Aos 82 anos, Agustina Bessa-Luís continua a publicar a um ritmo alucinante. O seu livro infantil, ‘O Soldado Romano’, serviu de pretexto para uma conversa onde se fala da escritora, da sua obra, mas também da mulher.
Na sua casa de Lisboa, acabada de regressar de uma viagem a Praga, Agustina Bessa-Luís partilha fragmentos da sua vida: da escritora, que aos 82 anos continua a publicar a um ritmo pouco usual nas letras portuguesas; e da mulher, que se diz equilibrada, de desapegos afectivos, vaidosa, com preconceitos e que considera o “cúmulo do ateísmo” passar por baixo de uma escada.
A propósito do seu último livro infantil, recorda a infância, fala da influência dos lugares na construção da obra, mas, sobretudo, partilha ideias e conceitos muito próprios.
Mais do que dar uma entrevista, Agustina Bessa-Luís conversou e desconcertou… Agustina Bessa-Luís, para quem escrever é um imperativo, foi galardoada com o mais importante prémio literário da língua portuguesa – Prémio Camões 2004 – e já este ano doutorada ‘honoris causa’ pela Universidade do Porto, galardões que se juntam a tantos outros ganhos ao longo de uma actividade literáriade 57 anos.
A escritora estreou-se como romancista em 1948, com a novela ‘Mundo Fechado’ e desde então publicou mais de meia centena de obras, bem como peças de teatro e guiões para televisão. Agora, confessa estar mais virada para conversar, que é como quem diz contar as suas impressões dos lugares que visita.
ENTREVISTA
‘O Soldado Romano’, livro infantil, foi escrito a partir de memórias de infância. É um recurso recorrente?
Sim, mais do que uma vez tenho-o feito. Este livro foi escrito com muito gosto, porque voltaram a aparecer as figuras da infância mais avançada, dos meus 12 aos 14 anos. Fui justamente a duas escolas desses lugares de infância que antes não haviam e fiquei surpreendida com o nível escolar. Tanto as crianças pequeninas, como as mais velhas, têm muito mais interesse que nos ambientes urbanos. São muito educadas, melhor orientadas… Nenhuma das crianças se afastou.
De que outras influências/referências se socorre, habitualmente, para criar ficção?
Aquele tipo de ‘pesquisa’ é ocasional. Quando escrevo um romance digamos que há uma espécie de inteligência paralela, relacionada com o pensamento de escritores, aqueles que são os meus favoritos, aqueles com quem eu me identifico mais.
A ficção imita sempre a vida, por isso tudo o que se escreve é sempre biográfico. Concorda?
Não é só a ficção é a própria história. A História também já começa por ser uma ficção. Os historiadores ficam um pouco abalados, mas isto já foi declarado há muito tempo. A ficção intromete-se na própria História, por isso é que sempre gostei imenso de História, foi a única disciplina, além de Literatura, que gostei profundamente.
Que livro lhe falta escrever?
Não lhe sei dizer. Estou muito voltada para viagens, em que falo muito e transmito as minhas ideias, os meus pontos de vista. A viagem a Praga teve esse objectivo.
Olhe, a semana do cérebro foi celebrada, há algum tempo. Eu falo muito do cérebro à gente nova, porque envelhecemos logo na primeira infância e porque o cérebro é o suporte para a longevidade. A minha ideia principal – e que foi quase ridicularizada quando a lancei – é que o futuro é da pessoa vulgar, comum. As pessoas, mesmo as mais letradas, pensaram: ‘ah, mais uma ideia da Agustina Bessa-Luís’. Mas é uma ideia que está muito apoiada e estudada, a par desse conhecimento cerebral. E é curioso que, na viagem de regresso a Portugal (de Praga) cai-me nas mãos uma revista que falava de Einstein. Einstein considerava-se um homem comum, com esse ‘peito’ extraordinário que era a sua capacidade para uma composição cerebral que se pode considerar, de certa maneira, uma aberração. A pessoa tem de ser comum, caso contrário não consegue entrar no mundo que é de todos; em que se ama; em que se tem uma vida normal e que pode conduzir a um estado de felicidade.
