Há cinco mil anos, e durante um milénio, vivia um povo em terras que hoje se precipitam na entrada de Reguengos de Monsaraz. Os arqueólogos estão a cuidar de saber quem era esta gente.
Perdigões e Reguengos de Monsaraz estão separados por um quilómetro. Às 17h00, o sol arrasa o brilho sobre um manto de parras agarradas à terra. Num olhar atento avista--se uma tenda branca entre a surriba interrompida – é lá que se regressa ao 3.º milénio (ou, mais precisamente, entre 3200 e 2200 a.C.). Diz-se que aquele povoado é mágico. Presume-se que lá viveram gentes dedicadas à agricultura, pastoreio e caça, fabrico de tecidos e cerâmica, e que teriam uma actividade metalúrgica.
Há cinco mil anos seria uma metrópole de 16 hectares, com actividades paralelas às que se desenvolviam há cem anos naquela região. O nascimento desta hipótese para descrever a vida pré-histórica – numa terra do Alentejo de hoje – surge no início do estudo, arrancado em 1997 quando José Roquette tentava anexar outra vinha à Herdade do Esporão. Só que estas são algumas das suposições que dividem os arqueólogos da Península Ibérica.
“Ossos humanos” – acusa um autocolante num balde semelhante aos que se levam para trabalhos comuns na horta. No terreno do regresso ao passado, Perdigões, trabalha-se debaixo de calor. Mangas cavas de camisola, calções ou jeans aliviam os movimentos dos escavadores. Um arqueólogo e quatro antropólogos estudam minuciosamente os fragmentos de esqueletos humanos retirados de um sepúlcro. Aquela espécie de jazigo comum pode encerrar a chave para o conhecimento dos nossos antepassados. Cada fémur que se retira, crânio, ou uma simples falanginha animam os investigadores.
Mas ainda não há vida conhecida em Perdigões. Dia após dia, procuram-se vestígios de matéria orgânica, daí retira-se uma espécie de B.I. do indivíduo, através do teste de Carbono 14 (ao preço de 500 euros cada). Acontece que no primeiro sepulcro – de dois já encontrados – as ossadas de cerca de 120 pessoas não tinham o tão desejado passaporte para os conterrâneos de Monsaraz há cinco mil anos. Sabe-se, porém, que a esperança média de vida daquela população não chegaria aos 50 anos.
Os fragmentos deixados na povoação contemporânea à construção das Pirâmides na margem do Nilo, Egipto, lembra à Domingo José Roquette, não se ficam por aqui. Claro que as pessoas deixaram as marcas da sua passagem. Entre os restos de esqueletos havia objectos que contam estórias. Pouco se sabe da beleza que ornamentava os mortos, mas antevê-se a preocupação: o que há para além da morte? Muitos foram sepultados com contas de colar em pedra verde e pinceladas de azul, peças esculpidas em osso polido, pulseiras, alfinetes. Tudo fazia parte de um ritual.
Entre estes fragmentos, no museu da Torre do Esporão, reconstruída na herdade homónima, ninguém fica indiferente a um “báculo”. O símbolo do pastor, que nas sociedades rurais pode assumir uma imagem de poder. Só que é preciso continuar a escavar para saber como era a vida nos Perdigões.
Não fosse aquela tenda onde se abrigam os especialistas que trabalham no sepulcro, a povoação estava adormecida. Escondida nas silvas. Há nove anos, quando o patrão da Finagra, S.A. – que detém a Herdade do Esporão – sobrevoou aquela zona, os trabalhos de preparação dos terrenos para a plantação da vinha estavam a pôr a descoberto um património. Emergiam marcas dos fossos circulares que encerravam aquele povoado, dos mais importantes.
Segundo o arqueólogo António Valera, esta forma de construção concêntrica, num vale aberto para Monsaraz, “traduz a visão cosmológica que ali se viveu”. Formulam-se teorias: “Não ponho reservas a que aquilo seja uma área residencial. Mas não pode ser entendida como, meramente, funcionalista – como o nosso actual quotidiano.” Tinha que haver “um poder atractivo muito forte sobre os restantes povoados”, defende.
Não é novidade que aquelas terras sejam férteis para a agricultura e fauna. Mas os motivos religiosos encontrados numa primeira fase – já que as primeiras referências datam de 1983 – podem abrir pistas a um passado “místico”. A menos de dez metros da entrada da povoação voltada para Este – a nascente do Sol –, há um tipo de santuário que poderia ser popular na região. Outro arqueólogo da Era, a empresa que ganhou o concurso para a investigação, está em consonância com Valera. “Na minha opinião aquele é um sítio onde se viveu”, diz Miguel Lago.
