As ruas da aldeia contam as histórias e os sonhos da criança. A escola esconde o sofrimento e as agressões de que, durante ano e meio, foi alvo.
O dia amanhece cedo na pequena aldeia de Cedainhos e o Sol teima em entrar por entre as brechas das janelas fechadas há quase duas semanas. Amália cerra os olhos e deixa as lágrimas correr, não quer ver a luz do dia. Desde a morte do filho que a vida parece já não ter sentido. Amália olha a fotografia de Leandro, de 12 anos, e continua sem entender. Como pode alguém ter feito o menino sofrer tanto? Que mal fizeram os colegas mais velhos da escola de Mirandela a Leandro que o levou a decidir atirar-se ao rio Tua? Como é que a escola nada fez? As perguntas que atormentam a cada segundo os pais da criança continuam sem resposta. A culpa pela morte de Leandro parece teimar em morrer solteira.
Em Cedainhos os caminhos de terra batida e os campos de pasto de erva viçosa escondem agora as histórias de infância e os sonhos do pequeno Leandro. Os cerca de cem habitantes, todos eles familiares da criança, relembram com saudade o menino da terra que gostava de futebol, de passear as vacas e as ovelhas e de correr descalço. 'Ele gostava de me chamar ‘Tintim’. Ao domingo de manhã batia à minha porta e íamos todos juntos jogar futebol para o campo. Ao final do dia vínhamos embora cansados de tanto brincar', recorda Jacinto, de 11 anos, primo do menino, enquanto os olhos grandes e brilhantes se inundam de lágrimas.
Leandro e o irmão gémeo, Márcio, nasceram a 27 de Outubro de 1997 numa manhã escura e chuvosa, igual ao dia em que o menino morreu. Toda a aldeia ficou em festa. Amália, que agora chora a morte do filho, na altura temeu não ter condições para tomar conta de duas crianças. 'A vida aqui é muito difícil. Vivemos, muitas vezes, apenas daquilo que a terra nos dá. A minha irmã temeu que o dinheiro não chegasse para alimentar os dois meninos', contou Luís Nunes, tio da criança.
Os anos passaram, Leandro e o irmão Márcio cresciam felizes. A irmã Ana, agora com nove anos, nasceu entretanto. 'Eles davam-se todos tão bem. No Inverno o Leandro pedia sempre para deixar a irmã dormir com ele e com o Márcio', conta Amália. 'Ó mãe, é para ficarmos mais quentinhos', dizia a criança.
Leandro sempre foi um menino calmo e humilde. Era capaz de passar horas deitado em cima da palha a sonhar com o futuro. 'Ele sempre gostou muito de tractores e de motas, gostava muito de perceber como aquilo funcionava. Quando fosse grande queria ser mecânico', recorda a avó, Zélia Morais.
Na primeira casa da aldeia, uma habitação ainda em construção, o menino viveu feliz durante doze anos. 'Nunca lhe faltou nada. Somos pessoas humildes mas ele sempre teve o que quis. Tinha PlayStation, computador, telemóveis, tudo', conta Amália. A família vivia sobretudo do que a terra lhe dava. Amália sempre ficou em casa a cuidar dos filhos e recentemente começou a frequentar um curso de geriatria em Mirandela. O pai, Armindo, é agricultor. De tempos a tempos viajava para França, onde trabalhava na apanha do morango. 'Ele gostava muito da mãe, mas tinha uma adoração pelo pai. Quando ele voltava de França agarrava-se a ele e não parava de lhe dar beijinhos', conta Luís, tio do menino.
Sempre que o pai estava fora Leandro passava a vida em casa da avó. Adorava o tio Luís, que está paralisado numa cadeira de rodas há vários anos, e não deixava que ninguém lhe fizesse mal. 'Para ele o tio era como um segundo pai, o Leandro não deixa que ninguém lhe levantasse sequer a voz. Não havia dia em que ele não o visitasse', diz a avó Zélia.
