Um ‘chulo’ e uma actriz pornográfica, uma ‘stripper’ e um ‘travesti’, um comerciante de produtos sexuais e um padre consumidor de revistas porno. Histórias de gente que faz da sexualidade um modo de vida
Ana e Manuel são companheiros desde a adolescência. Vivem nos arredores de Lisboa. Ela tem 26 anos e faz filmes pornográficos onde ele, de 29 anos, também participa. Mas a verdadeira fonte de rendimentos do Manuel “está nas mulheres que agencia e protege nas ruas”. É aquilo a que as pessoas se habituaram a chamar “chulo”. Os dois admitem ser “libertinos e experimentalistas” e adoram “sensações fortes”. Começaram por fazer fotografias pornográficas para “consumo próprio” e, depois, passaram ao vídeo. Até que, um dia, mostraram as cassetes aos amigos e um deles disse-lhes que podiam ganhar muito dinheiro. Manuel fez cópias e vendeu-as.
E assim começou tudo. Algumas das cassetes entraram no circuito comercial, outras não passaram de edições caseiras. “A Ana sempre curtiu ser estrela. Falei-lhe na possibilidade de enveredar por uma carreira de actriz porno e ela achou giro. Aí, passei a agenciá-la”, revela Manuel, acrescentando: “Hoje em dia, já sou agente de mais seis actrizes porno que eu mesmo descobri e pus no circuito. Dão-me uma percentagem do que ganham. Às vezes ainda lhes arranjo uns clientes para atendimentos personalizados e, a elas, ninguém toca ou explora. Estou aqui para protegê-las”.
Manuel não se importa de ter o rótulo de “chulo”. “As pessoas pensam que eu vivo do trabalho delas, mas isso é falso. Sem mim, elas não se aguentavam nesta vida. Os ambientes são muito duros. O que hoje é bom amanhã não presta. Há que defender o investimento. E eu farto-me de dar ao litro, sempre à procura de novos trabalhos para elas”, diz.
SÓ PELO DINHEIRO
Ana lida bem com a vida dupla. “Ganha-se dinheiro, mais do que com um emprego fixo. Ao princípio ainda me custava um pouco. Mas eu e o Manuel já tínhamos feito muitas fotografias e filmes do género, só entre os dois. Agora, já faço tudo em automático. Sou muito profissional. É só sexo”, descreve. “Muitas vezes o meu ‘marido’ faz-me companhia. Ele excita-se ao ver-me a fazer sexo com outros homens”, acrescenta. Também com mulheres? “Com tudo. Depende do argumento. Acaba sempre tudo embrulhado no fim. Pornografia é assim mesmo. Não é para poetizar.”
“Quando faço as cenas, por muito fortes e reais que possam ser, estou a expulsar os meus demónios. É como uma terapia. Só que em vez de pagar, ainda recebo por isso”, diz. Não sente propriamente prazer, mas quando o filme termina “é como se tirasse um peso de cima dos ombros”. “Sinto-me bem. Com boa auto-estima. Vou para casa, como um bom jantar e espero pelo próximo. Nunca me faltou dinheiro. Muitas vezes o pagamento é feito consoante se vai vendendo os vídeos. Por isso está sempre a entrar dinheiro. Houve uns tempos em que estive parada. Foi quando o Manuel arranjou mais umas actrizes para agenciar. Mas depois apeteceu-me voltar. O dinheiro dá sempre jeito”.
Ana não recusa fazer esta ou aquela cena? “Ao princípio incomodava-me quando era possuída por dois ao mesmo tempo. Não estava habituada. Hoje em dia já me enrolo com muitos mais em certos argumentos. Agora é-me indiferente. Claro que tomo certas precauções... uso sempre preservativo e nunca engulo...”
À parte do trabalho que exerce para ganhar a vida, Ana assegura que é “igual às outras pessoas”. “Tenho os mesmos desejos, durmo, como, tenho casa, companheiro e estou a pensar ter um filhote”. Quanto ao sonho: “Gostava de entrar num filme da Playboy. Mas é difícil...”
