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O CRAQUE DO PINHAL NOVO

Aos 36 anos, Jorge Cadete é a grande esperança do Pinhalnovense. E pode voltar a fazer História se marcar golos contra o Leça, o próximo adversário na Taça de Portugal

14 de novembro de 2004 às 00:00

No bar do estádio, três sócios sentados a beber imperiais não tiram os olhos do jornal desportivo. O clube da terra era notícia: goleara o Loures para a Taça de Portugal por 4-1. “Agora pode até vir o Benfica. Temos cá o Cadete”, gracejam os velhotes com bazófia antes de darem mais um gole de cerveja.

O riso dos reformados não se ouve no departamento médico, onde o herói desse jogo, deitado numa maca, faz esgares de dor. O massagista esfrega-lhe a coxa com lubrificante: “Não devias treinar esta manhã”, adverte. O atleta sorri, em esforço: “Isto passa, vou só correr um bocado”, responde antes de sair a coxear para o campo, onde os colegas fazem os primeiros exercícios matinais. O terapeuta arruma a toalha e abana a cabeça: “Eles nunca me ouvem…”.

Aos 36 anos, o futebolista de cabelos loiros compridos aplica-se como um miúdo de vinte, fazendo orelhas moucas ao massagista: toques com a bola, alongamentos, corridas... Os remates à baliza é que não lhe saem tão bem como no jogo contra o Loures. Ninguém se importa muito com isso. Ainda estão todos embriagados com os seus golos da semana anterior.

“Estava sentado no banco de suplentes. O jogo estava a 15 minutos do fim quando o Paco me mandou aquecer. Nem o avisei que me doía a perna”, relembra o avançado com um brilho infantil nos olhos. “Quando entrei em campo, as dores desapareceram como por magia. Troquei umas bolas e lá fiz o gosto ao pé.”

Tão simples como saltar à corda. O Pinhalnovense passou à fase seguinte da Taça de Portugal e ele voltou a ter motivos para sorrir: “Não marcava dois golos numa só partida desde os tempos em que jogava no Celtic. Já lá vão quase dez anos”, recorda.

audis e meias rotas As bancadas centrais do estádio precisam urgentemente de ser pintadas, a relva é sintética e os balneários acanhados. Para quem já teve direito a um cântico de adeptos, foi Bota de Ouro e jogou em Espanha e Itália, o clube da II Divisão B significa o fim da linha? “Não me sinto amargurado por estar em Pinhal Novo”, garante. “É a jogar futebol que me divirto. Como o clube fica a três minutos de casa e é orientado pelo Paco, um grande amigo meu, nem hesitei quando me convidaram”, argumenta pouco depois de sair do balneário com o cabelo a pingar.

Para já, a prioridade vai para a sua Academia, onde dá aulas de futebol a miúdos de dez anos, mas se as coisas correrem bem, quer voltar à I Divisão “A idade não é condicionante. O Donato do Deportivo da Corunha jogou na Liga dos Campeões aos 40 anos. Por que não posso sonhar?”

Até agora, o maior problema foi o de adaptação a um futebol muito viril, de pontapé para a frente. “É difícil para os atletas desta liga voarem para longe porque se acabam por acomodar à mentalidade de meia bola e força”, sentencia. “Mas em Pinhal Novo há jogadores que poderiam estar em clubes grandes.”

A sua experiência em palcos mais nobres tem servido para galvanizar o balneário e explicar aos dirigentes que nem sempre é no poupar que está o ganho. “É inadmissível que um clube como o Pinhalnovense deixe que os seus atletas joguem de meias rotas e esfareladas. A fricção da bota com a pele vai fazer bolhas. E se há bolhas, o jogador não pode jogar no dia seguinte. Quem perde? O clube.”

Estranhamente, o parque automóvel é de luxo para um clube tão modesto: um Audi, um BMW, um Jeep estão estacionados atrás de uma das balizas. O Pinhalnovense apostou forte esta época. Para além de Cadete, “Fusco”, que veio do Beira-Mar, e Paco Fortes, o treinador espanhol que orientou o Farense, são as outras estrelas da companhia. “Comigo não gastam dinheiro. Sou cem por cento amador. Só recebo os prémios de jogo”, afiança o atleta, antes de rodar a chave na ignição do Mercedes e arrancar do estádio com algum estardalhaço.

