Às sete horas de um amanhecer escuro de Janeiro, em Belém, D. Leonor de Távora subia o primeiro degrau do cadafalso onde iria ser executada, dando início à liquidação física de uma das mais poderosas famílias nobres de Portugal
Na noite de 3 de Setembro de 1758, pelas onze e meia, na escuridão da lua nova, uma pequena carruagem segue em direcção ao Alto da Ajuda. De uma azinhaga saiem três cavaleiros embuçados que abrem fogo, sem no entanto conseguirem impedir que o cocheiro, ileso, ponha a parelha a galope. Mais acima, nova emboscada. Dois tiros de bacamarte quase desfazem o espaldar da sege. Por indicação de um dos seus ocupantes, o sargento-mor Pedro Teixeira, a sege mete pela Calçada da Ajuda abaixo, parando na Junqueira, à porta do cirurgião-mor da Corte. Lá dentro, esvaindo-se em sangue, de feridas abertas no braço direito, estava o Rei de Portugal, D. José.
De onde vinha o soberano, a tais horas, numa semana em que toda a Corte observava luto rigoroso pela irmã do Rei?
Esse seria, talvez, o segredo mais mal guardado da Corte, quando não de Lisboa. Era quase certo que D. José regressava de um encontro com a que era publicamente tida como objecto da Real paixão: D. Teresa, mulher do Marquês “novo” de Távora.
Na manhã seguinte, enquanto em Lisboa se murmurava sobre o acontecido, Sebastião José de Carvalho e Melo, o poderoso ministro do Reino, anunciou que o Rei tinha adoecido durante a noite. A rainha assumiu a regência enquanto, na sombra, o futuro Conde de Oeiras e Marquês de Pombal manobrava para descobrir os autores do atentado. Alvos privilegiados serão os Marqueses de Távora e o Duque de Aveiro, o mais poderoso e orgulhoso fidalgo da Corte. Com recurso a testemunhas e intercepção de correspondência vai-se fazendo luz sobre a tentativa de regicídio, seus autores e instigadores, nos quais sobressaem D. José de Mascarenhas, Duque de Aveiro, seu cunhado Francisco de Assis, Marquês “velho” de Távora, e a mulher deste, D. Leonor.
Só a 9 de Dezembro se assume oficialmente a existência de um atentado contra o Rei e é criada a “Junta de Inconfidência”, tribunal para investigar, julgar e executar os autores do acto. O mistério que cobria as investigações é rompido na madrugada de 13 de Dezembro quando a tropa prende o Duque de Aveiro, os marqueses de Távora e de Alorna, os condes de Atouguia, de Óbidos e da Ribeira Grande, e vários criados dos titulares.
Sob tortura, o Duque de Aveiro começa por atribuir a autoria do crime aos Távora, que teriam actuado em defesa da honra da família. Quanto à sua participação, diz ter agido por vingança, motivado por injustiças de que teria sido alvo por parte do Rei. E confessa que a ideia do atentado foi sugerida por padres jesuítas, inimigos de Carvalho e Melo.
Sob tortura todos os acusados se incriminaram a si, aos seus e aos jesuítas, com excepção do Marquês de Távora e seu filho mais novo, D. José Maria. D. Leonor, apontada como “uma das três cabeças da maquinação”, nem foi ouvida mas sofreu o mesmo destino que os restantes.
Ao amanhecer de 13 de Janeiro de 1759, num patíbulo erguido para o efeito, em Belém, iniciava-se um espectáculo macabro. Perante a assistência do povo foi degolada D. Leonor de Távora; em seguida foram executados seus filhos José Maria e Luis Bernardo, o Conde de Atouguia, dois cúmplices plebeus, Manuel Ferreira e Braz Romeiro, D. Francisco de Távora e D. José de Mascarenhas, e o seu criado João Miguel. Os condenados foram amarrados a uma armação em forma de cruz e, antes de serem asfixiados pelo garrote, eram-lhes quebrados os ossos dos braços e das pernas com uma maça de ferro. O outro criado, António Ferreira, foi amarrado a um poste e queimado vivo, enquanto ao lado era queimada a estátua de José Policarpo, o único que escapou à prisão.
No reinado seguinte, de D. Maria I, os Távora seriam inocentados e recuperariam o direito ao uso do seu apelido. O título, esse, extinguira-se para sempre.
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