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MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

O milagre da amamentação

Mães adotivas ou mães biológicas que já tenham perdido o leite podem aprender a induzir a produção de prolactina

29 de julho de 2014 às 10:16

Pode parecer estranho a ouvidos leigos, mas é uma possibilidade real: mesmo quem não foi mãe biológica pode amamentar, através da indução da lactação. E a solução nem sequer é recente nem nasceu em laboratórios sofisticados. Basta, como quase tudo na maternidade, ser persistente.

"Induzir a lactação é fazer com que uma mulher que nunca tenha passado por um processo de gravidez - ou que tenha passado e já não esteja a amamentar - possa (re)iniciar a produção de leite", explica a doula e conselheira de lactação Cristina Pincho. A solução é pouco procurada em Portugal e a maioria das mulheres "nem sequer sabe que existe". Lá fora é diferente, sobretudo em países como o Brasil ou os Estados Unidos, sendo muito procurada por mães adotivas. O sucesso não é garantido e grande parte do seu segredo passa por técnicas tradicionais e preparação psicológica: estimulação por bomba de sucção, por massagem e uso de compressas mornas. Depois, há pequenos truques específicos, como o recurso a medicamentos com galactogogos, substância que faz com que a hipófise possa produzir prolactina, a hormona responsável pela produção do leite - mas "apenas sob vigilância e apoio especializado", avisa a doula Cristina Pincho. Ou o uso de uma sonda ou um fino tubo de plástico que por um lado está conectado a um recipiente com leite enquanto uma outra extremidade é introduzida na boca do lactente junto com o mamilo, de tal maneira que, ao mamar, o lactente obtém leite da sonda e por sua vez desencadeia os reflexos de produção e ejeção do leite. "Quando a mama começar a produzir leite, o volume de leite oferecido é lentamente diminuído e o processo substituído pela estimulação natural do bebé", acrescenta a especialista. Durante todo processo há o acompanhamento da evolução clínica da mãe e do bebé.

Inês tem 30 anos e é um dos elementos de um casal formado por duas mulheres, em que apenas uma engravidou mas ambas partilharam a amamentação. "Nem sequer sabia que isto era possível até ver num programa de televisão, já durante a nossa gravidez. Ficámos entusiasmadas por podermos partilhar a amamentação, tal como acontece quando se amamenta a biberão, embora achássemos que o leite materno era o melhor."

Por isso, Inês recorreu a uma doula especialista em lactação e começou a preparar-se um mês antes do nascimento, com a estimulação por bomba e a ingestão de galactogogos. Duas semanas antes do parto, começou a ter leite e até começou por ser a primeira a amamentar o bebé, visto que a sua mulher enfrentou algumas dificuldades nas horas imediatamente a seguir ao parto. "Até acabou por ser bom, porque ele não estava a fazer a pega correta. Então, a nossa doula sugeriu que ele viesse logo para mim, o que até facilitou quando ele foi novamente para o peito dela", recorda. Já lá vão 18 meses de maternidade e amamentação, que agora é partilhada em igual proporção por ambas as mães.

Beatriz Silva, açoriana, é ainda hoje recordada pela SOS Amamentação como um dos casos de sucesso da indução da lactação de uma mãe adotiva. Em 2007, o seu testemunho causava surpresa mas também orgulho e servia de incentivo às mães biológicas que tantas vezes encontram dificuldades na amamentação. "Adotei uma bebé com apenas quatro meses e estou a amamentá-la em exclusivo com leite meu." Foi possível graças à ajuda das voluntárias do SOS Amamentação, que a guiaram para a concretização do sonho via telefone. "Nunca pensei que fosse possível uma mulher ter leite sem passar por todo o processo de gravidez, mas o meu caso mostra que é possível", frisa. Começou a estimular os seios de duas em duas horas durante sete minutos cada mama. "E ao fim de duas semanas comecei a ter umas gotinhas de leite. Continuei com a estimulação e ao fim de três semanas já tinha imenso leite", recorda. Quando a bebé, hoje uma menina de sete anos, lhe chegou aos braços, duas semanas depois, passou a ser alimentada exclusivamente com o leite da mãe adotiva.

Mães biológicas

Mas este processo também serve as mães biológicas. No Faial (Açores), Sandra Silva foi mãe biológica mas acabou por adoecer quando a sua segunda filha tinha poucas semanas de vida e, entre idas ao hospital e antibióticos, esteve 15 dias sem amamentar. Desgostosa por ter perdido o leite, resolveu não baixar os braços. Procurou informação sobre a relactação e deitou mãos à obra. "Passava horas e horas a estimular os peitos com a bomba de leite, ou a pôr a minha filha a mamar, até que alguns dias depois conseguiu recuperar a produção natural de prolactina. Fiquei muito feliz por ser possível. Já tinha ouvido falar de mães que nunca sequer tinham tido leite e tinham conseguido, por isso... Passava horas a estimular com a bomba e havia quem achasse esse esforço inglório." Mas para Sandra seguiram-se então nove meses de amamentação, só descontinuados pelo surgimento de uns ameaçadores dentes de leite.

Às associações como a SOS Amamentação ou a Vamos Dar de Mamar todos os anos chegam dezenas de casos como os de Sandra e alguns - mais raros, como os de Beatriz ou Inês. Desde que surgiu, há três anos, que a Vamos Dar de Mamar, um projeto da Ajuda de Mãe, já atendeu mais de 10 mil chamadas e fez mais de um milhar de visitas ao domicílio grátis.

Ser doula conselheira de lactação não é para todas. Cristina Pincho tem 45 anos, é mãe de cinco filhos e consultora de lactação desde 2008. Em 1996 já tinha coordenado, com duas amigas, um grupo que tinha como objetivo o apoio a mães que optam por ficar em casa com os seus filhos. Depois, foi cofundadora do SOS Amamentação e tornou-se doula certificada. Para isso fez vários cursos na área da maternidade e primeira infância, na fisiologia do parto e da humanização do parto e da amamentação, sendo hoje uma das poucas em Portugal que é certificada pelo IBCLE, instituição máxima neste campo. Qualquer mãe que se dirija a ela encontra um regaço informado. "É nesse espírito que nos movemos. Apoiar qualquer mãe que precise de acompanhamento independentemente de quem é ou de que forma vai ser mãe", diz Cristina Pincho. Até porque quase todas enfrentam dificuldades.

Rita Nolasco, 39 anos, três filhas, só conseguiu amamentar plenamente após o nascimento da terceira filha. "E muito graças ao grande apoio e motivação de uma irmã que estava bastante bem informada e que me acompanhou." Já a atriz Mafalda Teixeira, que foi mãe há três meses e amamenta em exclusivo, reconhece que mesmo antes do parto procurou muita informação sobre o tema. "Em abono da verdade, era algo que me preocupava mais do que o parto", confessa. Mas as dúvidas e os medos ficaram por conta do Centro Pré e Pós Parto: "Onde há cursos, workshops e um grupo de amamentação que nos ajuda muito a aprender e a desmistificar algumas ideias." Porque ninguém aprende sozinho, mesmo quando é algo natural.

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