Cabelos e corpo. Ninguém pode ver e espreitar. Só os maridos. São mulheres que, por motivos religiosos, usam véus, lenços, turbantes, perucas, e roupa onde, para além de mãos e pés, nada mais se adivinha.
É difícil convencer alguém, que, por desculpas teológicas, recusa um flash fotográfico. Algumas mulheres discordaram no imediato. Outras, simpáticas, inventaram viagens para faltarem ao compromisso. Ainda houve quem quisesse deixar o testemunho via telefone. Os leitores merecem palavras com imagens. E se no início da rota jornalística, a reportagem parecia ser o título do filme de Brian de Palma, ‘Missão Impossível’ acabou por ser precisamente o oposto. Foi possível. Encontrámos a primeira mulher no único lugar em Lisboa onde a brisa faz braço-de-ferro com o calor. A mesquita.
O mercúrio marca trinta graus, mas a brisa não precisa de convite para entrar. É da família. No templo muçulmano não há ninguém que não conheça a ‘tia Aissa’. Senhora simpática, de voz carregada de sotaque arábico, nascida em Moçambique no ano em que terminou a Segunda Guerra Mundial. Talvez por isso não estima guerras. Fala de paz e amor com naturalidade. Aissa Ussene Mussagy , muçulmana, casada, mãe de cinco filhos, sempre quis cobrir a cabeça e tapar o corpo de alto a baixo, mas o destino só lhe concretizou o desejo há duas décadas. “Graças a Deus.” Alá quis que a mudança coincidisse com o tempo em que começou a leccionar o idioma árabe e o islamismo. A sua lógica dispensa intérpretes.
Um professor que ensina o Alcorão é o espelho do Livro Sagrado. “Para dar exemplo aos meus alunos decidi vestir-me desta maneira.” Lenço que lhe esconde as madeixas. Túnica de extensão que supera os pés, onde braços e pernas não se mostram. Os trajes são comprados em Meca e houve alturas em que era ela que fazia de modista. As mãos não querem falar e saber da moda. Sobem para agraciar de novo: “Graças a Deus que está escrito.” Os ensinamentos não mandam o recado por ninguém: o físico da mulher não é uma vitrina de exibição e deve estar resguardado dos mirones alheios. Os mexericos do Ocidente presumem que esta escolha surripia a beleza, mas Aissa, que nunca aplaudiu batons e decotes, enaltece a chave do segredo: “O que é bom é o que está escondido” – o bom, que ninguém vê, é um exclusivo do marido.
Quando o calor aperta não é a sede que desperta, mas o envoltório de tecido fresco. Mesmo que chovam malmequeres, Aissa não vai à praia. “Só entrei no mar uma vez”, em Maputo, perdeu o rasto da data, só recorda que o fato-de-banho lhe rasava os calcanhares.
Já ouviu. Frases que magoam. Há quem faça troça, porque parvos são do tipo do sarampo; propagam-se. Os 62 anos não ligam. “Não altero o meu dia--a-dia.” Sai e entra em casa sem que binóculos desconfiem de um poro. O lema adoptado merece propagação: ‘Respeita o islamismo e todas as religiões. A troca é conveniente’: “Quero que me respeitem.”
Os dez dedos dobram para discordar com a lei proclamada em França, em 2002, que proíbe educandos e docentes de ostentar símbolos religiosos nas escolas estatais. Se o prof. Cavaco Silva se lembrar de copiar a ideia voltará mais depressa para Boliqueime. Aissa daria aulas de Hijab – o véu islâmico. O problema, ou a culpa, não se abrevia ao país mentor que engendrou o que lhe repugna. “Elas estão erradas”, as moças que fizeram a vontade ao governo e arrancaram a tradição da cabeça. Inclusive, em Portugal, conhece gente que “tem medo e vergonha” e nos empregos não se veste como dita o Islão. Desconhece se é milagre, ou coisa do género: A professora já conseguiu que algumas discípulas mantivessem o mandamento. As mãos retomam a direcção do céu. Agradecem. E não só. Pede ao criador que ajude as criaturas que respingam com o véu: “Que Alá as perdoe. Elas estão cegas.”
Yalta Classen viu o judaísmo há bastante tempo, mas foi há cinco anos que se converteu. Pertence aos mitnagdim, um movimento judaico ortodoxo que rejeita o misticismo do Hassidismo. Em Brooklyn encontramos centenas de milhar, em Portugal, duas, talvez, três judias que partilhem o mesmo guarda-roupa. Saias largas e difusas para que não seja espiada uma única linha corpórea. Camisolas do tamanho do cotovelo com golas, preste, ao pescoço. Calças, never. “As mulheres não usam trajes masculinos.” Restam dois apetrechos para ocultar a mais pequena partícula do couro cabeludo. A peruca, que é apenas colocada no emprego, Observatório Europeu das Drogas e da Toxicodependência, por sentir que desta forma “as pessoas acham que eu sou mais profissional”. E a touca. Sempre negra. Aplicada a todas as outras ocasiões.
