Cartas anónimas de mal dizer puseram famílias inteiras de Vitorino das Donas em polvorosa. Mas o ‘trombeteiro’foi vítima das próprias provocações.
Depois de dezenas de cartas anónimas de mal dizer, que puseram a freguesia à beira de um ataque de nervos, caiu nas malhas da justiça. E foi condenado em Tribunal. A população, fortemente marcada pelo escárnio e pelas difamações, quer agora enterrar o assunto. “Para iludir a memória”, dizem eles. No entanto, deixam desde já o aviso : “Há coisas que não têm perdão”. Só que o ‘trombeteiro’ ameaça sacar de novo da ‘caneta’ venenosa. Os próximos episódios, bem mais vingativos e “ressabiados”, seguem dentro de momentos.
A freguesia de Vitorino das Donas, no concelho de Ponte de Lima , parece transportar o medo colado à pele. E nem a satisfação pela descoberta da identidade do ‘trombeteiro’ e a pesada condenação judicial de que foi alvo, parecem aliviar a tensão. “O povo nunca esquece. Há coisas que ficam para toda a vida, por mais mentira que seja”, afirma um sexagenário do alto dos seus cabelos brancos. Tal como ele, todos juram a pés juntos que “era tudo mentira, pura invenção”. Tal como ele, ninguém duvida que “o bichinho da desconfiança ninguém o apaga”.
Autor de um rol infindável de acusações que, durante anos, fez abalar relações entre casais e amigos de quase toda a freguesia, Manuel Ribeiro da Costa, de 39 anos, foi condenado a dois anos de prisão efectiva e a pagar um total de 24 mil euros de indemnização a nove queixosos. “Foi a sorte dele, serem apenas alguns a irem para a frente com o processo, porque mais de metade da freguesia levou na cabeça”, comentou o mecânico José Fontes, um dos principais alvos das cartas anónimas.
Agora, o mecânico diz que não quer falar mais no assunto. “Isso agora está enterrado”, argumenta. Chega mesmo a pedir para não abordar a questão mas, depois de iniciada a conversa, a indisfarçável tensão não lhe permite travar o desabafo da fúria interior. A revolta de José Fontes é tal que está mesmo disposto a abdicar da indemnização que lhe foi atribuída pelo tribunal. Só coloca uma condição: “se em troca ele tiver que passar mais um ano na cadeia”. “Gastei muito dinheiro, mas cheguei lá”, afirma o mecânico, dando conta que o grande objectivo era mesmo identificar o autor das mentiras.
Por mais dias que viva, José Fontes nunca irá esquecer o pesadelo que lhe chegava pelo correio .“Esse ordinário, pôs-me muitas noites sem dormir e até amigos perdi, porque os pus fora da porta e também passei a desconfiar deles, quando me pediam para não gastar tempo, nem dinheiro com isto, muito menos com tribunais”, confessa amargurado. Era um ambiente de cortar à faca que contagiou a sua vida familiar. “Foi complicado”, começa por desabafar. Dito isto acrescenta: “Eu sei com quem casei, mas era terrível encarar com aquelas invenções todas… a minha mulher ainda hoje toma antidepressivos”.
Verdade seja dita o ‘trombeteiro’ não era nada meigo quando se referia ao mecânico de Vitorino das Donas –“O maior filho da p. que casou em Vitorino das Donas”, foi apenas um dos mimos com que o brindou. Mas o mais grave é que até a paternidade da filha José Fontes viu ser posta em causa.
A sua vida virou um inferno. “Nem em casa parava; andava sempre com uma caçadeira no carro e cheguei a pedir à mulher para se divorciar e punha tudo em nome dela, para resolver a questão de uma vez”, afirma. E garante que “se tivesse 18 anos e sem qualquer responsabilidade, ele nem a tribunal ia”. Por agora, mostra-se satisfeito com a condenação judicial, mas lá vai deixando escapar que “o mais certo, é as coisas não ficarem por aqui”.
'FEITIÇO CONTRA FEITICEIRO'
O ‘trombeteiro’ tem-se mantido na sua habitação em Vitorino das Donas, mas com o barraco da venda de brindes fechado. Também não quer conversa, mas já avisou alguns populares que vai voltar à carga com cartas, ainda mais mordazes. “Provavelmente, será uma versão ‘ressabiada’, para servir como vingança pela condenação que sofreu, mas agora as pessoas já sabem quem é e os efeitos já não são os mesmos”, comentou um morador de Vitorino das Donas.“Sabe que quanto mais se mexe na porcaria, mais ela fede, por isso, o melhor não dar muita importância ao assunto”, acrescentou este homem que também sofreu “muito” e teve muitos problemas em casa, com a mulher e uma filha de 20 anos.
PROVOCAÇÃO FATAL
O ‘trombeteiro’ acabou por ser descoberto depois de estampar uma série de chapéus com a pergunta provocatória: ‘Quem é o trombeteiro?’. Ostentava mesmo um na cabeça e fez a distribuição de exemplares num café da freguesia vizinha de Geraz. Na investigação provocada pela série de queixas no Ministério Público, foi possível encontrar na casa de Manuel Costa 32 selos de correio da mesma série utilizada nas cartas anónimas. Os testes periciais efectuados a diversas missivas do ‘trombeteiro’ – incluindo exposições apresentadas em Tribunal e uma denúncia apresentada nas Finanças contra o mecânico José Fontes – acabaram por reforçar o rol de provas condenatórias. Foi condenado a 18 de Janeiro último.
EM SITUAÇÃO COMPLICADA
A condenação veio piorar ainda mais a situação demasiado grave em que se encontrava Manuel Ribeiro da Costa. É que o negócio da construção civil faliu. Na ressaca do fracasso, decidiu instalar-se como empresário do sector da publicidade e comercializar brindes. A experiência não correu melhor. Os problemas em tribunal avolumam-se e chegou a perder a casa, vendida em hasta pública pelo tribunal, para saldar dívidas. “Quem a comprou, nunca lá conseguiu pôr os pés, porque ele engendrou uma história completamente inventada: alegou que construiu a casa num terreno dos pais e à revelia destes e dos irmãos, quando tinham ido todos para a Espanha, durante três meses”, revelou José Fontes.
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