Em Londres fugiram de um hotel em chamas, no Rio de Janeiro Miguel Ângelo confundiu um autoclismo com um chuveiro. Vinte anos dão muitas histórias
1. O MEDO DO PALCO
Antes de entrar em palco, Miguel Ângelo, sente uma dor de barriga. Uma tensão muscular, ansiedade, uma luta interior. Sente-se cansado. Dez minutos depois parece-lhe que tudo vai ruir. Entra em pânico. Receia que a banda toque mal, que se esqueça das letras, que nada dê certo. O cantor gosta mais de música do que se ver no papel de músico. Porque percebe que fica sempre aquém de algo que viu. Algo que o faz pensar que, provavelmente, nunca conseguirá atingir o nível de outros.
2. TRAVESSIA DO DESERTO
Os Delfins cedo tiveram que atravessar o deserto da indiferença, perceberam que nenhuma editora estava interessada na primeira maqueta que apresentaram (incluía ‘Baía de Cascais’) foram aconselhados a mudar de nome com a justificação de que estavam queimados. O último lugar no Festival RTP da Canção tinha deixado mazelas. Tiveram que pagar para que o primeiro disco, ‘Libertação’, visse a luz do dia. As vendas foram insignificantes e o próprio grupo chegou à conclusão de que “faltava ali qualquer coisa”.
3. A CAMINHO DA FELICIDADE
Em 1990, rescindiram contrato com a EMI que se recusou a gravar ‘Desalinhados’, que definiram como sendo “sem interesse nem qualidade” – mais tarde viria a representar o primeiro grande salto do grupo em termos de público e de vendas. Foi, no entanto, o duplo ‘Ser Maior’ – narrativa em que um golfinho se transforma em homem – e, em 1995, a primeira grande digressão com o alinhamento igual ao que viria a ser o ‘Caminho da Felicidade’, que o grupo percebeu “que alguma coisa de muito grande ia acontecer aos Delfins”.
4. LONDRES EM CHAMAS
Eram onze e tal da noite, os Delfins estavam de rastos. Já não dormiam há duas noites, foram de um estúdio em São Paulo para outro em Londres com as bobines do ‘Saber Amar’. Assim que se deitaram, foram despertados por uma sirene que não parecia vir do interior da cabeça. Miguel Ângelo telefona para a recepção e um sotaque anglo-paquistanês grita-lhe: “Fire! Fire!” (fogo! fogo!). O cantor desce pelas escadas de incêndio e sai para a rua, com três graus negativos, só de 't-shirt' e calções. Estavam em Hyde Park. Para ele, aquele momento teve algo de místico.
No Brasil, depois de terem ido parar a um lugar GLS (‘gays’, lésbicas e simpatizantes), Miguel Ângelo puxou inadvertidamente o chuveiro em vez do autoclismo e, às 4 da manhã, voltou para o bar encharcado. No dia seguinte, os Delfins ficaram fechados no elevador de um estúdio do Rio de Janeiro: estavam 40 graus. No programa da Xuxa, com o Fernando Cunha e o Luís Sampaio sitiados no estúdio em S. Paulo, qual não foi o espanto quando percebem que um técnico estava a substituir o teclista com uma pandeireta.
Naquela altura em que usavam as ‘t-shirts’ pós-modernas do Nuno Gama com imagens religiosas como a Nossa Senhora e Jesus Cristo, algumas pessoas mostraram-se visivelmente irritadas pela ousadia. Houve até uma história complicada de “perseguições psicológicas”. Uma senhora de Gaia, casada, da Igreja Universal do Reino de Deus, entrou num desvario em que acreditava que o Miguel Ângelo era um enviado de Nossa Senhora de Fátima.
Momento de ouro foi a abertura do concerto da Tina Turner, em Alvalade, em 1991, perante 65 mil pessoas. Como o camarim destinado ao grupo era o único que tinha cerveja, receberam incontáveis visitas clandestinas do pessoal técnico estrangeiro, sujeito à lei seca durante toda a ‘tour’. A badalação foi tal que até o saxofonista - aquele musculoso que entrava nos vídeos da cantora das pernas famosas - ficou sem o instrumento em Lisboa.
