Memórias de um ícone de Lisboa que não sobreviveu aos novos senhorios espanhóis.
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Ao balcão da Suíça, na última semana:
— É mesmo verdade que vai fechar?
— É sim, senhor - responde Virgínia, do balcão.
— E quando reabre?... O senhor Roxo está?
— Está para chegar.
Aproximam-se as 15h30 e o ambiente depois do almoço é dececionantemente calmo. A esplanada para o Rossio está composta, mas não é difícil arranjar mesa. Na sala vazia até à chegada dos repórteres da Domingo – espera-se pelo senhor Luís, o sócio gerente que um dos empregados não se atrevera a "incomodar" com a insistência de uma chamada. "Uma colega viu-o sair." Foi almoçar. Acercam-se do balcão de Virgínia os poucos clientes que antes sobravam em pedidos avantajados, agora quase todos com perguntas sobre o fim anunciado da pastelaria que já foi um dos símbolos de Lisboa. Do Rossio chega por fim Fausto Luís Roxo.
"Podemos tirar-lhe um retrato?" O termo transportou-o de imediato à infância, quando, com sete anos, o fotógrafo da família foi a sua casa captar-lhe a imagem para a posteridade. "Já viu como é gira a associação de ideias? Fez-me recordar o que se calhar não lembraria de outra forma." E deixou logo o aviso: "Olhe que eu sou muito crítico da fotografia."
O cliente que insistia em falar com ele acabou por encontrá-lo. "Queria perguntar-me se eu tencionava reabrir... Como é que um indivíduo com a minha idade, que resolveu durante 70 anos os problemas da empresa, se vê chegado aos 91 sem ninguém para o substituir? Não é que eu não quisesse: não há."
Em março passado foi divulgada a compra do quarteirão onde se ergue a Suíça pelos espanhóis do fundo Mabel Capital, numa operação que ascendeu aos 62 milhões de euros.
Fausto Roxo conta que começou a trabalhar na casa a pedido de um amigo do dono. Apresentou-se à experiência, o gerente levou-o para junto do balcão e disse-lhe: "Você? Você não chega ao balcão!" Constata: "Até hoje ainda nunca ninguém me disse que eu servia para empregado."
Fundada a 18 de março de 1922 por Isidro Lopes e Raul de Moura, com um capital social de 300 mil escudos (1500 euros), a Casa Suissa, Lda – na grafia original – dedicava-se à atividade de "pastelaria, leitaria e seus derivados". Chegou a ter 18 sócios. Passados 96 anos, o estabelecimento da praça D. Pedro IV - o eterno Rossio da memória coletiva dos lisboetas, desistiu de fazer valer os seus direitos de "Loja com História". Numa carta enviada à Câmara, o proprietário renunciou ao programa municipal de salvaguarda do comércio tradicional e de proximidade, e anunciou o cessar de atividade "num futuro próximo". A 31 de agosto, sabe-se agora.
"Concorremos a empresa prestígio para quê? Para ganhar cinco anos, para estarmos cá mais tempo. Concorremos a isso, mas esquecemo-nos do mais importante: fazer as contas. A nossa receita está reduzida a metade daquilo que fazíamos há dois anos", diz, assumindo o contraciclo com o turismo crescente. "Este turismo há de sair muito caro. Salazar nunca o quis. O turista que agora cá vem não tem dinheiro. Vai ao supermercado, compra uma sandes, um sumo e depois vai sentar-se na minha esplanada", remata. E acusa: "O grande concorrente ao nosso serviço é a Câmara Municipal de Lisboa", com quem diz ter "andado em guerra a vida toda". "Há dois ou três anos quiseram rejuvenescer a praça da Figueira, como se fosse possível levar para lá o que a praça oferecia antigamente. Dantes vendia-se ali bacalhau demolhado e hortaliça. Agora, vendem-se empacotados. Há dois anos que inauguraram a praça e o tapume. Temos ali a gelataria. No verão, fazíamos 2000 a 2500 euros por dia, neste momento temos dias que não chega a 100 euros."
O desapontamento de Fausto Roxo ajuda a explicar a decadência do estabelecimento. Na verdade, durante anos, dezenas de pessoas vinham todos os dias tomar o pequeno almoço à Suíça. "Hoje não vêm porque têm oferta em todo o lado. E nalguns casos nem sequer é mais barato", desabafa.
A esplanada sempre foi o cartão de visita da casa. Durante a Segunda Guerra Mundial foi um autêntico oásis para os refugiados de uma Europa a ferro e fogo. "À Suíça, no Rossio, já chamavam o Bompernasse". O trocadilho com o elegante bairro parisiense de Montparnasse vem no livro ‘Recordações de um Caminheiro’, de Alexandre Babo, citado por Irene Pimentel em ‘Judeus em Portugal durante a II Guerra Mundial’. "Predominavam as mulheres (…) fumando em público. (…) Tudo isto era murro na boca do estômago do provincianismo nacional. (…) Aquela gente aparentava outros hábitos, mais livres, mais naturais, mais abertos", prossegue o jornalista escritor. Num Portugal distante da guerra, a Suíça era uma plataforma de encontro e lazer para refugiados europeus – muitos deles judeus. Na porta ao lado, no número 100, mais tarde integrado na pastelaria, a tabacaria O Cem vendia jornais internacionais que se tornaram uma imagem de marca da esplanada da Suíça, sobre a descontraída perna cruzada dos estrangeiros - e das estrangeiras. "Os refugiados é que criaram o nome desta casa. Nos anos 40, assisti à primeira subida da saia das mulheres acima do joelho", lembra Fausto Roxo.
