Há 25 anos morria, em Agosto, D. Manuel Gonçalves Cerejeira, uma das figuras mais marcantes da Igreja Católica em Portugal no século XX. Um homem ímpar na história do País.
Cardeal Patriarca de Lisboa de 1929 até 1971, o seu percurso como chefe da Igreja Católica Portuguesa acompanha o regime político autoritário a que Salazar deu forma e rosto, desde o nascimento ao declínio. Tal como o fundador do Estado Novo, também Cerejeira teve origem rural, tendo nascido em 1888 na freguesia de Santa Marinha de Lousado, no concelho de Famalicão.
Concluído o Curso Teológico no Seminário de Braga, em 1909 matricula-se na Faculdade de Teologia em Coimbra, sendo ordenado sacerdote em 1911. Após a formatura em Teologia obtém a licenciatura na Faculdade de Letras, tendo-se doutorado em 1918 e sido nomeado professor no ano seguinte.
Em Coimbra destaca-se pela militância política em defesa do Catolicismo e da Igreja, contra o regime republicano, recentemente implantado. Em 1912 funda e dirige o jornal O Imparcial, onde Salazar colabora sob pseudónimo. Os dois irão reestruturar o Centro Académico de Democracia Cristã, organização que congregava estudantes e professores contra a corrente maçónica e anti-clerical do republicanismo.
Os dois homens forjam então uma amizade que os leva a partilhar a mesma casa, uma “república” coimbrã. Ao longo da vida não mais deixarão de se reunir no Natal e Cerejeira será mesmo uma das poucas pessoas que tratavam Salazar por tu.
O prestígio intelectual de Manuel Gonçalves Cerejeira firma-se nessa época com a publicação de estudos sobre o Renascimento em Portugal.
A consolidação do regime saído do golpe militar de 28 de Maio de 1926 é acompanhado pela rápida ascensão de Cerejeira na Igreja: em 1928 é nomeado Arcebispo de Mitilene; em Novembro de 1929 é escolhido para Patriarca de Lisboa e, no mês seguinte, é elevado a Cardeal, ao mesmo tempo que o futuro Papa Pio XII.
CARDEAL PATRIARCA DE LISBOA
A sua acção pastoral irá caracterizar-se principalmente pela criação de condições para a afirmação da Igreja no plano do ensino, tendo para isso promovido a abertura de mais de uma dezena de colégios diocesanos, fundado e restaurado seminários e sido um dos principais promotores da Universidade Católica.
Como chefe da Igreja Católica Portuguesa o Cardeal Cerejeira empenhou-se na elaboração da Concordata e do Acordo Missionário, assinados em 1940 entre o Estado Português e a Santa Sé. A influência da Igreja reforça-se e alarga-se a campos como o da família, passando o Estado a reconhecer o carácter indissolúvel do casamento católico, uma situação que só viria a ser alterada em 1974.
Apesar da grande identificação da Igreja, chefiada pelo Cardeal Cerejeira, com o Estado Novo, essa relação não foi isenta de conflitos. Em 1938 o Ministro da Educação, Carneiro Pacheco, pretendeu integrar os Escuteiros na Mocidade Portuguesa; o Patriarca de Lisboa opôs-se com determinação e o caso só ficou resolvido dois anos mais tarde: o Corpo Nacional de Escutas continuou na dependência da Igreja e Carneiro Pacheco foi nomeado embaixador junto da Santa Sé.
A criação da Universidade Católica foi motivo de novo conflito já que Salazar queria preservar o monopólio estatal do ensino superior, pelo que só em 1967 a Universidade Católica foi inaugurada.
Enquanto Cardeal, D. Manuel Gonçalves Cerejeira participou nos conclaves que escolheram os Papa Pio XII, João XXIII e Paulo VI. Acompanhou os trabalhos do Concílio do Vaticano II, no princípio dos anos 60, mas manteve-se à margem do movimento de renovação da Igreja então iniciado.
Na segunda metade dessa década assiste-se à criação em Portugal de numerosos grupos de sacerdotes e leigos que questionavam a complacência da hierarquia para com o Estado Novo e, a nível político, criticavam o rumo seguido pelo governo ao nível das políticas sociais, da falta de liberdade e da guerra em África.
Cerejeira trava então um dos últimos combates em defesa do regime que ajudara a construir, considerando a acção desses católicos como “dissolvente” e levando o episcopado a classificá-los como “grupos marginais”.
Sobrevive à morte política e física do amigo e vem a resignar do cargo em 1971.
Aquele que ficou conhecido como o Patriarca do Estado Novo assistirá ainda ao 25 de Abril, falecendo em 1977 com 89 anos de idade.
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