Em 1996, 600 mil pessoas assistiram a 66 espectáculos dos Delfins em todo o País, no Brasil, Suíça, Inglaterra, Marrocos e África do Sul. Nesse ano receberam onze discos de platina correspondentes a mais de 440 mil discos vendidos. Eram os tempos de ‘Saber Amar’, de desbravar caminhos, de aprender a andar e a amar. As dúvidas eram então muitas e as certezas novas e por conferir. Depois de reconquistada a inocência perdida, o ano passado não tocaram no estrangeiro e, apesar de terem feito a digressão Lótus Rádio, não foram além de cerca de 20 concertos.
A visibilidade mediática dos Delfins residiu no facto de Miguel Ângelo ter sido júri do ‘Selecção Nacional’ e do ‘Chuva de Estrelas’ e apresentador do ‘Cantigas da Rua’. “A minha grande condição para apresentar este programa foi não cantarem música 'pimba' porque senão ia rir às gargalhadas.” Foi graças à televisão que a banda ganhou milhares de novos fãs. As vendas do ‘best of’ da banda explodiram. A glória viria a ter lugar na baía de Cascais num concerto para oito mil pessoas.
O disco ‘Delfins’ representa para o grupo um passo em frente, que só será compreendido no futuro. Eles acham mesmo que é um dos seus melhores trabalhos de sempre, aquele em que atingiram a liberdade artística. Dizem que pediram às pessoas para (ouv)irem mais longe, mas que, afinal, vivemos “num país em que a formatação avança nas rádios e nos jornais e em que muita gente se move por grupos de interesse e tem medo de ter uma opinião própria, diferente da dos outros que ponha a sua existência social em risco”. Conclusão: foi mal visto pela crítica.
11. NA SUÍÇA, COM VACAS
‘Num Sonho Teu’ foi gravado na Suíça, em 1996, num estúdio com vacas e relva à volta. Um estúdio por onde tinham passado lendas dos anos 70, como os Emerson, Lake and Palmer. A mulher do dono do estúdio (Taurus studios) fazia uns bolos óptimos, cheios de calorias, para os intervalos. Na digressão Suíça eram sempre levados a restaurantes portugueses. Num acto de revolta, em Zurique, Miguel Ângelo rumou a um restaurante especializado em 'fondue' de queijo. Quem não gostou foi Luís Sampaio, que reage ao cheiro do queijo como o Miguel ao cheiro das tiras de milho. Naquela noite já não se encontraram mais. O cantor seguiu para uma ‘rave party’ o Luís e o Fernando Cunha para um restaurante espanhol.
12. CLÍNICA DA MÚSICA
Há uma ‘divisão’ no espólio dos Delfins cheia de temas inacabados, os chamados ‘cancros’. É reconfortante para o grupo conseguir ‘curar’ alguns desses temas e gravá-los mais tarde. Tal é o caso de ‘O Teu Nome’, que cheira muito a 80’s. Quanto a 'Um Lugar ao Sol', está sempre a ser reformulado. Quando gravaram este tema pela segunda vez, em 1989, fizeram uma directa, e a única coisa que havia para comer no estúdio eram pacotes de tiras de milho. Resultado: no dia seguinte, Miguel Ângelo teve uma gastroenterite, 39 graus febre, e uma repulsa abominável (que dura até hoje) ao cheiro de tiras de milho ou derivados.
Nos Açores gravaram 'Não Vou Ficar' para o filme de Luís Filipe Rocha, ‘Adeus, pai’. Conheceram Manuel Fernandes, um dos heróis das suas infâncias, e com ele confraternizaram pela noite fora. Apanha-ram o ex-jogador e agora treinador numa festa de despedida do Santa Clara, já de malas aviadas para o clube do coração dos cinco Delfins. Chegaram a telefonar-lhe antes de um Sporting Porto para lhe dar sorte. Não se lembram do resultado.