O chapéu foi um ensaio falhado. Um episódio no aeroporto fê-la desistir, quando um polícia lhe exigiu que tirasse o sombreio. “Eu devia ter pedido ao segurança para o tirar numa cabina isolada.” Mas os nervos não se lembraram.
Os cabelos, que arrastam a fama de chancela sexual, só podem ser deslumbrados pelo cônjuge e vistos por familiares. “É uma escolha, não é uma obrigação.” Impor ou inibir faz mal à democracia da religião de Moisés. Em consequência, desagradam-lhe, e bastante, os códigos regidos pela força. Yalta, 42 anos, alemã residente em Portugal desde 1999, casada, afirma com acento germano: “Não há razões rígidas que expliquem”, mas uma tradição assumida na Halacha (o conjunto de leis da religião judaica) que prevê que as senhoras casadas devem ter a cabeça revestida. Sim, mulheres de aliança no dedo, seguindo a suposição de que a virgindade só se despede no casamento. Fala de mera simbologia. Chama-lhe “honra”. Mas quem não se sente isolada por ser uma minoria nacional, e crê que o judaísmo não se resume à hora do serviço religioso, vai mais longe. “É uma identificação de ser judia.”
Caso menos feliz aconteceu-lhe numa consulta. O médico quando a viu de cabelos embrulhados num turbante escuro, “não me levou a sério”. O técnico de saúde não percebeu que a sua doente ao manter a cabeça tapada “uma parte integral de mim também se encontra coberta”.
Elas, por enquanto, e por iniciativa própria, decidiram só cobrir os cabelos adolescentes no Colégio Islâmico, em Palmela. Ajma Mahmadzakir, 17 anos, natural da Índia, e Ashiyna Aboobakar, 14 anos, portuguesa, ambas muçulmanas, soltam a frase ao mesmo compasso: “Sentimo-nos bem e melhor” de Hijab que não lhes camufla a juventude. Dá-lhes protecção. Tira-lhes o medo. Razões para não usarem o lenço “lá fora”, que são todos os lugares, sem serem mesquitas, recaem sobre a consciência do Islão. A garota indiana, que em três anos de vivência em Portugal já domina melhor o português do que bons letrados, está ciente de um facto: “O véu é para a vida inteira.” Não é uma brincadeira. Colocá-lo para, depois, o engavetar, seria absurdo completo.
O esmero da adolescência voa maduro e retrocede à manhã do 11 de Setembro de 2001. “Aquando do atentado, algumas pessoas chamaram-me talibã”. O véu, a identificação desconcertada do terrorismo, levou meia dúzia de ignorantes ao cúmulo numa paragem de autocarro. O tempo e o Islão ajudaram para que os palavrões já não saíssem da boca dos leigos. “As pessoas aprenderam que o islamismo é uma religião de paz e de tolerância.” E tolerância, avisa, foi exactamente o que faltou à França, pela já referida lei gaulesa: “Se deixam católicos usar uma cruz pequena, por que razões não permitem as muçulmanas de usar o véu e os judeus a kipá?”
O ex-presidente da república francesa não nos ouve em directo, mas ficaria surpreso se soubesse que a honestidade se fosse metal era de ouro: “Não sei se estou preparada para usar o véu na rua.” A preparação vem de dentro e não de fora. E o que os curiosos pensam, ou não pensam, sobre os seus cabelos soltos ou ocultados representa inanidade na sua decisão. “Não me importo nada” de não vestir tops de alças e mini-saia. Não é somente por naturalidade, mas um talhe de precaver o futuro. “Imagine duas laranjas”. Descascada. Com casca. A pergunta traz água no bico. Qual delas é que atrai mais? Até um moribundo prefere a fruta aberta. Pois é. Um erro do tamanho do Mundo. A metáfora ilustra duas mulheres. A vestida impõe respeito. A outra, mais ao léu, provoca gula nos olhos e a gulosice não induz só às diabetes, mas a “erros”.
Ashiyna está certa de que o dia da decisão chegará. Até lá, a certeza vive no Colégio Islâmico: “Só ponho o véu quando estou aqui” – no estabelecimento escolar de arquitectura moderna onde a liberdade é bem-vinda. A rapariga, a quem por livre vontade, desde os nove anos, nenhum colega e professor conhece o tom da franja, sente-se “confortável” de cabeça envolta na escola. Tal como a amiga, baptiza a sensação de salvaguarda. A questão de não andar de lenço na via pública não se prende aos comentários menos afectuosos, porque medo é um substantivo que não conta no seu dicionário. É mais. E mais profundo. “Ainda não me sinto intimamente preparada.” Sabe que o passo arrasta a duração da perpetuidade. Sabe também que esse simples jeito alterará a sua vida. “É uma iniciativa muito grande e muito importante para a nossa religião e para nós próprios.”
