O mármore das pedreiras alentejanas é considerado o melhor do mundo mas vive dias de agonia. A crise é só uma das razões.
Manuel Lobinho aponta para o gigantesco elevador que faz subir um camião carregado de pedras à superfície da enorme cratera de mármore. "Já tinham visto alguma coisa assim? Este elevador é único no Mundo", diz, com indisfarçável orgulho, o encarregado da pedreira Plácido José Simões, uma das que ainda resistem na zona de Borba. A 90 metros de profundidade, os trabalhadores cortam as pesadas lâminas de mármore, por enquanto ainda a maior riqueza da região. Grande parte destas pedras vai acabar em casas, hotéis e palácios do Médio Oriente, mas a crise é a palavra que mais se houve sobre os mármores alentejanos.
Manuel tem 51 anos e trabalha nos mármores da zona de Vila Viçosa, Borba e Estremoz desde os 14. Encarregado da única pedreira em actividade da empresa Plácido José Simões, tem visto as encomendas e os postos de trabalho a desaparecerem nos últimos anos. "Só aqui já fomos 17 funcionários. A empresa chegou a ter cinco pedreiras a funcionar, mas hoje somos 13 a trabalhar apenas numa exploração. Desde a guerra do Iraque que o mármore entrou em crise", explica.
Por ali, as máquinas de fio diamantado (cabos de aço com partículas de diamante incrustadas) ainda cortam as enormes pedras ao ritmo de oito a nove metros por hora, mas o destino de cada uma destas peças é cada vez mais incerto. O mercado do Médio Oriente continua a ser o principal comprador do mármore alentejano, mas os custos de produção e o euro quase 50% mais caro do que o dólar têm deixado a indústria à beira do colapso.
Jorge Plácido, um dos dois irmãos que dirige a empresa criada pelo pai há mais de 30 anos, fala do paradoxo que ameaça a região: "Temos a funcionar uma pedreira de onde extraímos o melhor mármore do Mundo. Mas, para manter a fábrica a funcionar, vejo-me obrigado a importar mármore de outros países, ainda que de menor qualidade", explica o empresário.
São várias as razões que explicam as dificuldades do mármore alentejano, e nenhuma delas de fácil solução. "Não consigo competir com os custos de produção de países como a Espanha ou a Turquia. Não temos ajudas no preço da electricidade nem do gasóleo, como acontece nesses países", diz Jorge Plácido. Mas há outro factor ainda mais difícil de contrariar: "O mármore daqui vai do rosa ao branco. Se um arquitecto quer usar outras cores, como o preto, o verde, ou o azul, não temos esse tipo de pedras na nossa região, somos obrigados a importá-las".
A extracção do mármore das entranhas da terra tem muito de engenho, mas a sorte joga também um papel crucial. A qualidade da pedra define-se pela ausência de veios. Quanto mais ‘limpa’ e uniforme for a superfície, maior o seu valor. Mas isto é algo que escapa por completo à vontade dos homens – só depois de cortados os enormes blocos é que se pode perceber qual a categoria do material que a terra esconde. É a Natureza que decide o preço a que se vende. "A qualidade é a mesma, a diferença é só estética, mas sempre foi assim e sempre será. O único mármore que tem bom preço garantido é o de primeira qualidade, que é cada vez mais raro", diz Jorge Plácido.
Ao seu lado, o intermediário Masd Katura concorda: "O mármore daqui é o melhor mármore do Mundo". Nascido na Jordânia, Masd vive em Portugal desde 1992 – tem cá mulher e filhos e até já recebeu a cidadania portuguesa. Desde então que negoceia mármore para o Médio Oriente, com a Arábia Saudita à cabeça. "Com a escassez de material de primeira categoria, os países árabes compram cada vez mais mármore de segunda ou terceira, a preços muito mais reduzidos", diz.
Masd Katura acusa os portugueses de não darem valor ao material que extraem das pedreiras: "Começaram a vender para muitos clientes e o excesso de oferta estragou o preço". E dá um exemplo: "Ainda hoje comprei a uma pedreira alentejana um lote de mármore a metade do preço que negociei há seis meses. Estão a vender abaixo do custo de produção, mas, se não fizerem receita rapidamente, correm o risco de fechar as portas. Para mim também é muito mau, porque os meus clientes exigem preços cada vez mais baixos e as margens ficam muito reduzidas", diz Masd.
As pedras de Borba, Vila Viçosa e Estremoz, conhecidas em todo o Mundo pela designação Rosa Portugal, continuam a seguir para palácios, hotéis e grandes edifícios públicos da Arábia Saudita ou do Dubai, mas se as quantidades compradas ainda permitem manter as pedreiras activas, os preços praticados deixam a indústria à beira do colapso. O mercado europeu, sobretudo Espanha e Itália, ainda faz algumas encomendas, mas os negócios rareiam.
Perto de Vila Viçosa, Bencatel é uma pequena localidade que vive quase exclusivamente do mármore. É ali que António Manuel Alves tem a sua pedreira, "uma das que tem tirado mármore de melhor qualidade da região", afirma Miguel Gomes, um dos principais intermediários na exportação das pedras portuguesas. Em contracorrente com o que dizem os colegas, António Manuel – que sucedeu ao pai na administração da empresa Ezequiel Francisco Alves – diz-se optimista. "Sinto o efeito da crise, mas ainda consigo vender o material todo. A situação está a melhorar desde Maio".
