José Maria Eugénio de Almeida juntou uma das maiores fortunas do século XIX. Entre os muitos bens estava o parque Eduardo VII
Eduardo era o filho varão mais velho da rainha Vitória, monarca do Reino Unido e do maior império do Mundo, enquanto Calouste não passava de um menino de três anos, membro de uma família arménia rica que vivia em Constantinopla, no dia em que José Maria Eugénio de Almeida morreu. Portugal perdeu um dos seus homens mais ricos a 23 de abril de 1872, quando uma febre fulminante matou, aos 60 anos, o dono de uma fortuna alicerçada num infindável rol de imóveis e terrenos, incluindo as duas enormes propriedades a que os lisboetas do século XXI chamam Parque Eduardo VII e sede da Fundação Calouste Gulbenkian.
Os 400 mil metros quadrados do Casal do Monte Almeida, entre o Passeio Público e a Penitenciária de Lisboa, eram sobretudo ocupados por hortas e olivais, enquanto o Parque de Santa Gertrudes só era mais modesto na dimensão - 86 mil metros quadrados, contando com o palácio que comprou e mandou reedificar no largo de São Sebastião da Pedreira, hoje ocupado pelo Governo Militar de Lisboa -, pois o empresário mandou plantar um notável jardim para lá da fronteira do que era então a cidade. No entanto, a maior fatia dos 2108 contos de réis que deixou aos herdeiros, segundo o inventário feito pelo filho mais velho, Carlos Maria - ‘revisto em alta' pelos historiadores Helder Fonseca e Jaime Reis -, dizia respeito a explorações agrícolas espalhadas de norte a sul, mas concentradas sobretudo no Alentejo (tinha 17 mil hectares no distrito de Évora) e no Ribatejo.
"É uma história exemplar de êxito individual e empresarial num país que não tem assim tantas", resume à Domingo o historiador José Miguel Sardica, que escreveu em 2005 o livro ‘José Maria Eugénio de Almeida - Negócios, Política e Sociedade no Século XIX', sobre o empresário que multiplicou 42 vezes o capital obtido por heranças e matrimónio. Para o diretor da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica, trata-se de "uma daquelas figuras através das quais apreendemos um retrato geral daquilo que foi o século XIX em Portugal, nas vertentes política, económica e social".
Órfão aos 27 anos
A imprensa da época sobrelotou-se de elogios ao noticiar a morte de José Maria Eugénio de Almeida, destacando-se a citação que o ‘Jornal do Comércio' fez de um célebre sermão do padre António Vieira, escrevendo que o falecido "chegou a ser homem porque nasceu pequeno e morreu grande", mas a verdade é que o milionário nunca conheceu a pobreza.
Filho de uma família da média burguesia, nasceu em casa, no largo da Graça, a 13 de novembro de 1811, um ano após a terceira e última invasão napoleónica, numa Lisboa sem rei (D. Maria I mudara a corte para o Brasil) nem roque. O pai, Joaquim José de Almeida, estava ligado à Alfândega das Sete Casas, enquanto a mãe, Gertrudes Magna do Nascimento de Jesus, carregava o simbólico prestígio de ser uma afilhada do primogénito do Marquês de Pombal.
Estudou na Escola de São Vicente de Fora, enquanto Portugal vivia a Revolução de 1820 e o regresso da família real. Mais tarde, entre 1834 e 1839, logo após a vitória dos liberais sobre os absolutistas na guerra civil que arrasou o País, ainda mal refeito das incursões francesas, tirou o curso de Direito na Universidade de Coimbra.
Órfão de pai e mãe com poucos meses de intervalo, aos 27 anos, antes de concluir a licenciatura, recebeu a módica herança de oito contos de réis. Poderia então ter optado pela carreira académica, mas foi preterido num concurso público para lente de Economia Política na Escola Politécnica de Lisboa, ficando o lugar para José Estêvão, que seria um dos principais parlamentares desse século.
