O xadrez é velhote: nasceu no século VI, na Pérsia (actual Irão). Com a expansão muçulmana, chegou à Europa medieval. As suas regras racionais cativaram Iluministas como Voltaire, Diderot e Leibniz. Trata-se de um jogo que exalta o livre-arbítrio, e não o acaso ou a sorte (como acontece nos dados).
É uma disputa transparente: toda a informação necessária à vitória está à vista dos adversários – ao contrário do póquer, onde reina o bluff. Porém, as suas propriedades matemáticas apontam para o infinito: depois de apenas QUATRO lances, o número de jogadas possíveis ronda os 315 biliões – e até ao fim da partida salta para os triliões de triliões. Não admira que o melhor jogador de sempre – o americano Bobby Fischer, que morreu há três semanas – tenha pirado.
O xadrez enfeitiçou gente como Tolstoi, Einstein e Beckett. Líderes religiosos – como o rei francês católico Luiz IX (São Luiz) – condenaram-no. O aiatola Komeini proibiu-o no próprio berço do jogo – assim como os talibãs do Afeganistão. Por outro lado, o presidente da miserável república russa de Kalmikya, Kirsan Ilyumzhinov, investiu 35 milhões de euros na construção de uma “Chess City”, e tornou as lições de xadrez obrigatórias para as crianças a partir dos 6 anos.
Os melhores praticantes são os homens: o xadrez não é um jogo de damas. A sua auréola cerebral foi mais confirmada que desmentida quando, em 1998, o computador Deep Blue derrotou o então campeão mundial, Gary Kasparov. Mas o xadrez fervilha de lunáticos. O ás austríaco Wilhelm Steinitz jurou a pés juntos que jogara contra Deus – e ganhara. Prefiro pensar que Bobby Fischer também passou-se.
É a forma mais caridosa de explicar as suas diatribes anti-semitas (ao pé das quais Hitler parecia um rabi), e as suas apoplécticas declarações no 11 de Setembro de 2001, de eufórico apoio aos terroristas. Fischer, que venceu a sua primeira partida a sério aos 13 anos, foi a primeira (e última) prima-dona do xadrez, petulante como Mohamed Ali.
Há jogos dele que são obras-primas alquímicas de lógica e fantasia. Mas não sabia falar sobre nada que não fosse a sua especialidade. Retirou-se da competição, amargurado, e morreu doido varrido.
Ora, pré-adolescente, eu próprio sonhava ser xadrezista profissional (e ginecologista). Ainda bem que não persisti na primeira opção (quanto à segunda, ainda vou a tempo). Com todo o seu prestígio intelectual, o xadrez é um jogo que desenvolve a inteligência para jogar xadrez.
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