O empresário, que emprega 35 funcionários em Bencatel e tem ainda outra empresa em Pêro Pinheiro, Sintra – outra zona de extracção de mármores – prepara-se para retomar a exploração de uma segunda pedreira no Alentejo, contrariando a tendência das últimas décadas: "Há 15 anos havia 230 pedreiras a funcionar nesta região. Hoje não serão mais de 70". Quase toda a produção da Ezequiel Francisco Alves vai para o estrangeiro – mais uma vez para países do Médio Oriente. António tem 48 anos e três filhos. Apesar do optimismo a curto prazo, não vê maneira de os filhos pegarem no negócio: "Daqui a 15 a 20 anos esta indústria vai acabar por falta de matéria-prima".
Miguel Gomes é visita frequente das pedreiras e fábricas do Alentejo e de Pêro Pinheiro. Há muitos anos que exporta pedras portuguesas e estrangeiras, tendo no mercado árabe os seus principais clientes. Percorrendo com ele os enormes armazéns da fábrica Mármores Galrão, uma empresa de Pêro Pinheiro com a qual trabalha e que importa e exporta pedras ornamentais, é fácil de perceber as dificuldades do mármore português. Ali estão em exposições pedras de todo o Mundo: mármores amarelos e castanhos do Brasil, mais escuros do Irão, vermelhos da Índia, enfim, todo o mundo desta pedra num armazém da vila sintrense.
Miguel mostra as placas já cortadas e explica as diferenças: "Está a ver, estas placas que vêm de fora tem de levar muita cola e uma estrutura de tela para se aguentarem. O mármore português não precisa de nada disto. Não empena, resiste ao calor e as cores mantêm-se ano após ano. Mas os arquitectos não estão sensibilizados e não têm muita apetência pelo nosso mármore".
DIAMANTES NO MÁRMORE
É a velha história que se repete desde a revolução industrial: A máquina aperfeiçoa-se, a produção aumenta, os homens tornam-se dispensáveis. A indústria do mármore mudou radicalmente há cerca de 20 anos, quando se começou a usar fio diamantado (com partículas de diamante) para extrair e cortar o mármore, em vez de cabos de aço. "Antes cortar 60 a 80 cm por dia já era bom, hoje conseguimos extrair oito a nove metros de pedra", explica Manuel Lobinho, encarregado de uma pedreira.
INTERMEDIÁRIO APONTA EXCESSO DE IMPOSTOS E O VALOR EXCESSIVO DO EURO
A trabalhar no sector desde 1988, Miguel (foto à direita) aponta o dedo ao Estado por não proteger as indústrias portuguesas: "Não podemos concorrer com outros países em nada. Nem na electricidade, nem no gasóleo, nem no IVA que pagamos. E depois ainda temos de pagar de imediato os impostos calculados sobre facturas que só são cobradas muitos meses depois. As empresas vivem em asfixia permanente, há quem tenha de pedir empréstimos aos bancos só para pagar os impostos".
Os países árabes, ainda os principais importadores de mármore, escolhem matéria de segunda e terceira categoria e procuram sempre os preços mais baixos. "Há cinco anos, chegava a exportar 130 ou 150 contentores por mês. Hoje não passa dos 60. O preço a que está o euro é incomportável, porque um comprador da Arábia Saudita ou da Jordânia, que paga em dólares, tem um agravamento de 50% no preço a que vendemos".
PRODUÇÃO E RECEITAS EM QUEDA LIVRE DESDE 1999
A frieza dos números mostra a fragilidade do sector dos mármores na última década. De acordo com os dados oficiais da Direcção-geral de Energia e Geologia, entre 1999 e 2007, tanto a produção como as receitas geradas pelo sector têm vindo a cair ano após ano.
Em 1999 o mármore era, de longe, a rocha ornamental que mais receitas gerava em Portugal – 48,7 milhões de euros. Sete anos depois, o mármore gerou apenas 34,6 milhões de euros, abaixo dos calcários (41,7), dos granitos (43,5) e até da pedra para calçada (36,6).
Quanto à quantidade produzida, em 2007 retirava-se das pedreiras quase metade do mármore extraído em 1999 – de 383 mil toneladas passou-se para 217 mil.
NOTAS
PESSOAL
Nas pedreiras e na fábrica da empresa Plácido Simões chegaram a trabalhar 120 pessoas. Hoje não são mais de 45.
15 EUROS
Preço a que se vende hoje o metro quadrado de mármore de segunda categoria. Noutros tempos chegava a pagar-se 35 euros pela pedra.
ARÁBIA
Junto à Kaaba – o lugar mais sagrado do Islão – há várias construções com mármore português.
PALÁCIOS
Várias casas e palácios do Dubai ou da família real da Arábia Saudita têm pedras do Alentejo.
DURÁVEL
Pedra alentejana não muda de cor e não empena, mesmo sujeita às intempéries do deserto.
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