Mike Tyson foi uma lenda dos ringues. Agora dedica-se aos pombos, com a ajuda de um português
Em 44 anos de vida, o Mundo conheceu-lhe muitas e contraditórias facetas. Mike Tyson, o puto fenómeno, que aos 20 anos era o mais jovem campeão do Mundo de boxe; Tyson, o ‘bad boy' que desfazia os adversários no primeiro round; Tyson, o violador condenado a 6 anos de prisão; Tyson, o regressado, outra vez vencedor de combates depois da prisão; Tyson, o homem que arrancou à dentada a orelha do adversário Holyfield; Tyson, o delinquente detido por posse de armas e droga e, finalmente, Tyson, o ex-milionário que declarou falência, apesar de ter recebido cerca 300 milhões de dólares ao longo da carreira.
Mas o que não se sabia é que a verdadeira paixão de Mike não são os ringues - o que o faz feliz é criar pombos de competição.
O AMIGO PORTUGUÊS
"Os dias do boxe acabaram. Hoje sou um homem novo e posso mostrar ao Mundo o meu gosto pelos pássaros", conta Tyson à Domingo, numa conversa telefónica que o encontra em Las Vegas. O gosto do ex-atleta pelos pombos é o mote de um programa de televisão que está a ser um sucesso na América e na Europa. Exibido nos EUA com o título ‘Taking on Tyson', no canal Animal Planet, passa em Portugal no Discovery, com o título ‘As Asas de Tyson'.
O programa de seis episódios mostra as actividades diárias de Mike e da sua equipa na preparações dos pombos para as provas e em competição. O braço direito do ex-boxeur chama-se Mário Costa. Português nascido em Murtosa (perto de Aveiro), tem 48 anos e é o dono do bar e ginásio em cujo telhado Mike guarda os seus pombos. O programa revela uma amizade de quase 30 anos entre os dois.
No início dos anos 80, Mike Tyson perdia-se nas ruas de Nova Iorque. Rapaz conflituoso, tinha um pouco recomendável currículo de estadas em vários reformatórios. O treinador de boxe Cus D'Amato viu nele mais do que um marginal. Adoptou-o depois da morte da mãe, levou-o para casa em Catskill, cidade a norte de Nova Iorque, e transformou-o numa máquina de combate.
Por esta altura, o jovem Mário Costa prosperava em Jersey City. "Vim de Portugal com 12 anos. Fui sempre bom aluno e cheguei a tirar o bacharel em Economia, mas depois não quis ir para a universidade. Comecei a investir na restauração. Os negócios corriam bem e abri um ginásio para ajudar os jovens da comunidade e tirá-los da rua", conta o luso-americano
O ginásio Ringside, onde hoje funciona também um bar, tornou-se o local de treino de vários jovens com talento para o boxe, e Mário levava-os aos campeonatos.
O encontro com Mike Tyson deu-se em 1983. Costa lembra--se dos detalhes: "Fui ao Canadá com alguns atletas meus e conheci o Mathew Wilson, um lutador que vivia com o Cus D' Amato e o Mike em Catskill. O Wilson ganhou a um dos meus atletas e convidei-o a vir treinar para Jersey. Mas ele continuava a visitar o Cus D'Amato e comecei a acompanhá-lo nessas viagens. Foi assim que conheci o Mike Tyson e ficámos amigos".
A PAZ DOS POMBAIS
Para além do boxe, Mário e Mike partilhavam o gosto pelos pássaros. "Eu já tinha pombos-correios em Portugal e o meu pai manteve esse gosto na América. Tínhamos pombais em casa. Em Catskill, o D'Amato também criava pombos e o Mike afeiçoou-se aos bichos. Era uma paixão comum", conta Mário.
Tyson confirma e conta que foi sempre no pombal que encontrou a paz que lhe faltou em tantos momentos da vida: "Sempre que acabava um combate importante eu voltava a casa para estar com os meus pombos. Foi sempre uma coisa que me acompanhou a vida toda.
Mário sabia que Tyson ia ser uma estrela. Em 1986, o puto de Brooklyn, com apenas 20 anos, defrontou o detentor do título mundial de pesos-pesados da WBC, Trevor Berbick, em Las Vegas. Antes do combate, Mário disse-lhe: "Deixa-me tirar uma fotografia contigo, porque tu vais ser o campeão do Mundo e depois nunca mais te vejo".
Metade da profecia cumpriu-se - Tyson arrebatou o título de campeão do Mundo, o mais novo de sempre a consegui-lo, e acumulou vitórias atrás de vitórias, até a sua personalidade tumultuosa deitar tudo a perder. Mas nunca perdeu a amizade com Mário, um dos poucos amigos que lhe ficaram depois da morte de Cus D'Amato, que não chegou a vê-lo ganhar o título de campeão do Mundo.
O RENASCER DE UM DURO
"O Mike teve tudo, e perdeu tudo. Lembro-me que ele chegou a comprar casas onde nem sequer entrou. Quando bateu no fundo, ficou sozinho, mas eu estive sempre com ele, nos bons e nos maus momentos", conta Mário Costa. E quando Tyson perdeu as propriedades, o português ofereceu-lhe um sítio para guardar os seus pombos.
O telhado do Ringside tornou-se o ‘Tyson's Corner', onde o ex-campeão tinha a sua equipa de pombos de corrida. Quando surgiu a ideia de fazer o programa de TV, o edifício pintado com as cores, o nome e a bandeira de Portugal tornou-se o centro da acção.
"O programa está a ser um sucesso. É espectacular que as pessoas possam ver quem sou eu na realidade. Hoje sou um homem feliz", conta Tyson.
Mário Costa, solteiro e sem filhos, usa o cabelo penteado para trás e tem um charuto sempre na boca. Parece uma personagem da série ‘Os Sopranos', mas a imagem de duro só convence quem não o conhece: "Há quem me trate por ‘Padrinho', mas é só porque, na verdade, tenho muitos afilhados. E gosto de charutos, mas a produção ‘obrigou-me' a ter sempre um na boca quando apareço nas filmagens, está um bocado exagerado", conta Mário, que continua a vir a Portugal "duas ou três vezes por ano", até porque os pais, que o levaram para a América com a irmã na juventude, já regressaram à Murtosa.
Mike conta vir a Portugal em breve, para competir com os seus pombos: "Espero ir aí dentro de pouco tempo, estamos a planear viagens a Portugal, Bélgica e África do Sul". Tyson conta que já esteve em Portugal, no ano de 2005, numa rápida visita a um amigo que estava por cá de férias. "Estava em Moscovo quando recebi o convite para ir a Portugal. Gostei muito e espero poder voltar em breve". Mário é fanático do Benfica e contou a Mike a história de Eusébio. O ex-pugilista admira o ‘Black Panther', embora admita que não percebe nada de futebol.
Dos ringues para os pombais, Mário e Mike construíram uma amizade à prova de todos os rounds. "Na altura em que a vida dele estava a desabar, ele apareceu aqui no pombal. Vinha de calções e chinelos e adormeceu à beira das pombas. Quando acordou, olhou para mim e disse-me: ‘Sabes, eu já tive tudo na vida, mas só aqui é que tenho paz'".
NOTAS
TELEVISÃO
O programa do Discovery mostra como a equipa de Tyson compete com os pombos.
CORRIDAS
Nas provas, ganha quem consegue que os pombos voltem mais depressa a casa.
CAMPEÃO
Mike Tyson fez 58 combates e ganhou 50. Chegou a ter os três principais títulos de n.º 1 em simultâneo.
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