Milhões de brasileiros estão nas ruas a exigir um país mais justo e menos corrupto. A raiva da juventude deixou o Brasil em transe.
Mayara Vivan tem 23 anos e jura que não é líder de nada. Nem ela nem a organização onde milita, o Movimento Passe Livre, que luta pela melhoria dos transportes de São Paulo. Mas aquilo que começou por ser um protesto por causa de um aumento de 20 cêntimos no passe dos transportes da maior cidade da América Latina transformou-se rapidamente no maior protesto de que há memória na história do Brasil.
Nas últimas três semanas, milhões de brasileiros saíram às ruas para exigir mais educação, melhor saúde, o fim da corrupção na política e mil e uma outra causas que vão sendo acrescentadas dia após dia. Ninguém sabe que país vai emergir desta crise, mas todos têm a certeza de uma coisa: o Brasil nunca mais será o mesmo.
PROTESTO SEM LÍDERES
"O povo não precisa de liderança, toda a gente está a sair à rua para mostrar a sua revolta. Nós tínhamos a ideia de que iríamos fazer uma grande manifestação em São Paulo, mas não imaginámos que os protestos iam ganhar esta dimensão", conta à Domingo Mayara, estudante de Geografia na Universidade de São Paulo. Catapultada para os holofotes das televisões, Mayara tornou-se um dos rostos de uma geração que o Brasil julgava adormecida, alienada da discussão política. Mas afinal foram jovens como os que fazem o Movimento Passe Livre que obrigaram a presidente Dilma Rousseff a vir ao seu encontro, para tentar travar a onda de indignação. Gesto que não impressionou Mayara: "A presidente Dilma reuniu-se connosco, mas nem sequer leu as nossas propostas. Nem se pode dizer que houve um diálogo. Conseguimos travar o aumento dos passes, mas a luta não fica por aqui. Queremos transportes de tarifa zero."
"Aquele Brasil da propaganda, em que estava tudo numa boa, acabou. Esse mundo caiu e ninguém sabe o que vem a seguir", diz Marcos Villa, historiador de e sociólogo, de 58 anos. O professor da Universidade Federal de São Carlos, em São Paulo, confessa a sua surpresa com o momento que o país atravessa: "Imaginei que haveria protestos em algumas cidades. Nunca esperei – nem eu, nem ninguém – que as pessoas saíssem à rua em mais de 150 cidades, pelas mais variadas razões. E isto sem haver uma direção partidária ou sindical. É uma coisa única na história do Brasil."
As manifestações têm sido marcadas por atos de violência entre a polícias e manifestantes, mas as cargas policiais dos primeiros dias têm sido refreadas. Continua a haver distúrbios e atos de vandalismo, mas os próprios manifestantes têm-se empenhado nos apelos à não violência e na denúncia da infiltração de grupos violentos nas manifestações.
FUTEBOL NÃO ESCAPA
A hora deveria ser de festa. O Brasil recebe a Taça das Confederações de futebol e estreia os estádios que vão receber o próximo Mundial. Mas os gastos astronómicos com os estádios são precisamente uma das causas que tem levado a indignação às ruas. "Estima-se que terão sido gastos 33 mil milhões de reais [11 mil milhões de euros]. Uma fortuna que poderia ter sido aplicada em hospitais e escolas", diz Marcos Villa.
As manifestações à porta dos estádios – e as repetidas cenas de violência policial contra os manifestantes – tornaram-se a imagem da Taça das Confederações. E até os próprios jogadores da seleção exprimiram nas redes sociais o seu apoio a quem protesta. Neymar, o grande astro da canarinha, escreveu no Instagram: "Sempre tive fé de que não seria necessário chegarmos ao ponto de ‘ir para as ruas’ para exigir melhores condições de transporte, saúde, educação e segurança, isso tudo é OBRIGAÇÃO do governo (...) Também quero um Brasil mais justo, mais seguro, mais saudável e mais HONESTO !!!!".
David Luiz, central que jogou no Benfica, foi outra voz incómoda para o poder: "As pessoas e os cidadãos tem o direito de expressar as suas opiniões se não estão felizes. É só dessa forma que podemos enxergar onde estão os erros para poder melhorar. O Brasil tem tudo para crescer e ser melhor." Questionado sobre as posições que os seus atletas têm assumido, o selecionador Luiz Felipe Scolari mostra que o balneário não é mouco aos gritos da multidão: "Esta possível alienação que sempre é posta aos nossos atletas profissionais está deixando de existir."
VOZ DAS RUAS
"A linguagem das ruas deixou atónitos o poder e os intelectuais. Têm muita dificuldade em perceber o que se passa. Uma das bandeiras dessa luta foi a contestação à Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 37, que previa a limitação dos poderes do Ministério Público na investigação dos políticos. As pessoas estão cansadas de corrupção", diz o historiador Marco Villa, que vai publicar em breve um livro sobre os anos do Partido dos Trabalhadores no poder. O título diz tudo: ‘A Década Perdida’. Villa refere o episódio mais emblemáticos dos escândalos de Lula: "Ninguém compreende o caso ‘Mensalão’, depois de tantas condenações continuam todos à solta. José Dirceu [o ex-chefe da Casa Civil de Lula da Silva, condenado no processo a 10 anos de prisão] continua a passear pelo Brasil, fazendo discursos contra a justiça. É inaceitável."