Em Cedainhos, o pequeno e franzino Leandro sempre foi um menino feliz. Gostava muito da escola e nunca tinha tido problemas. Mas há cerca de um ano e meio, quando a criança se mudou para a escola de Mirandela, tudo mudou. Começou a ser ameaçado e constantemente agredido. 'Quando foi para aquela escola os problemas começaram. Foi logo agredido em Setembro e em Dezembro foi para o hospital. Nunca mais nos contou nada, mas o irmão, os primos e os colegas contam que lhe batiam muitas vezes', revela a mãe do menino. Jacinto percorre os caminhos da aldeia e recorda a promessa que um dia o primo Leandro lhe fez. 'Ele prometeu-me que quando fosse para aquela escola não deixaria ninguém me bater, como lhe batiam a ele. Disse que eu não precisava de ter medo porque ele ia-me defender', recorda a criança.
Durante ano e meio os recantos da escola foram muitas vezes as únicas testemunhas das violentas agressões de que o menino era alvo. No dia 3 de Março, depois de ser espancado por um jovem de 17 anos e pela namorada de 15, o menino não aguentou mais. Aproveitou o facto do porteiro não estar no local de trabalho, saiu a correr da escola, e, já junto ao rio, despiu-se e, perante o olhar desesperado dos primos e do irmão, atirou-se. Desde então muitos outros casos de agressão na mesma escola foram denunciados. A direcção da instituição remeteu-se ao silêncio, tinha conhecimento das agressões mas nada fez. 'São coisas de criança', chegou a afirmar o director, José Carlos Azevedo, à família. A escola e a PSP abriram inquéritos. O primeiro foi inconclusivo e o segundo descreve o menino como uma criança 'reguila'. Mas que mais se podia esperar? Leandro tinha apenas 12 anos.
MORTE CHOCA POPULARES
A morte do pequeno Leandro deixou em choque a cidade de Mirandela. Vários foram os populares que fizeram questão de dar o apoio e prestar solidariedade aos pais do menino. Durante os vários dias de buscas dezenas de pais de alunos juntaram-se no local onde a criança se atirou e lançaram flores, acenderam velas e rezaram pelo pequeno Leandro. Na passada segunda-feira os familiares do menino participaram ainda numa marcha desde a escola até ao local onde a criança se atirou.
JOGO PERMITE AGREDIR E HUMILHAR OS MAIS FRACOS
Em 2006 foi lançado um jogo de vídeo denominado de ‘Bully’, que permite simular a vida numa escola e dá oportunidade aos jogadores de ameaçaram os alunos mais fracos e agredi-los física e psicologicamente, ou seja, torná-los vítimas de bullying. O grande objectivo passa mesmo por humilhar e bater nos colegas. As críticas classificam o jogo como 'bastante realista' e com uma 'violência sem limites'.
No Brasil, o ‘Bully’ chegou mesmo a ser proibido, pois o tribunal considerou que o jogo é impróprio para os alunos e pode acarretar graves distúrbios no colégio e mesmo entre grupos de jovens. O tribunal disse ainda que o ‘Bully’ faz com que a sociedade perca a capacidade de bem educar os seus filhos. Mas até no jogo há também a possibilidade de proteger as crianças.
MÃE GARANTE QUE FILHA NÃO AGREDIU
Maria José (foto à dir.), mãe da jovem de 15 anos que, juntamente com o namorado, está acusada de agredir Leandro, garante que a filha não agrediu o menino. 'Ela apenas o ameaçou porque ele tinha batido num sobrinho meu', garantiu a mulher. No entanto, à ‘Domingo’, familiares e amigos de Leandro, bem como colegas de turma da jovem, garantem que aquela bateu na criança momentos antes da sua morte.
NOTAS
TRÊS
Polícia de Mirandela tinha três queixas de agressões de alunos durante o ano lectivo de 2008/2009.
40 MIL
É o número de crianças portuguesas que, segundo um estudo, são vítimas de bullying.
50 POR CENTO
Metade das crianças vítimas de agressões físicas e psicológicas não denunciam os maus tratos.
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