O MAL-AMADO

Paramos na Lagoinha, onde vive há doze anos, para dar boleia à namorada, Nicole, cantora e uma das Tentações – uma ‘girls band’ de sucesso tão meteórico como efémero. Seguimos até ao ‘shopping’ do Montijo, onde os dois costumam passar as tardes às compras ou a comer pizzas. Cadete e Nicole conheceram-se no ‘Big Brother Famosos’, há dois anos e dizem-se apaixonados como no primeiro minuto.

O atleta não se arrepende da experiência na televisão, embora a sua vida pessoal tenha sido devassada de alto a baixo. “Fui muito prejudicado. Escreveram que tinha um grave problema de pele. E fartaram-se de especular sobre a pensão de alimentos da minha filha. Ainda pensei em processar algumas revistas, mas desisti. Ia dar-lhes demasiada importância.”

Quanto a Nicole, ‘reality shows’ nunca mais: “Fui para a Venda do Pinheiro pelo dinheiro e lá conheci o amor da minha vida, mas o ‘Big Brother’ é muito desgastante e dá cabo da nossa privacidade.”

Ambos têm uma suspeita: os resultados foram manipulados pela produção. “Tenho a certeza que desviaram as chamadas telefónicas na votação das expulsões do Cadete”, declara a artista.

O casal é alvo de olhares avaliadores pela legião de famílias consumistas do ‘shopping’. Mas ninguém os aborda directamente. “A fama não me faz confusão. Já estou habituado que nos bons momentos me dêem palmadinhas e nos maus me critiquem pelas costas”, ironiza o rapaz nascido há 36 anos em Moçambique. Talvez por isso conta pelos dedos das mãos os amigos no meio futebolístico. “É difícil fazer amizades entre pessoas que disputam o mesmo lugar. Além disso, mudamos de clube todas as épocas...”

Quanto a ódios de estimação, eles multiplicam-se. “Fui perseguido por muitos dirigentes e treinadores”, queixa-se. Carlos Queirós lidera o ‘ranking’ de mal-amados. “Fiquei com a fama de mau-da-fita por causa desse senhor.” Porquê? “Sou frontal. Nunca deixo nada por dizer”, admite. “E há quem não goste.”

A relação entre eles azedou quando Queirós aterrou em Alvalade, em Dezembro de 1993. “Depois de um jogo contra o Beira-Mar, avisei-o de que ia fazer uma dedicatória a Bobby Robson (o treinador despedido). O ‘mister’ disse-me que achava o gesto bonito. A partir desse dia, perseguiu-me, inexplicavelmente. Talvez por eu ser amigo do Sousa Cintra, não sei...”

Nos meses que se seguiram, o capitão leonino passou mais tempo no banco do que no relvado, apesar de ter sido o melhor marcador em 1993. “Queirós era uma pessoa fria. Foi o único treinador que me mandou para o balneário mais cedo num treino.” Ninguém se admirou que em 1996 rescindisse o contrato com o clube do coração, rumando até à Escócia para o Celtic de Glasgow.

DE BESTIAL A BESTA

Na pizzaria, Cadete revela-se um bom garfo, Nicole nem por isso. O atleta tornou-se fã de comida italiana quando jogava no Celtic. “Sempre que comia uma pizza antes de um jogo marcava um golo”, recorda.

Em Glasgow a sua auto-estima subiu em flecha. “Uma semana depois de lá estar, dedicaram-me uma canção.” Ainda se recorda da letra: ‘There’s Only One Jorge Cadete / He puts the ball in the net / His Portuguese and he scores with ease / Walking in Cadete Wonderland’ (’Só há um Jorge Cadete/ Ele põe a bola no fundo da baliza/ É português e marca facilmente/ Passeando no seu país das maravilhas’). Cada vez que os 50 mil espectadores a cantavam em uníssono no Celtic Park ele ficava com pele de galinha. “Fui o primeiro português a ser melhor marcador num campeonato estrangeiro.”

Nem tudo foram glórias na Escócia, onde foi vítima de racismo por parte de dirigentes. “Os jogadores estrangeiros do clube eram tratados abaixo de cão. O presidente passava a vida a prometer-nos aumentar o salário. Tudo mentira.” Bateu com a porta mais uma vez, zangado.

Nos anos que se seguiram, as decepções acumularam-se: em Vigo não fez história. No Benfica não tinha lugar no onze de Graeme Souness. “Ele foi dizer aos jornais que não me conhecia de lado nenhum. Achei muito esquisito porque ele havia treinado o Glasgow Rangers (rival do Celtic) no ano em que fui melhor marcador do campeonato escocês.”

