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O POVO CHAMA-LHE SANTA

Morreu há 150 anos, mas o corpo continua intacto, apesar de já terem tentado queimá-lo. Uma legião de crentes construiu uma capela a Justa Rita, mas a Igreja não está pelos ajustes

30 de março de 2003 às 15:00

Maria Rita morreu quando tinha perto de 80 anos, há mais de século e meio. Nascida na freguesia de Fontes, não são, no entanto, conhecidos registos oficiais que comprovem com exactidão tal facto, devido a um incêndio ocorrido no edifício dos Paços do Concelho ue devorou todos os documentos ali existentes.

Foi enterrada e desenterrada várias vezes e chegou a ser queimada com alcatrão, sem que o corpo sofresse muito com isso. Há quem diga, entre aqueles que tiveram acesso às pessoas que mais de perto lidaram com ela, que “ainda se apalpava carne” quando lhe tocaram pela última vez. A verdade é que deixou de ser lavada e mudada há 20 anos, quando morreu Dona Preciosa, a senhora que fazia tal serviço.

Maria de Jesus, de 86 anos, devota convicta da ‘santa’, afirma: “Quando ela era viva contava histórias lindas sobre Justa Rita, como o facto de ser tarefa fácil mudá-la e lavá-la, mas, se estivesse um homem por perto, a tarefa tornava-se complicada”. E a crente prossegue: “Um dia – contava a Dona Preciosa – um casal veio cumprir uma promessa por uma graça solicitada a Justa Rita. Quando o homem colocou a mão na ‘santa’ as luzes apagaram--se imediatamente. É que, para além de justa e bondosa, Maria Rita era pura.”

Conceição Teixeira, professora primária, escreveu há 20 anos sobre este tema, no âmbito de um trabalho académico. O escrito narra a história da vida da ‘santa’ e dá conta dos testemunhos de bondade e da forma como foi chorada com saudade quando morreu. Assim reza o livro: “Maria Rita nasceu em Fontes, mas de pequenina, devido às dificuldades económicas da família, veio trabalhar como criada de servir para a Casa Grande, no lugar de Santa Comba, freguesia de

S. Miguel de Lobrigos. Manteve ao longo dos anos uma relação conflituosa com a patroa, muito invejosa, que passava a vida a dizer ao marido: ‘Aquela rapariga vai--te levar à desgraça, pois dá tudo aos pobres’. Ao que este respondia: ‘Quanto mais ela dá, mais Deus me dá. Deixai que faça caridade’.”

Anos depois da morte de Maria Rita – numa altura em que foi construído um novo cemitério na freguesia – ao ser transladado, o seu corpo revelou-se intacto, situação que se viria a repetir anos mais tarde, quando a voltaram a desenterrar.

A fé de que se estava perante uma santa aumentou, mas um grupo de descrentes tentou queimar o corpo com alcatrão. A maldade fracassou mas ainda se notam alguns danos nas partes do corpo da ‘santa’ que se encontram à vista. Segundo a obra de Conceição Teixeira, os três homens que a tentaram queimar tiveram má morte: um morreu debaixo de um comboio e os outros dois afogaram-se.

Numa das vezes em que o corpo foi desenterrado, transportaram-no para o adro da igreja de Lobrigos. O povo de Fontes, terra de nascença, quis levá-la. A confusão entre os paroquianos foi tão grande que houve necessidade de chamar o exército de Vila Real. A Igreja ainda não a reconheceu como santa, mas o bispo de Vila Real ordenou que fosse entregue ao povo da sua adoração, S. Miguel de Lobrigos.

Há muitos anos que aquele povo tem uma grande fé na ‘santa’. Em vida chamava-se Maria Rita, mas é conhecida por Justa Rita, por ter sido boa e justa enquanto viva, e por várias graças de que se recolhe facilmente testemunho entre as muitas pessoas da região.

No adro da igreja matriz, um antigo mausoléu de família foi restaurado com o intuito de abrigar o corpo de Justa Rita, depois desta ter passado várias décadas dentro da igreja. Um bispo acabou por determinar a sua saída do ‘edifício sagrado’, e o povo deitou mãos à obra, restaurando e transformando o mausoléu em capelinha, onde ainda hoje é venerada.

Como morreu virgem, Justa Rita tem nas noivas uma imensa quota de veneração. Na sua ‘capela’, onde se encontra vestida de branco, com véu e grinalda, podem ver-se inúmeros vestidos de noiva, sapatos brancos, fotografias de casamentos, cera e muito ouro, oferta de mulheres que vêem na ‘santa’ a protecção para a felicidade no seu casamento.

Um dos grandes defensores da ‘santidade’ de Maria Rita é o ex-sacristão Manuel Santos, exacerbado defensor da proposta de canonização de Justa Rita, que foi obrigado a deixar aquelas funções por imposição do padre. Aliás, certa vez, a própria GNR teve que intervir para que o pároco pudesse entrar no templo, perante a divisão profunda dos paroquianos. De um lado perfilaram-se os crentes em Justa Rita (a grande maioria) – que formaram uma comissão para zelar e abrir o templo todos os dias –, e do outro os que, embora crentes na ‘santa’, juntaram--se ao padre.

Guerras à parte, muita gente continua a venerar Justa Rita. Com ou sem o apoio da Igreja, a fé das gentes é inquebrantável. Na estrada nacional Vila Real-Régua, freguesia de S. Miguel de Lobrigos, encontram-se expostas, há anos, duas placas. No seu verso, que indica o horário das missas dominicais, pode ler-se: ‘Visite Justa Rita’. Seguimos o conselho.

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