Os Delfins conheciam os Barão Vermelho dos discos e achavam que a voz do Roberto Fréjat encaixava que nem uma luva no tema 'A Primeira Vez'. O contacto deu-se através dos ‘managers’, mas a simplicidade e simpatia do Fréjat ultrapassou qualquer burocracia artística. Muita pena foi que três dos convidados chave para este disco se vissem impossibilitados de participar: Herbert Vianna, por estar em digressão com os Páralamas do Sucesso pela América Latina, Fernanda Abreu por estar com 40 graus de febre na cama e o enorme Renato Russo por ter falecido meses antes da ida do grupo ao Brasil.
A canção 'Hoje' foi estreada ao vivo, na noite de passagem de ano 1999-2000, em Barcelos. Foi uma noite de despedida de século e de baterista. Foi o último concerto que Emanuel Ramalho fez com os Delfins, depois de oito anos de cumplicidades e muitos palcos. Regressava pouco depois Jorge Quadros, baterista original da banda, também oito anos perdido noutros filmes, entre Cascais e Guiné-Bissau. O concerto, transmitido 'online' em directo, foi ao ar livre numa noite em que estava um frio de rachar.
16. DEBAIXO DA TERRA
Gravar um vídeo pode ser muito esgotante. Depois de um dia inteiro de filmagens na Lagoa Azul, os Delfins rumaram a um parque de estacionamento em Oeiras, no subterrâneo de um centro comercial.
Aí estiveram, por entre a fumarada dos escapes dos automóveis, a gravar até às 5h30 da manhã. Cada 'take' tinha de contar sempre com aquela energia primária do “estamos aqui a curtir, que grande onda, somos uma banda!”. Onde andava o sindicato dos músicos? Custou bastante, mas o resultado final de ‘Tempestade’ valeu o sacrifício.
17. BABILÓNIA EM BARCELONA
Por vezes gravar vídeos é esfuziante. Os Delfins viram-se em Barcelona, ao volante de um descapotável roxo dos anos 70, a gravar 'Babilónia'. Bem, ao volante é como quem diz, uma plataforma mágica fazia tudo pelo condutor. Às voltas na cidade de Gaudí, a cantarolar, com os espanhóis a mirarem espantados. Momento antológico foi a passagem pela marina de Barcelona, quando começou um fogo-de-artíficio que parecia encomendado. Os U2 copiariam a ideia num teledisco.
18. PEDREIROS DO LÓTUS BAR
Por altura da saída do single ‘É preciso’, estavam os Delfins quase a abrir o Lótus Bar, em Cascais. Já não olhavam a meios para conseguirem ter tudo pronto a horas e esqueceram-se de uma entrevista com um canal televisivo no próprio bar. Estavam muito atarefados nas funções de carpinteiros, pedreiros, arquitectos, pintores, designers, decoradores quando a equipa de televisão irrompe pelo bar. A sua visão deve ter sido marcante: cinco Delfins em fatos de macaco, ganga sarapintada e cabelos desgrenhados. A gargalhada, depois do ar atónito da equipa, surgiu depois do Fadigas ter balbuciado: “Pá, é preciso”.
19. AMANHÃ COM EL CID
Depois de terem escrito e editado o tema ‘Hoje’ apareceu o ‘Amanhã’. A piada é que falta o ‘Ontem’ para igualarem o trio histórico do José Cid, ‘Ontem, Hoje e Amanhã’. Em 1994, os Delfins foram tocar a Macau, e outro dos convidados era o José Cid. No último concerto que deram, atacaram o ‘Lugar ao Sol’. Quando chega a altura de o tema acabar, o baterista continuava sem parar. Qual não foi o espanto, quando Miguel se vira para trás e vê que o baterista era José Cid. Tinha expulsado o Ramalho.
Entre felicidade e tormentas, os Delfins vão continuar a perseguir o caminho da verdade, ou, por isso, o caminho da tempestade. Porque a tempestade e a bonança são as duas ocorrências que regem qualquer carreira longa de uma banda. Uma traz a outra e são complementares. É preciso que se perceba e saiba lidar com isso para poder continuar a percorrer o caminho. Depois, “nas piores alturas”, é preciso acreditar naquele velho ditado do Oeste: “Os cães ladram e a caravana passa.” Quanto aos melhores momentos, muitas vezes, tal como todos nós, os Delfins nem dão conta deles.
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