Filomena Teixeira não desiste de encontrar Rui Pedro, desaparecido há 15 anos, em Lousada.
Quando Filomena sonha com o filho - o que acontece "na maioria das noites" -, ele não é a criança de onze anos que era quando desapareceu, nem o adulto que será agora, de 26, se estiver vivo. Sente "que é ele" e isso basta-lhe para continuar uma luta que dura há tempo demais para o coração de qualquer mãe. A 4 de março de 1998, Filomena Teixeira viu o filho pela última vez. A 4 de março de 2013, teve a primeira razão para sorrir desde há quinze anos: Afonso Dias, o principal suspeito do rapto da criança de Lousada, foi condenado a três anos e meio de prisão efetiva pela Relação do Porto.
"É o início de uma nova etapa. Podemos finalmente saber o que aconteceu ao nosso filho. Uma coisa é certa: nunca vou baixar os braços, só se morrer. Guardo todas as notícias que saem sobre o Pedro para que no dia em que ele regressar possa ver que nunca desistimos dele", partilha. Filomena é hoje uma sombra do que era antes do dia que lhe alterou a história. "Há uma parte de mim que também desapareceu há quinze anos, que não existe desde então, que está à espera que o Pedro volte para voltar com ele." Filomena repete a expressão ‘quando ele voltar' a cada nova frase, como se renovasse a esperança de cada vez que a diz. No quarto do filho, que mantém com as coisas de criança que ele deixou - "não mexi em nada, tem os brinquedos, as roupas, as fotografias" -, encontra alguma paz para ‘falar' com o filho adulto que espera, um dia, lhe bata à porta de casa para ficar. "Só vou querer que ele me abrace com força e me pegue ao colo quando chegar. Como já é grande vai ter força para isso" - diz, e quase lhe vemos um sorriso.
Um filme mau
"Nos casos de desaparecimento, ao contrário daqueles em que a morte é uma certeza, os pais sentem-se como se estivessem permanentemente dentro de um filme de que não sabem o fim. Às tantas já não sabem se é um sonho ou se é real, de cada vez que acordam ou se deitam acreditam que vão ter uma surpresa positiva, que aquele é o dia em que o filho vai voltar. Porque estes pais acreditam que o filho está vivo, mas ao mesmo tempo não conseguem ter elementos que garantam esta quase certeza", considera o psicólogo clínico Carlos Céu e Silva. "Ao mesmo tempo sentem-se órfãos, roubados pela vida, pelos próximos, por uma sociedade injusta e implacável que não soube fazer justiça. Os pais desaparecem quando desaparecem os filhos. A mãe do Rui Pedro sente que não pode morrer sem saber o que aconteceu ao filho, é como um alimento para continuar viva e não baixar os braços", acredita o especialista em temas ligados ao luto, coordenador técnico da associação A Nossa Âncora. "Nunca passei por essa situação. É muito diferente um filho morrer ou desaparecer. Mas penso que as penas vivas são muito piores do que as penas mortas, e imagino que deve ser terrível não saber se um filho está vivo ou morto", partilha a fundadora e ex-presidente da mesma associação, Maria Emília Pires, que perdeu uma filha num acidente de automóvel.
"Quando um filho morre, é como quem espeta uma faca num porco e ele sangra, sangra muito. Para nós não é uma faca, é um serrote, que todos os dias vai para lá e vem para cá. Nós não sabemos o que aconteceu ao nosso filho e só vamos parar quando soubermos. Temos momentos em que estamos muito em baixo, mas logo a seguir levantamo-nos e continuamos", conta o pai, Manuel Mendonça. Pela casa - "na sala, nos quartos, na cozinha e até nas casas de banho" - há fotografias dos onze anos de vida de Rui Pedro junto dos seus. "Vamos buscar força um ao outro e à nossa filha Carina, de 23 anos, que é uma menina maravilhosa, que desde muito pequena teve de lidar com esta ausência e com a nossa luta. Muitas vezes não lhe demos a atenção e o apoio que ela merecia."
Falta do corpo
A presidente da associação Perdas e Afetos, Lúcia Ferreira, fez uma dissertação de mestrado sobre o luto perante a ausência de cadáver, com base na tragédia de Entre-os-Rios. "É um luto muito semelhante ao das crianças desaparecidas, com a diferença de que quando existem tragédias, ao fim de algum tempo passa-se uma certidão de óbito, no caso dos desaparecimentos não. Quando há um corpo que permite fazer os rituais fúnebres, a pessoa sabe que o seu ente querido está ali. 98% das pessoas com quem falei disseram ter sido importante terem realizado a cerimónia para terem a certeza da morte e aceitarem a realidade da perda, enquanto 95% daqueles que não tiveram oportunidade de se despedir ainda se encontram, doze anos depois da queda da ponte, num processo de luto complicado."
"O ímpeto primário de todos os pais é salvar o filho que está em perigo e esse instinto mantém-se quando não houve confronto com o cadáver. Para um pai ou uma mãe que perde um filho nestas circunstâncias, a não-aceitação é permanente, porque na realidade ele não morreu no coração e na cabeça das pessoas e, portanto, todos os indícios sobre a possibilidade de estar vivo são hipervalorizados. Aceitar que ele não está vivo equivale a recusar ajudá-lo. No limite, é imperioso fazer justiça àquele crime", explica o psicólogo José Carlos Garrucho. "Perder alguém que não se sabe se está vivo ou morto é muito pior porque o processo de luto não pode ser iniciado, ou está constantemente a ser iniciado, porque coexiste a esperança de o voltar a ver. É uma ambivalência terrível", acrescenta.
"Têm sido quinze anos de incerteza e de dor, muito difíceis. Aconteceu-nos uma coisa terrível que não se apaga, nenhum pai devia passar por isto", concorda Manuel. No dia em que desapareceu, Rui Pedro pegou na bicicleta depois de almoçar e passou no escritório da mãe, que ficava em frente à casa onde moravam, pedindo-lhe autorização para sair de carro com Afonso Dias, então com 22 anos, agora condenado. A mãe recusou o pedido e disse-lhe para ir brincar com a bicicleta para um terreno baldio ali ao lado, de onde o conseguia ver da janela. Aquela quarta-feira foi a última vez que o viu. Pensa-se que a criança terá sido aliciada para o encontro com uma prostituta, que sempre confirmou a história. Ao longo dos anos, o caso foi e veio, a reboque de outros desaparecimentos e de imagens daqui e dali que se associavam a Rui Pedro, mas que nunca trouxeram nada mais do que ténues esperanças.
O procurador Vítor Magalhães confessou em tribunal, em maio de 2011, durante o debate instrutório do processo, que as investigações ao caso Rui Pedro, em 1998, "decorreram com ansiedade", prevalecendo os sentimentos de "frustração e angústia" nos que trabalharam no processo. Em 2004, uma segunda brigada da PJ retomou a investigação do desaparecimento, fazendo uma primeira reconstituição dos factos, e em 2008 entra em ação uma terceira brigada, criando pela primeira vez uma equipa específica para lidar com o caso.
Ao longo dos anos, Portugal foi acompanhando a dor desta família, as lágrimas de uma mãe que ora definhava ora se levantava para mostrar que não desiste. "Como estás? Que transformações sofreste? Cresceste muito?", questiona Filomena num blogue criado para o filho. Tudo perguntas que repete e para as quais espera encontrar resposta em breve, com a condenação de Afonso Dias. "Sinto-me agora mais perto dele. Sei que está um homem, como os primos e os amigos que deixou em 1998."
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