Um anúncio de um quarto de página num jornal fez o padre Serras Pereira tornar-se figura mediática por um dia. O sacerdote, que informava que não daria a sagrada comunhão a todos, descobriu a vocação num ecrã de cinema.
Mais de mil e trezentos euros pagaram a polémica. Na página 16 do diário ‘Público’, na edição de quarta-feira, Padre Nuno Serras Pereira – um franciscano do Convento do Largo da Luz, em Lisboa – fazia saber que em virtude do cânone 915 do Código de Direito Canónico “está impedido de dar comunhão eucarística a todos aqueles católicos, que manifestamente têm perseverado em advogar, contribuir para, ou promover a morte de seres humanos inocentes”, através da pílula, DIU, meios abortivos ou fertilização in-vitro.
O quadrado de pé de página estava para ser também publicado no ‘Jornal de Notícias’. “Eles levantaram dificuldades. Os juristas da casa achavam que não se podia publicar. Nós dissemos que ia sair no ‘Público’ e a senhora que nos atendeu disse que se era esse o caso, ia colocar o assunto à direcção e logo se veria. Ligaram-me no dia da publicação, a dizer que sim, mas já não estavamos interessados.”
Nuno Serras Pereira está sentado numa pequena sala do convento onde vive. Nunca teve uma paróquia, apenas rezou missa esporadicamente em altares de Lisboa, Coimbra e Setúbal. É franciscano, não recebe salário, não tem dinheiro seu, todos os bens são juridicamente da comunidade, não teria portanto como fazer publicar um quarto de página em jornal algum, nem que fosse de paróquia. “Pessoas amigas que me sabem empenhado nestas coisas importantes da defesa da vida oferecem-me esmolas e eu tenho autorização superior para as utilizar em obras apostólicas. Apliquei o dinheiro neste anúncio.”
Padre Serras Pereira pensa em publicar em livro os seus escritos, alguns a navegar na ‘net’, mas numa edição de autor. “Não há editora que os queira, são capazes de achá-los um bocadinho assertivos.”
A VOCAÇÃO NO FIM DO FILME
Nuno nasceu a 6 de Outubro de 1953, em Lisboa, filho de Serras Pereira, ex-vice-presidente da Assembleia Nacional do tempo de Salazar.
Antes de entrar para o seminário a mês de fazer 25 anos, ele frequentou o Colégio de São João de Brito. Mas os ensinamentos dos jesuítas, recebidos durante dez anos, não o impediram de se perder durante a adolescência. “Pelos 15 anos afastei-me da Igreja e assim estive até aos meus 20, 21 anos. Tive uma crise muito profunda, porque fiz uma tentiva de me reprogramar e pôr de lado a educação católica.”
A vida de rebelde que não conta (”não tenho de me confessar aqui, pois não?”) começa a ceder à vida espiritual no dia em que resolve vender a mota, com que fazia corridas em Lisboa, para comprar livros sobre magia, ocultismo, quiromancia, hipnotismo e temas afins. “Comecei a entusiasmar-me por essas coisas misteriosas e até fazia lá em casa, às escondidas, sessões de espiritismo. Na altura, havia também uns grupos que me chamaram a atenção, como por exemplo as seitas hindus e os Meninos de Jesus, um grupo de protestantes dos Estados Unidos.”
Em 1973, Norman Jewison realizou um musical que faria história na cinematografia e mudaria o curso da vida do jovem Nuno - chamava-se ‘Jesus Christ Superstar’ e tinha Ted Neelew a padecer a vida de Jesus Cristo entre um tema musical e outro. “Fomos ver o filme e lembro-me de se ter gerado uma discussão entre mim e um amigo meu sobre a existência de Deus e sobre a divindade de Jesus Cristo.”
tabaco, aguardente e o Evangelho Nessa altura, para ganhar a vida, Serras Pereira trabalha como jornalista sem carteira profissional nos jornais ‘Varia 8’ (‘foi lá que Francisco Lucas Pires escreveu o seu primeiro livro’) e no ‘Ilustração’. Como repórter ele não se exercita muito – fez só trabalho sobre o Convento da Cartuxa e a recolha do lixo em Lisboa – a sua arte são os artigos de opinião. Por causa de um foi julgado e condenado. “Era sobre o presidente da República, o Costa Gomes, chamei-lhe de traidor, num artigo intitulado ‘Os bois pegam-se de caras’, que era uma frase do Pinheiro de Azevedo. Eu assinava o texto com o pseudónimo do costume, João Allen.”