Alavanca nupcial
Também José Maria seria eleito deputado, a primeira vez em 1840. No entanto, era ao mundo dos negócios que estava destinado, numa ascensão facilitada pelo casamento com Maria das Dores da Silva Teixeira, no final de 1843. Além de bela, a acreditar nos retratos, era filha do patrão, um rico comerciante chamado José Joaquim Teixeira, que viria a auxiliá-lo a edificar o seu império, colocando à disposição dinheiro para investir e os conhecimentos essenciais para aceder às oportunidades mais lucrativas.
É discutível se este casamento ocorreu por amor ou por interesse. Certo é que, precisamente nove meses depois da boda, celebrada em casa do sogro, veio ao Mundo o primogénito de José Maria Eugénio de Almeida. Batizado com o mesmo nome do pai, viria a morrer no dia do 12º aniversário, quando já tinham nascido os irmãos Carlos Maria e Gertrudes Magna. Pouco depois, o empresário iniciou uma ligação extraconjugal com Bárbara de Jesus, futura mãe de três filhos ilegítimos, e viu partir para Londres a legítima esposa em 1864, destinando-lhe verbas capazes de lhe garantir um estilo de vida sumptuoso.
Financiar o dispendioso ‘exílio' voluntário tornara-se possível devido à conquista do contrato de exploração dos monopólios estatais do tabaco, sabão e pólvora, em conjunto com um grupo de sócios que incluía o futuro visconde de Valmor, válido entre 1846 e 1858. Adiantar dinheiro aos cofres públicos garantiu um fluxo constante de lucros, sempre aplicados em terras de cultivo, mais rentáveis do que a incipiente indústria. "Não era um financeiro, apesar de ter títulos e fazer negócios ligados à alta finança, mas sim aquilo a que hoje chamaríamos ligado à economia real. Um homem de empresas, de terras e de emprego, que sabia como é que a economia funcionava", descreve José Miguel Sardica.
Castelo para cavalos
A riqueza de Eugénio de Almeida atingira uma dimensão que superava a sua casa familiar, na rua Formosa (hoje rua de O Século), em 1859, quando comprou o palácio do Provedor dos Armazéns, que dominava o largo de São Sebastião da Pedreira. Longe de ser a zona nobre da capital em que se tornou após a edificação das Avenidas Novas, era então uma entrada na cidade - muitíssimo ‘encolhida' pela reforma administrativa de 1852, que criara os municípios de Belém e dos Olivais, os quais existiram até 1886 -, tendo à frente a Estrada da Circunvalação, que correspondia ao que mais tarde viriam a ser a avenida Duque de Ávila e a rua Marquês da Fronteira.
Do outro lado da Circunvalação, que tinha no muro do palácio um dos postos fiscais destinados a controlar a entrada e saída de pessoas e bens em Lisboa, ficava a Quinta da Provedora, com um formato triangular delimitado pelas estradas do Rego e da Palhavã, que permitiam aceder aos arrabaldes rurais. O enorme terreno foi transformado pelo empresário no Parque de Santa Gertrudes (nome da sua mãe e de duas filhas, uma legítima e outra natural), cuja plantação ficou a cargo do jardineiro suíço Jacob Weiss, mas o que mais impressionou na altura, e ainda hoje espanta turistas e nacionais, foram os portões e o muro da propriedade, capaz de ser confundida com um castelo medieval.
Terá sido a ‘vingança' contra a soberba de um aristocrata que o recebera na Escócia, numa das suas frequentes visitas ao Reino Unido, decidindo afrontar o convidado ao insistir que os portugueses nada percebiam de cavalos. Segundo a historiadora de Arte Joana Cunha Leal, que cita a tradição familiar, Eugénio de Almeida surpreendeu o anfitrião, "construindo as suas cocheiras à imagem do castelo onde pernoitara, a fim de lhe retribuir o convite e de lhe demonstrar que as habitações dos nobres britânicos equivaliam às instalações destinadas, em Portugal, a alojar os animais".
Ziguezagues coerentes
Eleito três vezes deputado e par do Reino desde 1856, tendo desempenhado diversos cargos públicos - de vogal da Comissão Central de Pesos e Medidas a empenhado provedor da Casa Pia de Lisboa -, o empresário mudou várias vezes de alinhamento partidário, ficando ao lado de Costa Cabral ou de Fontes Pereira de Melo. Mas sem nunca comprometer as suas ideias, e mantendo a coerência de "um liberal puro", como avalia José Miguel Sardica: "Nunca sentiu necessidade de ser político a tempo inteiro, entrando para o governo para influenciar as decisões."
