Ele é um lutador – ergueu do nada um clube que é viveiro de craques e, mais importante, que permite a muitos jovens praticar desporto.
Nasceu há 75 anos na aldeia de Alcoentre, concelho da Azambuja. Era menino ainda quando veio para Lisboa trabalhar numa quinta. José Libório criou-se sozinho. Tal como praticamente sozinho – feito já construtor civil, um dos primeiros a chegar a Massamá, então vasto campo de trigo – criou o Real Sport Clube, em Queluz. Foi lá que o futebolista Nani, contratado pelo Manchester United, começou a dar pontapés na bola. O que fazer com o que o Real vai ganhar com a transferência do atleta – 1,275 mil euros? Gastá-lo no futebol é que não, garante José Libório.
Deve ser o sangue de construtor que corre nas veias do presidente do Real Sport Club a orientá-lo para as estruturas, os equipamentos, as instalações. Em síntese, para a obra, no sentido mais concreto, feito de tijolos e argamassa. O milhão de Nani já está destinado à construção de um novo estádio, o quarto, e um pavilhão. O que sobrar é “para melhorar a piscina”.
José Libório tem mãos de trabalho – calejadas, morenas. Parece um camponês. O Real é a terra que ao longo dos anos plantou e não lhe recusou os frutos. Pelas 17h00 de um qualquer dia de semana ouvem-se por todo o lado – na piscina, nos ginásios – vozes de crianças. Os olhos do homem que nunca foi menino iluminam-se quando passeia pelas largas instalações do RSC. “Temos aqui 16 modalidades, da pesca à natação, passando pelo futsal e o tiro com arco, com 600 praticantes.”
Já nas escolas de futebol estão “à volta de 650 miúdos”. Miúdos como Nani. José Libório lembra-se dele. “Tinha sete para oito anos e era um garoto muito simples. O irmão jogava cá futebol e ele vinha para brincar com a bola. Tinha jeito. Entrou nas escolas, depois nos Juvenis... Era muito bom. Eu já suspeitava que ia fugir de nós.”
Não foi o primeiro – também Jorge Andrade, agora no Deportivo da Corunha, por lá passou – nem será decerto o último. Há 200 crianças e jovens em lista de espera para o futebol. É a pensar nelas que José Libório pretende construir um quarto estádio. Todas frequentam o ensino regular e todas vão à mesma hora, ao fim da tarde, aos treinos. Os três existentes não dão vazão a tamanha e tão concentrada procura.
Não é que não se importe com a equipa principal de futebol do RSC, mas os sucessos não fazem José Libório vibrar a sério. Nem os desaires o fazem sofrer em demasia. “Perdemos com o Fátima e falhámos a subida à Liga de Honra. Se calhar foi melhor assim.” Que é como quem diz ‘mais tranquilidade fica para dar conta do que interessa’ – o desporto como parte da vida.
José Libório também praticou desporto. “Joguei à bola no Benfica e corri de bicicleta pelo Carnaxide.” Foi antes de deixar a agricultura para começar a trabalhar nas obras. Quando tinha 20 e poucos anos fez-se construtor civil. Constituiu família. “Faltava-me tempo para continuar a fazer desporto.” Instalou-se em Queluz e depois em Massamá. Muitos dos edifícios que ali surgiram foi ele quem os construiu. Mas a sua obra mais importante é, decerto, o Real.
FORAM PRECISOS DOIS PARA FAZER UM CLUBE COMO O REAL
Foi no dia 1 de Agosto de 1995 que o Grupo Desportivo de Queluz e o Clube Desportivo e Recreativo de Massamá se uniram para formar apenas um – o Real Sport Clube (RSC). (Em baixo publicamos uma fotografia de José Libório tirada logo após a fusão). “Fizemos um inquérito aos sócios [neste momento são cerca de oito mil] para que nos dissessem de que nome mais gostavam. Uma das sugestões foi “Real” por causa do Palácio Real de Queluz, aqui ao lado, e assim ficou”, conta José Libório, que, entre a direcção do Massamá e do RSC já conta 30 anos como dirigente desportivo. “O segredo, nomeadamente para equilibrar as contas, é não perder a cabeça com o futebol. Os clubes que têm futebol não devem gastar tudo nisso.”
- Um País... Portugal
- Uma pessoa... As que me tratam bem
- Um livro... Todos sobre desporto
- Uma música... Fado
- Um lema... Trabalho
- Um clube... Benfica
- Um prato... Cozido à portuguesa
- Um filme... Não tenho tempo para ir ao cinema
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