Não são as folhas dos jornais que lhe traçam a vida, mas o ecrã do cinema. O filme de Jewison afecta-o e depois da assanhada discussão de café, Nuno Serras Pereira e os amigos passam a reunir-se quatro vezes por semana, das 22 às 24 horas, na casa de Canto e Castro (o actor) para ler o Evangelho.
O livro sagrado começa a exercer sobre ele um enorme fascínio. A sua leitura torna-se uma obsessão. “Ia para casa à meia-noite com o Evangelho de um lado, uma garrafa de aguardente do outro e um maço de tabaco no bolso e lia até altas horas da madrugada. Comecei a ficar altamente impressionado com a figura de Cristo.”
A paróquia de nascimento de Serras Pereira era São João de Brito. O pároco local, padre Lereno, desde sempre tinha exercido autoridade sobre o jovem que o admirava pela frontalidade e misericórdia.
Um dia, os rapazes convidam aquele padre para um dos encontros nocturnos. Lereno comparece e desafia Serras Pereira a voltar a ir à missa aos domingos. “Eu fui e não sei porquê comecei a ir todos os dias. Não me confessava, não comungava mas ia. Um dia convidaram-me para ir a uma espécie de retiro em Colares e aí reencontrei a Igreja e confessei-me e passei a fazê-lo todos os dias.”
Nuno Serras Pereira descobre que os ímpetos adolescentes estavam errados. “Os católicos que eu achava hipócritas eram gente boa, apenas não faziam publicidade das coisas que faziam.”
O fascínio por Jesus assume proporções inesperadas – podia ter sido um bom católico e assumir a relação com Bárbara (“a rapariga que mais gostei na vida”) mas prefere ser ordenado.
PARA A ASSEMBLAIA MARCHAR
No dia seguinte à publicação do quarto de página no jornal, o telemóvel do padre não parou de tocar. Serras Pereira foi até esclarecer as suas intenções à SIC e à RTP.
“Agora não estou a trabalhar em nenhuma paróquia, mas posso muito bem ser chamado a celebrar em qualquer igreja, e não queria deparar-me com alguma situação embaraçosa de alguém que, confessando-se católico, se manifesta obstinadamente contra a Igreja numa questão tão delicada como o direito à vida. Tinha de tomar uma posição sem ter podido falar antes com a pessoa, como aconteceria caso a paróquia fosse minha.” Daí que o padre publicasse o anúncio, a avisar. “Por exemplo, numa grande paróquia como a Basílica da Estrela, onde já rezei missa, se me aparece lá uma pessoa que nos jornais, na rádio, na televisão toma sistematicamente estas posições, eu como diz o cânone 915 não posso admiti-lo à sagrada comunhão.”
Mas padre Nuno Serras Pereira afiança que tal pessoa, ou pessoas, nunca lhe apareceram em frente do altar nas vezes em que disse missa na basílica. Também admite que não pode jurar nunca ter dado comunhão a católicos que tenham tomado a pílula ou feito um abordo ou defendido ambas as coisas.
A Basílica da Estrela tem um significado especial para o padre, foi lá que celebrou as missas de 1997 e 1998, quando a questão do aborto foi revista. Foi de lá que saíram as manifestações silenciosas dos vários movimentos pró-vida que o padre apoia. Serras Pereira esteve nessas caminhadas na frente.
“Neste comunicado, eu não falo da contracepção enquanto tal, mas há pílulas que têm efeito abortivo, tal como o DIU. Falo sim da morte de seres humanos inocentes em qualquer fase da sua existência. Falo de homicídio.”
O FRIO DO MUNDO NA 'NET'
A oportunidade da publicação do anúncio é justificada – se fosse por altura das eleições podiam acusá-lo de fazer política.
E no entanto, no ciberespaço, Serras Pereira atira-se ao Bloco de Esquerda - nem se apoquenta com o irmão Miguel Serras Pereira, apoiante dos bloquistas - e ao PCP “com as suas manhas matreiras, mais ou menos declaradas, para alcançar também a legalização do homicídio/aborto até aos nove meses”. Ele é apartidário:“Faço apenas um anúncio que tem a ver com a vida litúrgica e sacramental da Igrej. Mesmo nesses artigos em que refiro os partidos, não dou prioridade a nenhum, e até lhes chamo associações de malfeitores”.
No entanto, os seus escritos foram aproveitados pelo Partido
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