Monsieur Chirac terá os tímpanos a fermentar. A memória da adolescência não é raquítica. “Se querem respeito, pois que nos respeitem”. Os direitos humanos, a igualdade, não esquecendo a liberdade que não prejudica uma mosca, estão presentes no vocabulário e no coração de Ashiyna. O véu, e não importa qual seja a configuração que se apresente, está bem definido na sua verdade: “É parte integrante da minha cultura.”
YALTA USA CABELEIRA NO TRABALHO
Yalta nasceu na Alemanha em 1965, vive em Portugal há oito anos, trabalha no Observatório das Drogas e da Toxicodependência. Desde que se converteu ao judaísmo ortodoxo, em 1999, a sua cabeça nunca mais ficou descoberta. “É assim que me sinto judia”, revela.
No emprego prefere usar a peruca por sentir que inspira mais credibilidade ao olhar dos outros. Em casa, na sinagoga, em todos os outros locais do seu quotidiano, os seus cabelos escondem-se literalmente num lenço longo preto.
O marido e os familiares são os únicos que conhecem a cor, o tamanho e o estilo do seu penteado.
As suas roupas são invariáveis: longas e opacas. Sem obrigação, por livre vontade.
ALISA, A PROFESSORA DO ISLAMISMO
Apesar de sempre se ter vestido com roupas que se coadunam com a prática do Islão, foi somente em 1987, altura em que decidiu ser professora da língua árabe e da religião muçulmana que chegou a resolução de mudar por completo o seu visual. Crente e a transbordar fé, Aissa já ouviu comentários menos simpáticos por andar na rua de lenço na cabeça e com trajes que lhe chegam aos pés.
Adepta da liberdade de expressão de cada um, esta mulher de 62 anos, torceu o nariz à lei proclamada em França, em 2002, que proíbe muçulmanos e judeus de ostentarem os seus símbolos religiosos. Acredita que a forma para enfrentar este tipo de códigos está na mão das próprias muçulmanas.
“Não se pode ter vergonha daquilo em que acreditamos”. O que se pode fazer, adianta, é não tirar o véu, continuar a vestir as vestimentas referenciadas no Livro Sagrado: O Alcorão.
ASHIYNA, O VÉU COMO PROTECÇÃO
Tem 14 anos, nasceu em Lisboa, é muçulmana, estuda no Colégio Islâmico, o único lugar, à parte de mesquitas, onde Ashiyna coloca o véu na cabeça. A decisão foi exclusivamente da própria, e sente-se bem e protegida.
Não é por medo da reacção alheia que na via pública não usa o lenço. Mas somente por ainda não estar interiormente preparada para um passo que, segundo Ashiyna, será para a vida inteira.
Garante que a sua adoles-cência não fica privada com a escolha que já fez: roupas que não marcam o corpo. Contra a lei francesa, denominada ‘Lei do Véu’, esta jovem não se esqueceu de mencionar os Direitos Humanos, lembrar os valores da liberdade e igualdade que são, definitivamente, inerentes a todos os seres humanos.
AJMA, UMA INDIANA EM PORTUGAL
Ajma Mahmadzakir, 17 anos, natural da Índia, e apesar de viver em Portugal desde 2004, domina na perfeição o português. Pelas mesmas razões apontadas pela colega, só usa o véu enquanto está no Colégio Islâmico.
“É errado confundir o terrorismo com o Islão”, diz a jovem, recordando que, dias após o atentado do 11 de Setembro de 2001, numa paragem de autocarro foi chamada de talibã.
HIJAB - VÉU ISLÂMICO
Pode ser o lenço que cobre a cabeça ou o véu que tapa o rosto. As razões? Respeito e a fuga ao assédio. Baseadas em diferentes interpretações do Alcorão, há duas correntes que definem qual o tipo adequado. Uma, ligada ao período da revelação corânica, permite à mulher mostrar a cara. A outra, mais ortodoxa, segundo a qual só o marido lhe vê o rosto. Sobre a Jalabib (roupa), ambas convergem: a mulher deve vestir-se igual à época de Maomé: vestidos longos, largos e sem recortes.
Quantos mulçumanos e quantos judeus existem em Portugal e no Mundo? No nosso país, a população que professa a religião de Alá é a mais significativa.
1800 Número de judeus residentes em Portugal, a maioria concetrada em Lisboa e Belmonte.
12 Milhões de judeus existem em todo o Mundo. A maioria está concentrada nos EUA e em Israel.
30 a 35 mil é a estimativa para os mulçumanos a viver em Portugal, a maioria na Grande Lisboa.
184 Milhões residem na Indonésia a maior comunidade mulçumana no Mundo, onde se estima que vivam 1 206 575
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