Em vez de Cadete, alinhava Dean Saunders, avançado que Souness trouxera de Inglaterra. “Não marcava mas jogava sempre.” Estranho? “Não. O futebol é uma indústria e traz para o meio pessoas sem escrúpulos. Há dinheiro a circular não se sabe bem para onde.” As palavras têm um tom amargo mas conformado.

Acabou por ser emprestado para o Estrela da Amadora, mas raramente jogava. “A equipa era feita por dirigentes que também eram empresários de certos jogadores.” Desiludido com o futebol, decide fazer uma pausa. “Ponderei mesmo a hipótese de desistir. No entanto, uma homenagem que me fizeram em Glasgow, há poucos meses, deu-me ‘pica’ para voltar aos relvados.”

MUSA INSPIRADORA

Regressamos ao estádio do Pinhalnovense, onde Paco Fortes discute com um dirigente as tricas do momento. Alheio à conversa, Cadete recorda os tempos de menino, em que jogava à bola numa aldeia perto de Santarém: “Só queria estar na rua, a fazer fintas e golos”.

Quando o Sporting o convidou para ir para Lisboa, nem hesitou. “Sempre tive espírito de independência. A cidade não me metia medo.” A avó materna – que aos 99 anos ainda trata sozinha das couves e criação – sempre foi a sua musa: “Inspirei-me nela quando saí de casa aos 15 anos para jogar futebol”.

Embora tenha deixado para trás os pais e duas irmãs, Cadete não cortou o cordão umbilical com o passado. Hoje, a mãe, Fernanda, gere um dos seus negócios: um canil com cães de raça Pinscher. O pai, António, com problemas de saúde, continua a trabalhar na horta. “Fui muito criticado por deixar que os meus pais trabalhassem, sendo uma pessoa famosa. Mas a vida de futebolista tem uma duração limitada. Não me podia dar a esse luxo.”

De onde vêem então os rendimentos? Para além da Academia e do canil, Cadete é dono de uma produtora e fez um contrato exclusivo com uma marca desportiva. “Talvez por ingenuidade ou por não ser muito reivindicativo, nem nos clubes grandes tive salários milionários.” Em 1987, na sua primeira época como sénior no Sporting ganhava 72 contos. Cinco anos depois, quando foi o melhor marcador, o salário era de 1100 contos. “Não era tanto como isso.”

O jogador sabe que poderia ter chegado ao céu, mas no futebol é preciso não só ter perícia para fintar adversários mas também não tropeçar nas armadilhas. “Nem sempre vai mais longe quem joga melhor.”

Paco Fortes apita para os pupilos. Tínhamos que o deixar ir para o treino da tarde: “Aos poucos vou ganhando confiança”, diz, como se fosse uma jovem promessa. A 12 de Janeiro o Pinhalnovense vai defrontar o Leça, da III Divisão, para a Taça de Portugal. Será que Cadete vai repetir a façanha e marcar dois golos de rajada?

Em 1989, a selecção nacional de sub-20, foi campeã do mundo em Riade. Dos 18 jogadores a maioria passou ao lado de uma promissora carreira. O guarda-redes Brassard arrumou as luvas aos 29 anos. Hoje é treinador nacional de guarda-redes. Valido e Amaral estão no Beira-Mar de Monte Gordo da III Divisão, bem como Luís Carlos que também jogou na Luz. Paulo Madeira abandonou o futebol aos 34 anos e trabalha como empresário. E Bizarro foi dispensado pelo Leixões no ano passado.

Dos campeões do mundo de 1991 de Lisboa, Peixe passou pelos três grandes, mas não fez História. Cao jogou no Felgueiras, da II Liga, Paulo Torres saiu do Sporting para o Penafiel e acabou no Imortal de Albufeira, onde foi dispensado. Rui Bento arrumou as botas aos 32 anos e é treinador-jogador do Académico de Viseu, da II Divisão B.

Jorge Paulo Cadete Santos Reis nasceu em Porto Amélia, em Moçambique, a 27 de Agosto de 1968. Em 1976 veio para Portugal. Começou a jogar à bola na Associação Académica de Santarém, em 1983. Foi no Sporting que se notabilizou: na época 92/93 marcou 19 golos. No Celtic, marcou 33 golos em 96/97: o seu melhor ano.

No total, marcou 105 golos só em campeonatos nacionais. O mais saboroso? “O de calcanhar contra o Beira-Mar, em 92/93, no Sporting.”

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