João Pereira Coutinho, colunista do CM e colaborador do jornal ‘Folha de São Paulo’, um dos mais influentes do Brasil, critica a sucessora de Lula: "A presidente Dilma tem tido um comportamento errático. Veja-se o gesto que teve de ir a correr para São Paulo para pedir conselhos a Lula . Foi um sinal de incompetência." O professor universitário teme o desnorte que se nota no poder de Brasília: "Foi anunciado um referendo para uma Assembleia Constituinte que significaria uma bolivarização da democracia, um golpe constitucional que nos faz lembrar a Venezuela." Edson Athayde, escritor e publicitário que vive entre Portugal, Brasil e Espanha, teme pelo futuro: "A Dilma quer avançar com um plebiscito para uma Constituinte que não é muito diferente do que fez Chávez. O Congresso brasileiro é mau, diria mesmo que é um esgoto, mas ainda se rege por leis. Não me parece que vá haver flores nem uma primavera a nascer desta crise." Edson Athayde não crê que os políticos possam fazer a diferença. "Não se pode pedir a um lobo que guarde o galinheiro, isso é muito perigoso para as galinhas."
ECONOMIA ESTAGNA
O Brasil já viveu situações de protestos de rua – veja-se o caso do ‘impeachment’ do presidente Fernando Collor de Mello em 1992 –, mas nunca como agora se viu tanta gente da classe média em manifestações. Os que ascenderam socialmente nos últimos anos – por causa do crescimento económico – exigem agora um país mais justo e com melhores condições de vida.
A euforia económica que o país viveu nos últimos anos mostra agora claros sinais de declínio. O economista Heron do Carmo, professor da Universidade de São Paulo, explica o impasse. "Estamos a assistir a uma frustração das expectativas. O governo foi pródigo em promessas que não cumpriu. Por exemplo, a propósito do Campeonato do Mundo estavam previstos investimentos nos transportes e infraestruturas das cidades que vão receber os jogos, mas só os estádios foram construídos." Isto numa altura em que a economia mostra sinais de estagnação: "A economia está a crescer menos e a inflação sobre, está nos 6%. As contas externas pioraram e a situação fiscal também se deteriorou", diz Heron do Carmo.
Os programas que o governo federal criou para facilitar o acesso das famílias pobres a casas condignas trouxe efeitos perversos. A facilidade no acesso ao crédito levou a que os preços das casas aumentassem artificialmente devido à especulação e hoje essas habitações perderam valor no mercado. O negócio do imobiliário está em crise e muitos já usam a expressão "bolha imobiliária" – responsável pelo início de uma crise que começou nos Estados Unidos e que os portugueses sabem demasiado bem o que significa no seu dia a dia.
"Os brasileiros habituaram-se a crescer a 6% ao ano, mas em 2012 esse valor não chegou a 1%. Seria necessário reformas de fundo num estado em que faltam os serviços mais básicos, mas não é de esperar que Dilma, que está a meio do mandato, tome medidas impopulares", diz João Pereira Coutinho.
O jornalista Josias de Souza, autor de um dos blogues mais lidos no Brasil, lembra fantasmas antigos. "No tempo do presidente Sarney, tínhamos uma inflação de 84% ao mês. Era uma loucura. Durante muitos anos o combate à inflação foi a grande causa do governo e isso foi resolvido." Os avanços trouxeram novos desafios. "A grande preocupação dos mandatos de Lula foi combater a miséria. Unificaram-se os programas sociais e os efeitos foram positivos – o Brasil passou a ter um mercado de consumo interno, o que nunca tinha acontecido. Mas o ser humano evolui e quer mais. A educação, a saúde ou a segurança são problemas que nunca foram resolvidos", diz o autor do ‘Blog do Josias’.
REDES SOCIAIS EM AÇÃO
Os políticos jogam no cansaço dos cidadãos e esperam que a paz volte às cidades brasileiras. Mas a geração do Facebook, Twitter e Orkut não baixa a guarda. Rafinha Bastos, humorista de 36 anos, é uma das figuras mais populares do Twitter no Brasil. Com 5,6 milhões de seguidores, vê nas redes sociais uma ferramenta preciosa: "É um momento muito bonito. O que aconteceu é que as pessoas levaram as discussões e as causas das redes sociais para a rua", conta à Domingo. E o efeito está a vista: "Em duas semanas, vimos os políticos tomarem medidas que demoravam meses a resolver."
Edson Athayde explica o que mudou com as redes sociais: "Antes os grupos eram um rebanho que seguia um líder. Agora as pessoas juntam-se em grupos e formam enxames, que se agrupam. Estas manifestações reúnem pessoas que têm interesses muito diferentes".
Josias de Souza fala de uma nova era. "A juventude descobriu a ferramenta das redes sociais. Há uma multidão que se junta sem um líder carismático, sem partidos. É como se tivesse ocorrido um enorme tsunami. É preciso ver o que se salvou e recomeçar."
JOVENS, INSTRUÍDOS, DESILUDIDOS
O IBOPE, a maior empresa de sondagens do Brasil, entrevistou dois mil manifestantes em sete cidades. A maioria tem entre 14 e 29 anos (63%) e destes 92% já fez o secundário e iniciou ou completou um curso superior. O poder de compra é relativamente elevado: 30% têm rendimentos entre 2 a 5 salários mínimos (que vai de 270 a 290 € e varia conforme o estado e a profissão); 26% de 5 a 10 salários mínimos e 23% recebem mais. As causas mais apontadas para os protestos são os transportes públicos (37%); o ambiente político (sobretudo a corrupção) (29,9%); a saúde (12%) e a educação (5,3%). Apesar de 61% dos contestatários se dizerem muito interessados na política, mais de 83% não se sente representado por qualquer partido.
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