Chamam-se ‘streakers’ e são famosos por aparecerem nus no decorrer de eventos desportivos. Uns fazem-no por dinheiro, outros para protestar. Do futebol ao ‘snooker’, há em tudo. Agora também nas manifestações de rua.
Estado de Highbury, Londres. Há pouco mais de uma semana, num jogo da Taça da Liga, o Arsenal vencia de forma convincente o modesto Farnborough Town quando, de repente, os jogadores pararam, atónitos. No meio do relvado, um homem quase nu – não tirou as meias, possivelmente com medo de apanhar uma constipação (!) – corria velozmente, sem que ninguém o conseguisse travar. Nas costas trazia uma frase; no meio do campo abriu um abraço enorme, como que a festejar mais um golo da formação de Arcene Wenger.
A situação não é nova. Trata-se de um ‘streaker’, designação dada a quem, a meio de um qualquer acontecimento, desportivo ou não, resolve tirar a roupa e dar o corpo ao manifesto. Em Inglaterra, a situação ainda provoca o riso, mas são tantas as vezes que tal acontece que já ninguém se incomoda. De facto, apesar de global esta parece ser uma atitude com mais adeptos na ilha de Isabel II, conhecida pelo espírito ‘very british’ de olhar o mundo de forma conservadora.
Quase impossível de datar, a moda vem dos anos 70, altura em que começou a captar a atenção da TV. A primeira vez terá ocorrido em Janeiro de 1974, quando vários estudantes da Universidade Norte Carolina, nos EUA, decidiram correr nus pelo ‘campus’ estudantil. A ideia pegou e, poucos meses depois, outro grupo, desta feita da Universidade do Maryland, decidiu repetir a proeza. Contavam-se 125 estudantes, sem roupa e sem juízo.
Os motivos contestatários estavam na base dessas ‘maratonas’ pouco convencionais, e prosseguiram em muitas outras. Só em 1974 conta-se uma enorme série de actividades envolvendo o ‘streaking’.
Quem decidiu participar afirmou tê-lo feito pela revolução sexual ou simplesmente para comemorar a Primavera, mas certo é que passado pouco tempo já havia paradas com fins políticos que recorriam à ideia. Na edição de 28 de Abril de 1974 – três dias depois da “Revolução dos Cravos” em Portugal –, o “New York Times” falava de cinco ‘streakers’ numa marcha que pedia o afastamento de Nixon (o do ‘Watergate’) da Casa Branca. O então presidente já sabia da existência da moda. Ele próprio quase saiu nu.
‘STREAKER’ FAMOSA VIVE EM PORTUGAL
Esta singular prova de loucura, ou simples tentativa de chamar a atenção, chegou ao desporto pela mesma altura, aliás, pelas alturas. Como? Pelo céu. Phil Canard foi o autor da proeza, ao saltar de pára-quedas para o West Georgian College. Nos 610 metros de descida levava apenas um par de ténis. Cá em baixo estavam 2000 estudantes a assistir.
Depois dele, a acção passou a ter lugar em terra firme. Primeiro na Austrá-lia, onde os jogos de ‘cricket’ ganharam outra emoção e levaram a algumas brigas. Para evitar problemas de maior, hoje os jogadores estão informados de que a detenção de um ‘streaker’ só deve ser feita por um agente da autoridade. É que numa modalidade onde há bastões, a ideia de parar um homem nu com o auxílio desses objectos pode ser perigosa!
Mais seguro será correr ‘pelado’ pelos estádios de futebol. Nisso, não há quem bata os ingleses, que também estenderam a ideia ao râguebi e a uma série de desportos menos famosos. Com sucesso, diga-se.
Tanto sucesso que são cada vez mais os encontros da Premiere League interrompidos devido ao aparecimento de um 12º jogador, que não tinha sido convocado. Às vezes, até são ‘jogadoras’, já que também o sexo feminino aderiu ao ‘streaking’. A diferença é que as mulheres preferem modalidades com público ‘conservador’ – casos do golfe, ténis ou ‘snooker’.
Emma Hughes, nos dardos, é disso exemplo, embora não seja a única.
A mulher mais famosa no ‘streaking’ é, sem dúvida, Erica Roe, uma inglesa que em Janeiro de 1982, quando tinha 24 anos, decidiu irromper sem blusa pelo meio do estádio de Twickenham. Estava-se no intervalo de uma emocionante partida de râguebi – na qual a Inglaterra defrontava a congénere australiana –, Erica foi apanhada pela Polícia e, ao que consta, ganhou 8000 libras por aparecer em programas de televisão.
Segundo informações divulgadas por um ‘site’ dedicado ao assunto, a jovem terá deixado o ‘streaking’ e vindo para Portugal, sendo casada com um agricultor. Hoje, exporta batatas e tem três filhos. Antes, porém, participou num anúncio à primeira camisola do Aston Villa alguma vez patrocinada e foi convidada para posar nua para a “Playboy!” e a “Penthouse”. Chegou mesmo a ser eleita pelos leitores do “Guardian” como intérprete de um dos 100 momentos da História do Desporto. Alguém sabe onde ela vive agora? Em que cidade, pelo menos?
Actualmente, estas aparições sem roupa não se ficam pelo desporto. Centros comerciais, salas de cinema, programas de TV, festivais e marchas de protesto, são alguns cenários onde é possível encontrar ‘streakers’. Até George W. Bush já foi alvo de uma acção destas, numa manifestação contra a guerra no Iraque.
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