Com a aproximação das eleições estado-unidenses e a crise económica, vale a pena rever ‘Dogville’ e ‘Manderlay’ (Lars von Trier, 2003 e 2006), que, apesar de integrarem uma trilogia (por concluir) sobre os EUA, reflectem sobre os valores religiosos e sobre a democracia difundida pela civilização grega. Ou seja, questionam todo o sistema ocidental. Aliás, as fábulas/parábolas de Trier ambicionam julgar (sumariamente) toda a Humanidade. Desde os seus primórdios.
Estes filmes revelam um mundo liderado por gangsters que discutem os mais elevados conceitos, rodeados de metralhadoras, numa espécie de reportagem platónica. Em ‘Dogville’, o martírio feminino – tão querido a este cineasta – interpela o capitalismo, a imigração (o forasteiro) e a caridade. Em ‘Manderlay’, discute-se o dogma da democracia. Que, implantada à força, desencadeia as desgraças que a ditadura controlava.
A provocação de Trier estende--se a todos os que professam uma fé religiosa no progresso, crentes na salvação da Humanidade através dos seus ideais. A mesma que o filósofo John Gray tanto encontra nos comunistas como nos adeptos da exportação da democracia (como no Iraque) e do laissez-faire do mercado liberal.
Assim, a ressonância destes filmes é bíblica. Constantemente, filma-se de cima, em picado, reafirmando a presença 'daquele que tudo vê e tudo ouve'. Apresentam-secenários minimalistas sem paredes ou portas.Mas onde apenas o espectador tem consciência da nudez daquelas vidas. As personagens são transparentes ao seu olhar. Assim como dizem que Deus faz. Ou seja, o espectador tem acesso ao Seu ponto de vista.
O final apocalíptico de ‘Dogville’ está à altura das grandes pragas lançadas pelo Jeová Vingador do Último Testamento: um dilúvio de balas e fogo. Menos que aniquilação de todos os iníquos daquela povoação seria decepcionante e o filme termina com a sensação de justa vingança. Não se oferece a outra face. Para Trier, a civilização de ‘Dogville’ não merece Redentor. Na melhor das hipóteses, vale um Anti-Cristo.
Estes filmes podem ser entendidoscomo avisos. Mas não se comprometem com alternativas depensamento/ acção. O que sobra não é reaccionarismomas simplescomodismo? O semideus Trier subjuga os actores e os espectadores, não lhes dando hipótese de julgarem por si próprios. À imagem e semelhança daqueles que denuncia.
MOTIVO OCULTO
Um trabalho que demonstra que este realizador é um escritor de filmes é ‘Europa’ (1991). Mestre da narração em ‘off’ e da defesa de perspectivas provocadoras, Trier reabilita a mitologia dos lobisomens (nazis que resistiram no pós-guerra). Paira a dúvida sobre os seus motivos. Para além da sua brilhante autopromoção.
DOLO VIRTUOSO
Em ‘Ondas de Paixão’ (1996), o realizador opta por uma narrativa híper-melotrágica. O seu objectivo primordial é infligir dor ao espectador, para que a Redenção só surja depois de o filme terminar. Não há escapatória em vida ao virtuoso determinismo fatalista de Trier.
TRIBUNAL DE IDEIAS
Outro filme teatral de ideias é ‘Wittgenstein’ (Derek Jarman, 1993), que explora a relação entre os pensadores e a sua praxis. Wittgenstein foi o desbravador da selva da linguagem mas também o homem cuja ira era despertada pela ausência de lógica no pensamento humano.
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