Só que as opiniões dividem-se entre os investigadores. “Não sei se viviam ali as pessoas comuns, talvez uma fracção mais privilegiada”, considera em primeira análise Vítor Oliveira Jorge. Mas como? O catedrático do Departamento de Ciências e Técnicas do Património na Faculdade de Letras, acreditam que aqueles que tinham capacidade de liderança convocavam grupos a construir edifícios, para mais tarde estes os elegerem como líderes. “Faziam daquele sítio um espaço particularmente intenso de concentração de significados.” Ou seja, os edifícios eram mais “simbólicos que funcionais”. O símbolo do líder.
O espanhol Pedro Diaz del-Rio pragmatiza. “Sou mais modesto ou mais ingénuo, quem sabe, e não posso entrar na cabeça dos pré-históricos. Há outros que pensam que sim”, disse à Domingo o membro do Conselho Superior de Investigações Científicas, em Madrid, e arqueólogo.
Também dissonante, apesar de não significar que opiniões diferentes geram o caos, Jose Marquez Romero, da Universidade de Málaga, considera que aquelas seriam populações com uma marcada mobilidade. Os Perdigões seriam um ‘meeting point’ (ponto de encontro) para grupos e familiares se juntarem de tempos a tempos. “É como os movimentos do coração.” As pessoas entravam e saíam do espaço, como batidas cardíacas, para, mais uma vez, fazer o jeito ao coração.
OS NÚMEROS DA DESCOBERTA
HÁ VINHAS PELO MEIO
Perdigões marcam a presença do calcolítico (período da História que sucede ao neolítico). Nesta época fazia-se uso concomitante da pedra e do metal. Na herdade descobrem-se milhares de fragmentos. Dos 16 hectares da povoação, dois não pertencem à Finagra, mas sim a um privado que explora uma vinha.
- 25 mil euros É o máximo que pode ser gasto este ano no projecto, repartidos entre o IPA e a Finagra
- 16 hectares É a área dos Perdigões, que fica localizada a um quilómetro a Nordeste de Reguengos
- 4400 m2 Espaço funerário onde os trabalhos avançam, para já esta é a única área em exploração
- 3200 a.C. Tudo começou, pelo que se presume, nesta época e perdurou durante cerca de mil anos
POUCA PARRA, MAIS HISTÓRIA
O empresário José Roquette mudou a sua estratégia na vinha, de forma invulgar: decidiu investir na arqueologia.
JOSÉ ROQUETTE
Idade: 69 anos / Profissão: Empresário
A pré-história contagiou-o. José Roquette ganhou a motivação de querer “saber como viviam as pessoas há cinco mil anos” e... em terras suas. Investiu um milhão de euros nos Perdigões para que, disse à Domingo, “se traga à superfície, mais rapidamente que os meios comuns, um povoado que é das primeiras manifestações conhecidas da fixação do povo nómada”, nesta região da Europa.
Mas o homem-forte do Esporão e do Parque Alqueva ambiciona mais. “Quando [a investigação] estiver com um andamento mais vivo daquilo que se passa hoje, se imponha uma abertura ao público para ver os arqueólogos a trabalhar.” E assim que a vivência daquele povo seja descoberta, quem sabe se não seria boa ideia animar as visitas com pessoas trajadas à época? A verdade é que a ambição, invulgar num empresário, procura dar ao Alentejo mais um motivo de turismo, aliado ao património arqueológico. O que se insere na linha do que a Herdade do Esporão tem vindo a fazer com o enoturismo. O museu da Torre do Esporão (séc. XIV), restaurada ao mesmo tempo que a Capela de Nossa Senhora dos Remédios (séc. XVI), é a prova de que os fragmentos dos Perdigões não estão fechados numa gaveta. Ali podem ser visitados e, aguarda-se, que possam fazer parte de um espólio dedicado àquela povoação.
Em 1997, José Roquette ganhou esta reviravolta na sua pretensão de fazer da Herdade dos Perdigões uma vinha, que iria somar às muitas que possui com a Finagra, S.A.. As máquinas já trabalhavam na lavoura agrícola e, do céu onde subira de helicóptero, avistou o que poderia ser um tesouro. Trocou a vinha pela arqueologia, assim que chegou o parecer positivo. Aquela terra tinha história.
Agora, os meios disponíveis não permitem avançar mais depressa. A Finagra financia uma parte substancial da investigação e o Instituto Português de Arqueologia (IPA) cobre o resto. Este ano, os trabalhos estão orçados em 20 a 25 mil euros. E o objectivo é terminar a intervenção no segundo sepulcro.
Segundo Miguel Lago, o administrador delegado da Era – Arqueologia, a empresa que venceu o concurso aberto pela Finagra para desenvolver as investigações, “a partir do momento que se soube que isto era importante, nunca houve nenhum tipo de pressão. Pelo contrário.” O arqueólogo referia-se à posição assumida por José Roquette. Aliás o próprio patrão da Finagra avançou com o dinheiro para não se perder mais tempo e só depois, segundo Miguel Lago, em 2000 o IPA financiou uma parte, até hoje. Entretanto o Instituto Português do Património Arquitectónico está a ultimar a classificação dos Perdigões como património, para garantir a sua preservação.
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