Duas décadas mais tarde, em plenos anos 60, os portugueses continuavam a deleitar-se com as vistas da esplanada. "No ‘Diário Popular’, a Vera Lagoa fartou-se de criticar os mirones que aqui vinham para ver as pernas das raparigas", conta o histórico gerente.
Reservado o direito de admissão
A admissão dos clientes sempre foi restritiva. "Nos anos 50, isto era o centro de Lisboa. As pessoas mais endinheiradas vinham cá todas" - era uma casa de luxo, frequentada pelas elites. "Durante 30 anos, eu e mais duas pessoas, selecionávamos quem entrava. Fazíamos três turnos. Tudo por causa das raparigas. Gostavam de vir tomar chá à Suíça. Arranjavam aqui os seus conhecimentos." O crivo afastava os atrevidos que tentavam forçar a entrada e justificavam a medida. A maneira de vestir contava muito – "o aspeto físico era talvez o principal" – era o reflexo exterior do comportamento exigido. "A vestimenta forra a pessoa, mas o caráter está mascarado", reconhece. Na década de 50 e 60 "começaram a aparecer os americanos com os Cadillac" a fazer guinchar os travões mesmo à porta da Suíça. "Uma vergonha. Uma vergonha", repete. "Fui muitas vezes para a esquadra. Não os queria servir. Criavam mau ambiente."
Hoje, Fausto Roxo acolhe os clientes sem reservas, mas ainda está atento aos carteiristas. "Há um conto de Stefan Zweig, ‘24 Horas na Vida de Uma Mulher’, em que ele está numa esplanada sentado, em Paris, a ver um carteirista na vida dele. Também eu aqui tinha essa coisa." O romantismo – com que recorda, por exemplo, o "génio" do vigarista mudo da Almirante Reis – perde-se na hora de descrever um flagelo, hoje bem mais presente. "É o pior que temos aqui. Os pequenos traficantes a querer vender droga falsa, a assediar constantemente as pessoas e as romenas a roubar coisas das mesas", explica. "A gente agora não seleciona ninguém. Agora isto é livre. Hoje o que selecionava a entrada sabe o que era? O preço..."
Clientes famosos
Mas a história fez-se sobretudo dos nomes sonantes que entraram na Suíça. São incontáveis as vezes que Almada Negreiros cruzou a esplanada para se refastelar com quatro amigos a uma mesa. "O Almada Negreiros era um estarola. Fez-nos o logotipo da casa num guardanapo de papel, ali na mesa. Ainda hoje é o mesmo." Nos anos 40, Almada também ali pintou frescos nas paredes: uma pensão no andar de cima acabou a verter a água que destruiu a obra de arte. Hoje estão ali expostas reproduções de quadros de Josefa de Óbidos (os originais estão no Museu Nacional de Arte Antiga, às Janelas Verdes) pintados por um artista - claro está - suíço.
A localização privilegiada da pastelaria contribuiu para se tornar ponto de encontro obrigatório de muitas figuras públicas, nacionais e estrangeiras. Junto ao balcão está à disposição dos clientes um livro, editado pelo município, onde figuram nomes como Maria Callas - que ali se deslocou após a sua inesquecível interpretação na ópera ‘La Traviatta’, no Teatro de S. Carlos, em 1959 -; Edward (Ted) Kennedy, "leão do senado americano", irmão dos assassinados John, o presidente, e Robert, o candidato; Café Filho, presidente do Brasil; ou o cineasta norte-americano Orson Welles.
Dos inúmeros clientes portugueses, destaque para o almirante Gago Coutinho, herói da primeira travessia aérea do Atlântico Sul; o médico Bissaya Barreto, que deu a Coimbra o ‘Portugal dos Pequenitos’; ou a atriz Amélia Rey Colaço.
Outros tantos por lá andaram e não se fizeram anunciar. Mais recente, a Suíça recebeu a visita do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. "Na sexta- feira passada veio aqui à minha procura. Eu conheço-–o desde pequenino . O pai dele, aos sábados, vinha sempre com os três filhos jantar à Suíça. Era muito amigo do senhor Chagas, secretário do correio-mor e o homem que tinha o segredo das comunicações do País... foi preso no 25 de Abril."
Tivesse Fausto Roxo um ideário político estabelecido e "seria a social-democracia", revela. Em 1974, com o eclodir da Revolução de Abril, partiu para França, onde durante três meses aperfeiçoou os conhecimentos de pastelaria. "Quando fui era comunista, quando regressei, era tratado como um fascista".
Fausto Roxo fez questão de anunciar pessoalmente aos empregados o encerramento da Suíça. "Na quinta à noite e sexta de manhã, tivemos uma reunião com o pessoal. Eu estava à espera que fosse difícil, mas foram de uma compreensão extrema."
"Não se importa que eu o interrompa?" - Luís Tovar de Lemos, o ‘Armandini’, chega e interpela o dono. "Só queria cumprimentá-lo e dar-lhe os meus pêsames". A popular figura da capital propõe-lhe a compra da outrora ‘Catedral de Lisboa’. Fausto Roxo responde: "Não há dinheiro que pague isto. É a vida".
Terminam num despique poético. Para o ‘Armandini’, "vale sempre a pena salvar isto se a alma não for pequena".
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