Em 1953, os motores começaram a rugir perante uma multidão em delírio. Durante anos a fio, este circuito ganhou fama e prestígio e até Fangio, o penta-campeão mundial de Fórmula 1, por lá rodou.
A primeira corrida de automóveis em circuito fechado disputada em Portugal realizou-se em Lisboa, passados sete anos sobre a chegada do veículo de quatro rodas ao País (1895). O palco foi o Hipódromo de Belém, a 17 de Agosto de 1902. Anos mais tarde, obtêm assinalável êxito as famosas rampas da Pimenteira (em Monsanto, curiosamente, em 1910 e 1913) e, nos loucos anos 20, os alucinantes Quilómetro de Arranque e Lançado disputados nas mais longas artérias da capital. Entre eles, e desde 1922, o muito prestigiado Quilómetro de Arranque da Avenida da Liberdade, onde potentes bólides competiam ao segundo e a velocidades à época vertiginosas, ladeados por uma mole humana em delírio.
Mas seriam os circuitos dos anos 30, os que mais animariam a capital do país. No Parque Eduardo VII e no Campo Grande, a partir de 1931. Dos dois, singra o do Campo Grande e torna-se num ‘viveiro’ de emoções. É o mais importante circuito de Lisboa antes da II Guerra Mundial. Necessárias seriam duas décadas para que nascesse um substituto à altura. Foi na década de 50, por ocasião do Jubileu do Automóvel Club de Portugal. A 25 de Julho de 1953 estreava-se nas corridas o mítico Monsanto.
Há muito que os circuitos nortenhos se impunham. Traçados com enorme popularidade, Vila Real, Ave (Vila do Conde) e Boavista (Porto) dominavam o nosso automobilismo de velocidade. Lisboa não tinha qualquer circuito à altura. Para celebrar os 50 anos do Automóvel Club de Portugal (fundado como Real Automóvel Club de Portugal sob a égide de D. Carlos, em 1903 – passam 100 anos), as autoridades do clube propõem-se criar um novo circuito na capital. O local escolhido usaria os impecavelmente asfaltados arruamentos do Parque Florestal de Monsanto. Um cenário de eleição! Rodeado de vegetação e repleto de curvilíneos e pronunciados declives. Emocionante. Em pleno coração de Monsanto desenha-se um traçado com 5.425 m de extensão a cuja beleza ninguém fica indiferente. Inebriante e sensual como uma bela mulher! Não admira que, na primeira edição, viesse tanta gente sonante, nacional e internacional, para competir. E que uma enorme multidão de muitos milhares de pessoas se apinhasse espalhada por entre as árvores, bancadas e morros circundantes. Uma festa!
AS VEDETAS
Sentia-se que tinha nascido em Lisboa um circuito de sucesso. E para o ajudar, estava o espírito da competição da época. Corria-se por puro prazer, pelo prazer de pilotar, de competir saudavelmente. Pela paixão automóvel, sem vedetismo ou inveja. Fazia-se das tripas coração para ir a todas, para correr. Com simples capacete e fato de trabalho, se fosse preciso. E cabiam todos. Das “bombas”, aos pequenos automóveis do dia-a-dia da classe Turismo ou, até, as deliciosas pequenas pérolas que o engenho dos portugueses tinha criado à mão e de forma sublime em pequenas oficinas espalhadas pelo País (as nossas “marcas” inscritas na classe Sport até 1100 cc – Alba, F. A. P., D.M. ou Etnerap).
A lista de participantes da primeira edição estava bem recheada e conta com a presença de uma reputada ‘escuderia’ oficial (Lancia). Para se fazer ideia do gabarito das máquinas, na grelha de partida da corrida mais importante, o Grande Prémio do Jubileu do ACP, encontravam--se nada menos que seis Ferrari, dois Lancia (oficiais), dois Jaguar e dois Veritas. Para a história, no debute do circuito, ficam dois momentos de enorme tensão: os acidentes do argentino Froilan González e do “nosso” D. Fernando de Mascarenhas, no Grande Prémio.
Monsanto torna-se num verdadeiro chamariz de vedetas do automobilismo internacional. Entre 1953 e 1961, o prestígio além fronteiras sobe ano após ano de forma impressionante. Em 1957, recebe a honra da visita do “mitológico” Juan Manuel Fangio, penta-campeão mundial de Fórmula 1. Fangio vence a corrida mais importante, ao volante de um Maserati 3000 (conta ainda com a presença dos credenciados Phil Hill, Franco Cortese, François Picard e Alejandro De Tomaso – “pai” da marca De Tomaso e vê participar na corrida de Grande Turismo nada menos que 6 Mercedes-Benz 300 SL “Gullwing” – portas asa de gaivota, abrindo para cima). Por essa altura, também as motos fazem a sua aparição. Então, Monsanto atingiu o arco do triunfo: recebe engalanado a ‘rainha’ da competição mundial. Lisboa via pela primeira vez (que seria também última) bólides da Fórmula 1! A 23 de Agosto de 1959, o Grande Prémio de Portugal envolve os melhores pilotos do mundo. O reputado Stirling Moss vence em Cooper-Climax, subindo ao primeiro lugar do pódio entre Masten Gregory e Dan Gurney. Outros nomes sonantes da colheita 1959: Jack Brabham, Maurice Tintignant e Harry Schell. Fica também famoso, para as cores nacionais, o debute na Fórmula 1 de um jovem piloto que se iria tornar no mais sonante piloto português na competição internacional: Mário de Araújo “Nicha” Cabral.
O FIM DE UMA ERA
Finda a edição de 1961, Monsanto sofre uma significativa alteração. Passa a disputar-se na versão curta, amputado da descida para a recta da meta, descida para a auto-estrada e do troço da mesma. Um traçado mais fácil, com 2.730 m. A meta situa-se agora entre o cruzamento próximo ao restaurante de Montes Claros e a rotunda após o desvio vindo da auto-estrada. O traçado passa a circuito de Montes Claros. De 1962 a 1971, mantém-se um ponto alto do nosso automobilismo pela mão do Clube dos 100 à Hora. Tal como o ‘irmão’ mais longo, continua a ser uma escola para pilotos (debute do Troféu Datsun 1200, em 1971). Mas os gloriosos dias de Monsanto e Montes Claros estavam condenados pela construção do Autódromo do Estoril, cuja inauguração viria a ocorrer no Verão de 1972. Lisboa via acontecer o progresso mas acabaria despojada de um dos seus ex-libris. A capital animada ao sabor das corridas, os infindáveis cortejos de adeptos, o trepidar dos motores, a adrenalina ao rubro, a emoção à flor da pele, a multidão em delírio. Tudo se foi. Quando a bandeira de xadrez baixou pela última vez, silenciou centenas de troféus e coroas de louro. Os motores ‘calaram-se’ há muito mas ‘escutam-se’ ainda, no murmurejar das árvores, as multidões e os aplausos.
DITOS DE 1953
O argentino Froilan González espatifa o Lancia na curva próxima à da Pimenteira. A curva do acidente fica rotulada até 1971: Curva do González
Fernando de Mascarenhas espatifa o Ferrari. O público não perde pitada e dispara: Entradas “à Fangio”, saídas “à Mascarenhas”!
OS VENCEDORES
Vencedores da primeira edição, em 1953 (Monsanto): Felice Bonetto, D. Fernando de Mascarenhas (Marquês de Fronteira), Abílio Barros
Vencedores da última edição, em 1971 (Montes Claros): Jorge de Bragation, Christian Melville, Francisco Santos, Manuel Lopes Gião, António Portela de Morais.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.