UM CORPO DE SONHO
“Sexo por dinheiro? Nunca o fiz, nem farei. Ganho o suficiente com o que faço e só vou para a cama com quem quero”. Jasmin, 26 anos, é húngara, é loura e tem olhos verdes e um corpo de sonho. Trabalha como “stripper” no clube “Passerelle”, em Lisboa, e ganha cerca de cinco mil euros (mil contos) por mês.
Chegou a Portugal há pouco mais de três semanas e diz que nunca foi incomodada quando se despe, lentamente, encostando o corpo na cara de quem pagou a “lapdance”. “Os homens respeitam o que faço. Sabem que sou uma profissional e não me podem tocar. É raro encontrar homens tão cavalheiros como os portugueses.”
Ao contrário do que sucede com a maioria das suas colegas, Jasmin não fecha os olhos quando tem de subir ao palco. “Enquanto danço e me vou despindo, gosto de me sentir desejada. Não olho para o vazio, mas para os olhos das pessoas. É uma boa sensação. Sei que sou ‘sexy’, pela reacção de quem me vê”, refere.
Em Portugal há quase um mês, Jasmin assegura que apenas conhece o aeroporto e o caminho entre a casa onde vive e o local de trabalho. “Infelizmente, ainda não tive tempo de passear.” Mas vou arranjar. E agora, adeus, é a minha vez”, despede-se, a caminho do palco. “Se tenho namorado? Não. Pode ser que arranje um português. Porque não?”
AS ‘BICHINHAS’ TRAVESTIS
Nos últimos anos, no mundo da noite e dos ‘shows eróticos’, os ‘travestis’ têm conseguido grande projecção, diz Domingos Machado, mais conhecido como Belle Dominique. “Em 1976, quando comecei, foi por brincadeira. Mas continuei. De há uns dez anos para cá, o espectáculo degradou-se. Agora, qualquer ‘bichinha’ com coragem para se vestir de mulher acha logo que pode protagonizar um espectáculo”.
Domingos é alentejano, de Moura, e a família sempre soube deste seu ‘part-time’. O nome artístico arranjou-o na escola. “Chamo-me Domingos e, na brincadeira, os meus colegas transformaram-me em ‘Dominique’. Acrescentei-lhe ‘Belle’...”
De dia, Domingos Machado deixa as plumas e as lantejoulas em casa, quando sai do Cacém e ruma a Lisboa, à RTP, onde trabalha como assistente de realização. Reconhece, no entanto, que é bem pago para fazer ‘shows de travesti’. “Já ando nisto há 25 anos. Sou um ‘entertainer’. Faço mais que vestir-me de mulher e cantar em ‘playback’. Hoje em dia, muitos espectáculos são de qualidade duvidosa”, comenta. “A capacidade de criação e de encenar não existe. Por isso, o espectáculo de travestismo está circunscrito actualmente aos bares gay e a casas de alterne, onde nunca gostei de trabalhar”, lamenta.
Belle Dominique assegura que, pessoal e profissionalmente, leva uma vida normal. À noite tem o seu show regular no espaço “FF”, na Calçada do Patriarcal, ao Príncipe Real, em Lisboa. Não é casado nem tem filhos, mas diz-se satisfeito com a vida.
UM PADRE NA ‘SEX-SHOP’
Horácio Gomes Pinto, casado e pai de três filhos, é o proprietário de duas lojas Mega Sex, dedicadas aos produtos eróticos. “Trabalhei na Marinha Mercante e, por esse mundo fora, tomei contacto com ‘sex-shops’. Foi quando resolvi meter-me no negócio e abrir as lojas em Lisboa”.
A desvantagem entre as suas casas e outro tipo de comércio tradicional é a lei: “Quis estabelecer-me na Rua Augusta e nas Portas de Santo Antão, mas a lei proíbe este tipo de comércio a menos de 300 metros das Igrejas”. Contudo, nenhuma lei impede os eclesiásticos de entrarem nas suas lojas. “Há anos, entrou um padre de gabardine, com a gola levantada, que lhe escondia o cabeção. Escolheu uma revista pornográfica e, ao tirar a carteira do casaco, lá deixou escapar o disfarce.”
Quanto aos clientes, refere que 40 por cento são mulheres. “Querem, sobretudo, vibradores e ‘lingerie’. Os homens preferem DVD, cassetes e vídeos pornográficos”.
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