E ler (publica-se tanto) quem é que a convence? Os autores de sempre?
Sim, são sempre os russos na grande ficção e os alemães, como pensadores e percursores das grandes ideias. Os franceses também (Proust, Bergson).
É pontual. Um bom escritor não se mede pela sua obra na totalidade, muitas vezes mede-se por um texto. Eu considero o Lobo Antunes um grande escritor. Depois há mulheres que trazem a sua experiência para o público que as aprecia, como Inês Pedrosa, Maria Velho da Costa e outras. Estão numa linha ascendente da literatura feminina. Se se pode chamar isso. E eu também (risos).
Considera que a sua é uma literatura feminina?
Considero, como mulher que evolui, que se expõe, na medida em que pensa. Uma mulher que pensa é uma mulher que se expõe.
O livro perfeito seria?
É perfeito, em que não é preciso tirar o excesso, como ‘Amor de Perdição’ (Camilo Castelo Branco). Eu ainda não cheguei lá.
De todos os seus livros, qual o preferido?
Diz-se que o preferido é sempre o último, mas eu gosto de ‘Mundo Fechado’, de que está a sair uma nova edição. É um livro bem escrito.
O seu universo ficcional é composto por homens fracos manipulados por mulheres fortes?...
Não há homens fracos, a mulher é que é poderosa, na medida em que, pela sua natureza maternal, ela é, existe, não é preciso comentá-la. Já o homem, na medida em que é fraco, apercebe-se da necessidade de criação, de inventar. A mulher não. A mulher é aquilo, é a criadora, enquanto o homem precisa da culpa para se redimir e a redenção é a sua obra.
Como gostaria que a recordassem?
Não penso nisso. Para mim escrever é um imperativo. Nasci para isso e portanto o que está para além disso já não me pertence.
Identifica-se com a chamada ‘literatura densa’?
Identifico, na medida em que lemos uma vez, sem continuidade (umas quantas folhas) e depois paramos, porque aquilo é demasiado para nos convencer. Um dia, que podem ser anos, retomamos e estamos a ler com a mesma fascinação.
A Agustina é essa ‘densidade’?
Sim, sim, é o material que me ofereceu a própria vida.
Disse que a poesia aparece na sua prosa quando não tem nada para dizer. A poesia é o ‘parente pobre’ da literatura?
A poesia pode ser extraordinária, sem dúvida, mas a poesia apenas demonstra, não pensa. É preciso mais.
Gosta de desconcertar?
Sim, gosto de recorrer ao lado que faz rir, através da aparente espontaneidade da graça.
Porque decidiu escrever uma autobiografia?
A autobiografia e a biografia são mentirosas, porque todos nós temos, na nossa vida, na vida familiar, no percurso, coisas que foram negativas, terríveis, importantíssimas e, portanto, que se saltam.
Há uma tendência para ficcionar?
Isso que se diz de ter saudades da infância é uma mentira pegada, porque a infância pode ter sido terrível. Por isso eu desconfio sempre das biografias.
É uma mulher sem preconceitos?
Não, também os tenho. O preconceito é necessário.
Tem 82 anos, mas ainda não desacelerou... Qual o seu segredo?
Não sei. Não contar a idade. As pessoas valem pelo que são e não pela idade que têm.
Escrever é, para si, como respirar?
É como respirar (risos). Diz-se que tudo o que se diz tem força mágica, por isso posso dizer que podia ficar numa prisão, desde que escrevesse.
Tem saudades do anonimato?
Não. Há um ditado que diz: ‘quando ficares célebre, vais ficar indignada com a quantidade de pessoas que não te conhecem’. E é verdade. Basta-me sair daqui. Curiosamente, a coisa mais espantosa aconteceu-me, recentemente, em Praga. Aquelas ruas estão sempre cheias de pessoas, multidões, e eu estava com o fotógrafo que me acompanhou na viagem, quando oiço: ‘É a Agustina Bessa-Luís?’ Eu disse que sim e fiquei admirada por alguém me conhecer entre tanta gente.
Uma questão que lhe tem sido muito colocada é a da transcendência. Acredita na vida para além da morte?
