page view

O filho de Salazar

FOI MOTORISTA DO POLÍTICO Basílio Horta. Conhece bem a época agitada do 25 de Novembro de 1975. Sabe muito bem o que os “malandros andaram por aí a fazer.” Percorreu Portugal de uma ponta até à outra. Conduzia o patrão que ia para sessões de esclarecimento.

05 de março de 2006 às 00:00

Muitas vezes o carro passava por debaixo de chuva de pedras, “graças a deus sem pontaria.” Quando o Governo chamou pelo chefe passou a conduzir o prof. Freitas do Amaral. A coisa azedou no dia em que transportava a esposa do actual ministro dos Negócios Estrangeiros. Um percalço rodoviário “que eu não tive nenhuma culpa” fez içar a voz da senhora. Ele não gostou muito da ária. Resultado: foi para o Largo do Caldas e esteve ao serviço de Miguel Anacoreta. Depois, quis construir vida. Vendeu um terreno que tinha na terra, a célebre Aljubarrota, e comprou um táxi.

“SABE? NEM ERA PRECISO TER existido o 25 de Abril de 1974.” Essa agora. Diga porquê. Ele diz de uma enfiada: era uma questão de transição. “Salazar foi pai.” Pai? Nem teve filhos. Pai. Ouvi bem. Construiu o futuro. E o Marcelo Caetano preparou-nos para o futuro. Mas que lindos pares de jarras, penso para dentro. Ele fala para fora: deu reforma às empregadas domésticas e aos agricultores, inventou o décimo terceiro mês. Suponho que o Marcelo tenha sido o filho. Um filho que não quis ser enterrado na terra do progenitor virtual. “E fez ele senão bem. Portugal tratou-o mal.” Já que fala em tratar mal, e a PIDE? Falei de um ovni. Nunca ouviu falar de tal coisa. Essa agora. E as pessoas que estiveram presas?

RESPOSTA 'TUTTI FRUTI': se estiveram é porque andavam na malandragem. Ainda hoje tem o tique que aprendeu no Estado Novo. Não mete conversa com ninguém. Só responde a quem o aborda.

“Sabe. O 25 de Abril de 1974 só fez bem à barriga de alguns.” Já agora queria saber quais foram os políticos que ficaram obesos com a revolução dos cravos. “Mário Soares”, e um sorriso seco. Posso escrever? “Pode e deve.” Há mais? “Ah quer mais...” Pois quero. Mas, mudemos de assunto. Propõe falar de traidores. E quem é traidor? “Freitas do Amaral”, e o sorriso estica. Saiu de um partido de direita para se enfiar no Partido Socialista. E que mal há nisso? Ele explica, ainda com paciência: “Uma pessoa que é cristã não pode namorar a esquerda. Não são eles que dizem que não há religião, que Jesus Cristo não existiu e que a fé é uma treta?” Tenho na manga Dom Manuel, ex-bispo de Setúbal, homem conotado por ser o ‘bispo vermelho’. “Não deve ser comunista. É um engano. Quem é cristão nunca pode ser comunista.”

Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?

Envie para geral@cmjornal.pt

o que achou desta notícia?

concordam consigo

Logo CM

Newsletter - Exclusivos

As suas notícias acompanhadas ao detalhe.

Mais Lidas

Ouça a Correio da Manhã Rádio nas frequências - Lisboa 90.4 // Porto 94.8