um Governo, e não de dois partidos.

P - Como é que reagiu ao afastamento de algumas figuras do PSD quando se tornou claro que tinham que governar com o PP?

R - Não sei se houve pessoas que se afastaram por isso. Pode haver pessoas que tenham uma história pessoal de relação com o PP difícil... Mas se alguém pensou que as coisas não funcionariam por causa da aliança com o PP, vai-se arrepender.

Nome completo: Nuno Morais Sarmento

dade: 41 anos

Naturalidade: Portuguesa

Estado Civil: Casado

Filhos: 2

Viagem que ainda não fez:

Patagónia/Alasca

Primeiro Emprego :

Empregado de mesa

Música :

Boa

Filme:

Clube Poetas Mortos

Restaurante:

Evaristo, no Algarve (ao pôr do Sol); o Centenaire

em Les Eyjies-de-Tayac

Cidade:

Havana e Londres

Maior defeito:

Horas

Virtude:

Força

O que mais admira nas pessoas:

Atenção aos outros

O que não suporta:

Deslealdade

Compra mais extravagante:

Uns candeeiros no TV Shopping

Hobby:

Viajar, ler, mergulhar

O que levaria para uma ilha deserta:

A família

Prato que odeia:

Caras de bacalhau/Massa guisada

Clube de Futebol:

Belenenses

Pecado Mortal:

————————————

Máxima de vida:

O melhor ainda está para a frente

Ambição:

Um barco, como casa, para o resto da vida

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