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O fim da civilização no Alto Minho

“Abstenho-me, em geral, de comentar ‘certezas absolutas’ que o tempo, com vagar, se encarregará de desmentir”

20 de janeiro de 2013 às 15:00

Apercebi-me, com preocupação, de que a minha sobrinha Maria Luísa considera a hipótese de "a civilização" estar a desaparecer. Atribuo o pessimismo a demasiadas declarações do dr. Soares, além de estarmos a atravessar uma estação do ano que não favorece os temperamentos mais entusiastas. A ideia de que "a civilização" tal como a conhecemos está a desaparecer sob uma chuva de ataques dos governos actuais, de mãos dadas com a perfídia do capitalismo em geral, parece-me manifestamente exagerada para quem atravessou duas ou três guerras, crises demográficas, epidemias, vagas de fome e de pobreza extrema e, sobretudo, décadas de infortúnio e insegurança. Abstenho-me, em geral, de comentar "certezas absolutas" e declarações que o tempo, com vagar, se encarregará de desmentir.

Tentando minimizar o seu estado de alma, lembrei que "o problema" é que se vive hoje sob o efeito de uma velocidade que exige mudanças permanentes, alterações constantes, novidades diárias – e que uma pequena notícia, qualquer que ela seja, é ampliada pela internet com efeitos devastadores, comentada por profissionais da catástrofe e, sobretudo, por pessoas que não consultam um simples manual de História. A eleitora esquerdista da família, num inesperado arroubo de vencida da vida, supôs por instantes que eu, um velho eleitor minhoto, era agora um adepto da censura:

"E o tio quer calar toda a gente?" Precisamente, lembrei que uma das desvantagens do nosso tempo – a velocidade – tinha como efeito benéfico o abandonarem-se depressa as estultícias do presente; daqui a um par de anos, outras substituirão as de agora, e supõe-se que com algum proveito – e, portanto, "calar toda a gente" foi sempre uma medida desnecessária.

O tempo demora a passar e é cruel. "A civilização" é obra de séculos e, felizmente, não há só uma, como aprendeu com felicidade o Tio Alberto, gastrónomo e bibliófilo de São Pedro de Arcos, que descobriu a paixão da sua vida nas margens do Cáspio; por causa disso, tentou aprender persa – mas era fraco para o desenho, ou seja, tinha a mão treinada para outra "civilização". Já o dr. Afonso Costa, como lembrava a Tia Benedita durante os seus arroubos de ultramontana resignada (viveu quase toda a vida refugiada no perímetro do velho casarão de Ponte de Lima), acreditava que em duas gerações acabava com a religião. O velho Doutor Homem, meu pai, sorria aos seus receios; e trinta anos depois da morte do demagogo, a Tia Benedita ainda rezava o terço. A civilização mantinha os seus pobres pilares.

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