Acredito, mas posso renascer sem memória. Acho que um criador que se dá ao trabalho de criar um ser humano – e que às vezes até se sai bem – e depois tudo aquilo acaba, não faz sentido. Acredito porque para mim é importante acreditar. Lembro-me de umas senhoras velhas lá da minha província, que eram muitos beatas e que no dia anterior preparavam a roupa para vestir no dia seguinte, porque, diziam, que se vestiam mais depressa para ir à missa. E um rapaz, que se formou em medicina, para brincar com elas dizia: ‘as senhoras preparam-se tanto para ir à missa, então e se morrem e depois não há nada?!’. E elas respondiam: ‘ai isso é que era uma grande encavacadela’ (risos).
Quem espera (re)ver do outro lado?
Não sei. A mulher de Luís XIV dizia que era necessário uma mulher para entreter um homem, que eles não se entretém com nada (o marido era um homem farto de tudo). Ela era muito inteligente e viveu muito tempo, mas quando estava a morrer, perguntaram-lhe se estava com medo e ela disse: ‘o medo é superado pela curiosidade’. O mesmo digo eu.
Fale um pouco da sua infância.
Aprendi a ler aos 4 anos – mas isso não é nada de extraordinário. Sou descendente de uma família de raízes rurais de entre o Douro e Minho e de uma família espanhola, por parte da minha mãe e penso que também tenho alguma ascendência britânica. Passei a minha infância em vila Meã, nasci em casa como quase toda a gente naquela altura. Vivo no Porto e gosto, claro, é a minha cidade.
Como é a mulher Agustina?
É uma mulher muito equilibrada, na medida em que o pensamento, o cérebro e o coração andam a par, e isso é ideal para qualquer pessoa. Não sou uma pessoa tranquila, porque isso não é saudável. As pessoas muito tranquilas e sensatas, querem sair do medo através dessa linha insalubre. A pessoa que está perfeitamente tranquila, não dura mais de cinco meses. É preciso o balanço da insatisfação e da cólera.
É verdade que fica intratável quando não está a escrever?
Quando não escrevo sim. Como todo o artista. Sabe, o artista que mais admiro é o Miguel Ângelo e isso é um obstáculo a toda a outra admiração.
É verdade que desaparece nos encontros para ir às compras? É a sua faceta ‘coquette’?
Sim, é verdade (risos). Alguns encontros eram uma chatice, de gente letrada, mas que nunca escreveu um livro. Bom, o Barata Moura é que dizia, quando alguém perguntava por mim, que tinha ido comprar uma capelina. Nunca comprei nenhuma, mas chegava aos encontros cheia de sacos de compras (risos).
O que gosta mais de comprar?
Agora já há muita coisa que não me interessa. No vestuário sou muito fiel aos meus conselheiros, antes tinha modista. Admiro muito Valentino. Já são raros os criadores como ele. Gosto de moda porque está sempre em movimento, além de que toda a frivolidade evita o ‘stress’. Mas do que gosto mais é de bolsas.
Sou (risos).
Se não fosse escritora, era?
Aventureira, embora tenha todas as qualidades para ser espia.
Pela capacidade de passar despercebida, capacidade de conhecimento das situações e pelo perigo.
Tabu que nunca quebraria?
Passar por debaixo de uma escada. Não sei porquê, mas até fico indignada quando vejo alguém fazê-lo. Acho que aquilo é o cúmulo do ateísmo.
Tem três netos, já adultos, são leitores da avó?
Acho que sim, o que lhes faz muito mal (risos).
Já lhe falaram da sua densidade?...
Eles não são muito íntimos.
É uma pessoa de desapegos?
Sim. Sou muito afectuosa, mas não me fixo nisso. Tenho companheiros de sempre, como o meu marido que é jurista, mas muito dedicado. Sabe, nós não sabemos até que ponto os nossos afectos funcionam. Era muito amiga de José Régio, mas só me apercebi até que ponto quando ele morreu e chorei!
Qual o seu animal de estimação?
O cão, mas o acesso à capacidade emotiva dos seres humanos só os gatos é que têm. O gato tem um olhar muito humano.
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