Um dos convites que recusou foi para assumir a pasta da Fazenda, equivalente ao Ministério das Finanças. "Não quero aumentar a minha impopularidade. Eu só aceitaria com a condição de reformar tudo de alto a baixo, e para isso tinha de cortar e fazer doer muito e ninguém me agradeceria o sacrifício", disse à imprensa da época o homem cujo biógrafo considera que "correria o risco, se fosse vivo hoje, de ser acusado de ser um neoliberal".
O motivo da derradeira rutura política, com Fontes Pereira de Melo, deveu-se precisamente aos planos de o executivo lançar novos impostos sobre o consumo e sobre a propriedade (uma espécie de IVA e IMI do século XIX), destinados a angariar receita fiscal que serviria para pagar juros da dívida de um país assolado pela destruição das invasões francesas e da guerra civil. "Como ele dizia bem, quando se taxa o consumo o poder de compra baixa e retrai-se a procura", explica Sardica, recordando que foi um dos raros milionários da sua época que nunca quiseram ser barão ou conde. Seria o seu neto, muito próximo da família real, o primeiro conde de Vilalva.
Viúva em tribunal
À hora da morte de José Maria Eugénio de Almeida, a sua fortuna bastaria para liquidar 34,1 por cento do défice do reino se fosse nacionalizada em 1872, e "faria boa figura" na generalidade dos países da Europa, embora no mais desenvolvido Reino Unido tivesse 150 à frente. Foi de lá que no final da década regressou a viúva, que se instalou no palácio entretanto reconstruído e redecorado com os melhores materiais, e causou escândalo na sociedade lisboeta ao casar-se com João António Pina, um homem muito mais novo que fora guarda-livros do marido.
No espaço de dez anos terão delapidado um terço da sua parte da herança, motivando um ainda mais escandaloso processo judicial interposto pelo filho mais velho. Não ficariam por aí as diminuições de património, pois a Câmara de Lisboa foi expropriando aos poucos o enorme Casal do Monte Almeida, necessário para a construção da Rotunda e de parte das ruas Castilho e Rodrigo da Fonseca. E, sobretudo, do Parque da Liberdade, rebatizado Parque Eduardo VII em 1903, quando o rei britânico visitou Portugal.
O Parque de Santa Gertrudes alojou o Jardim Zoológico e de Aclimação de Lisboa entre 1884 e 1894, revertendo para os proprietários no final desse período. Já em 1948, a família vendeu o palácio ao Estado Novo, por "muito razoáveis" 15 mil contos, e nove anos mais tarde seguiu-
-se a maior parte da propriedade vizinha, comprada pela Fundação Calouste Gulbenkian, após ter alojado a Feira Popular.
Mas no mesmo imenso quarteirão de Lisboa ainda se mantêm as iniciais de Eugénio de Almeida nos portões acastelados da casa, transformada no início do século XX, com base nas luxuosas cavalariças originais, que é a residência da condessa de Vilalva, viúva do bisneto do homem que nunca se cansou de multiplicar a fortuna.
Perpetuado pela fundação do bisneto
Foi há 50 anos que o conde de Vilalva, bisneto do milionário, criou a Fundação Eugénio de Almeida, destinada a promover a cultura e educação no distrito de Évora, onde se encontrava a maior fatia da fortuna construída por José Maria. Nos estatutos redigidos por Vasco Maria Eugénio de Almeida em 1963 ficou disposto que a fundação devia zelar pela reconstrução do Convento da Cartuxa e pela existência de ensino superior na cidade alentejana. Liderada pelo conde até 1975, ano em que faleceu, com apenas 61 anos, vítima de diabetes, a entidade foi muito abalada pela ocupação de terras durante o PREC. Nos últimos tempos recuperou a estabilidade financeira, tendo fontes de receita importantes, como a dos vinhos produzidos pela adega da Cartuxa.
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